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Abusos: 290 vítimas esperam «inequívoco pedido de desculpas» da Igreja
12.04.2022
A Comissão que investiga os abusos sexuais contra menores cometidos por membros da Igreja Católica em Portugal recebeu nos primeiros três meses de trabalho 290 testemunhos que validou como sendo de vítimas de abusos sexuais. «Materializar o que as vítimas desejam quando nos contactam: inequívoco pedido de desculpas, honrando a dignidade humana do que as reclamam, e compromisso de que o futuro só pode ser de mais luz, harmonia e respeito sobre os mais novos», sustentou Pedro Strecht, responsável pela comissão, falando sobre o testemunho das vítimas.


 
O balanço foi feito por Pedro Strecht e a sua equipa numa conferência de imprensa em que referiu que «é já possível dar uma resposta concreta à Igreja a partir do seu interesse e coragem revelada em fomentar este estudo».
 
A maioria dos 290 testemunhos de abusos dizem respeito a situações que já prescreveram, sendo que apenas 16 foram enviados para o Ministério Público por serem situações que não prescreveram ou onde havia risco de não terem prescrito ou de o alegado abusador poder continuar a cometer abusos atualmente. O prazo de prescrição para esses casos é de 20 anos, pelo que menos de 5% dos casos reportados remontam aos últimos anos. Testemunhos mostram que abusos «vieram a diminuir ao longo dos anos», admitiu Pedro Strecht.
 
Ana Nunes de Almeida, socióloga e membro da comissão, reforçou que os testemunhos recolhidos «não são amostra estatística da população portuguesa ou do universo de vítimas na Igreja Católica, pois não sabemos o universo nem temos como selecionar quem queremos que responda».
 
Foram recebidas 177 chamadas telefónicas, «algumas com mais de 1 hora», referiu Filipa Tavares, assistente social que integra a comissão, e feitas «9 entrevistas presenciais a vítimas e 4 pessoas que contactaram voluntariamente para dar testemunhos por terem informação privilegiada»
 
Ana Nunes de Almeida informou que «todos os níveis de instrução estão representados [nas alegadas vítimas], desde a primária a doutoramentos», mas refere que os níveis de instrução mais elevados estão «subrepresentados». «Há homens e mulheres dentro das vítimas, sendo que são maioritariamente homens, de todas as regiões do país, e de todos os grupos etários», referiu, acrescentando que o intervalo de idade das vítimas vai desde pessoas nascidas em 2009 até pessoas nascidas em 1934.
 
Para além disso, Ana Nunes de Almeida indicou, sem referir números ou predominância, que foram identificados todo o tipo de abusos que a Comissão tinha tipificado no seu manual – exibição, manipulação, penetração, entre outros tipos –, assim como alguns não previstos. «Houve testemunhos de vítimas de abuso através do envio de mensagens de cariz sexual», exemplifica Ana Nunes de Almeida.
 
Os testemunhos recolhidos indiciam que esta é a «ponta do icebergue», refere a socióloga, como é habitual nestas situações, em que muitas vítimas não dão o seu testemunho.
 
 
Há bispos que não responderam à Comissão
 
Ana Nunes de Almeida referiu ainda que a comissão decidiu fazer entrevistas individuais com os bispos titulares das dioceses para falar «sobre a sua vida, as dioceses que coordenam, o seu contacto com esta realidade e o acesso ao espólio de cada diocese», e que, tendo contactado todos, apenas realizaram 12 entrevistas até ao momento e há ainda «cinco bispos que não responderam» aos dois pedidos de entrevista que já foram feitos pela comissão, a 23 de fevereiro e a 11 de março. Isto, apesar de já por várias vezes a Conferência Episcopal Portuguesa ter afirmado a disponibilidade de todos os bispos em colaborar com esta comissão.
 
Ana Nunes de Almeida, sociólogaSobre a validação dos casos, Ana Nunes de Almeida refere que esta é feita avaliando a «consistência interna» do testemunho. «Não é fácil mentir em casos de abusos sexuais, há uma linguagem, uma descrição que se faz que é única», refere.
 
Muitos dos casos são anónimos, e podem nem identificar sequer o abusador, o local onde o abuso foi cometido ou a data em que tal aconteceu, mas são considerados válidos por esta comissão se tiverem esta «consistência interna».
 
Questionados pela Família Cristã sobre se já identificaram abusadores, Ana Nunes de Almeida não quis adiantar quantos abusadores já foram identificados, mas garantiu que «são mais sacerdotes que leigos», e que «há mulheres abusadoras» também, embora o número de abusadores identificados sejam «esmagadoramente homens». 
 
 
Equipa de investigadores externa para os arquivos diocesanos
 
Pedro Strecht aproveitou esta conferência de imprensa para referir que foi criada uma equipa de investigação própria, liderada pelo Prof. Francisco Azevedo Mendes, da Universidade do Minho, para estudar os arquivos diocesanos na busca de mais situações de abusos que tenham ficado registadas e possam ser encontrados nos registos, assim como de movimentos de encobrimento.
 
Sobre estes movimentos de encobrimento, Pedro Strecht confirmou que já identificaram situações em que bispos no ativo encobriram situações e abusos, e bispos que já não estão no ativo, mas a busca nos arquivos diocesanos poderá trazer à luz do dia mais situações destas.
 
Esta equipa trabalhará pro bono, apenas recebendo «ajudas de custo para as deslocações», referiu Pedro Strecht.

Uma das maiores dificuldades tem sido conseguir chegar a toda a gente. Pedro Strecht voltou a elogiar o papel da comunicação social e lamentou que algumas iniciativas promovidas pela sua comissão não tenham tido bom «feedback». «Enviámos cartas aos 308 municípios a pedir ajuda na divulgação da mensagem, mas o feedback foi muito baixo», afirmou, destacando «Lisboa, Porto e Funchal», e pouco mais.

Pedro Strecht afirmou que as vítimas pretendem um «inequívoco pedido de desculpas» 
Para além disso, explicou que a comissão tem feito «múltiplos contactos com pessoas e instituições que possam ter dados». «O movimento de inicial de contacto foi sempre da Comissão, mas o retorno tem sido abaixo do que poderia ser desejável», reconhece.
 
É por estes fatores que considera que «queremos continuar a chegar às margens, ao país profundo», e defende que há «questões culturais» que não ajudam a «quebrar o silêncio». «Há sensação de medo e vergonha das pessoas que foram vítimas e não têm capacidade de vir a público assumir isso. É importante construir uma cultura em que todos vençamos o medo, e em que estejamos todos à procura da verdade», concluiu.
 
Questionados sobre a comparação com os resultados de outros países que conduziram investigações semelhantes, Ana Nunes de Almeida não quis fazer comparações, embora tenha referido que a metodologia seguida em França é semelhante à de Portugal. Lá, uma investigação de dois anos e meio permitiu recolher 216 mil testemunhos de vítimas de abusos e identificar 3.000 abusadores, entre religiosos e leigos, uma realidade até ao momento muito diferente da de Portugal.
 
Em Portugal, a maioria dos testemunhos, cerca de 200, foi recolhido no primeiro mês, e «sempre que a comunicação social publica algo sobre o assunto há um aumento nos testemunhos», razão pela qual esta comissão pretende manter também dinâmica essa sua colaboração mais mediática.

 
Texto e fotos: Ricardo Perna
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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