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Abusos: Bento XVI pede «perdão», mas prova que não encobriu casos
08.02.2022
A Sala de Imprensa do Vaticano tornou pública hoje, dia 8, a resposta que o Papa Emérito Bento XVI redigiu sobre as acusações de encobrimento que lhe foram feitas pela equipa que esta a investigar os abusos sexuais cometidos nas dioceses de Munique e Freising, no sul da Alemanha, redigida dia 6 de fevereiro.

Foto © Vatican Media 
O Papa escreve uma carta onde pede «perdão» e fala de uma «grande culpa». «Em todos os meus encontros – sobretudo durante as numerosas Viagens Apostólicas – com as vítimas de abusos sexuais por parte de sacerdotes, observei nos olhos as consequências de uma tão grande culpa e aprendi a compreender que nós mesmos somos arrastados por esta tão grande culpa quando a negligenciamos ou não a enfrentamos com a necessária decisão e responsabilidade, como aconteceu e acontece com muita frequência», reconhece o Papa emérito.
 
Bento XVI reconhece que a «dor» que sente é maior quando se verificam «abusos e erros» durante «o tempo do meu mandato nos respetivos lugares». «Como fiz naqueles encontros, mais uma vez posso apenas expressar a todas as vítimas de abusos sexuais a minha profunda vergonha, a minha grande dor e o meu sincero pedido de perdão», diz.
 
Posto isto, e voltando a admitir que houve um «erro» na questão da sua presença numa reunião que teve lugar a 15 de janeiro de 1980 e onde se teria discutido a situação de um sacerdote acusado de abusos e onde, acusa a investigação, Bento XVI teria decidido a sua transferência para outros serviços pastorais, conhecendo ele as acusações, Bento XVI nega, e comprova por via factual, que tivesse tido conhecimento dessa situação.
 
Num apêndice à carta, também divulgado hoje, a equipa de colaboradores de Bento XVI que o apoiou na redação desta resposta, e das respostas à investigação inicial, comprova que as acusações não correspondem à verdade, já que «os registos mostram que na reunião de 15 de janeiro não foi decidida a inclusão do sacerdote X em nenhuma atividade pastoral».
 
Mais, diz Bento XVI e os seus colaboradores: as atas mostram que nessa reunião «não se discutiu o facto de o sacerdote ter cometido atos de abusos sexuais», mas apenas a necessidade que havia de o «acomodar em Munique para que pudesse receber terapia», sendo que «a razão para a terapia não foi mencionada» na dita reunião.
 
Sobre a omissão que deu origem a tanta polémica, este anexo explica que teria sido só mesmo um lapso dos seus colaboradores, e que «não fazia sentido mentir sobre isto», já que a sua presença na reunião estava documentada em vários artigos jornalísticos de 2010 e na sua própria biografia, publicada em 2020.
 
A investigação aos abusos em Munique refere ainda que Bento XVI teria tido conhecimento de mais três casos, mas, segundo Bento XVI, não apresenta provas disso. «Ao contrário do caso do sacerdote X que foi publicamente discutido na reunião do clero de 1980, no âmbito da sua acomodação para receber terapia, o mesmo perito disse – na conferência de imprensa de apresentação do relatório sobre os abusos – que não havia nenhuma prova que comprovasse que Joseph Ratzinger estava consciente deles», afirmam, adiantando que esse mesmo perito disse apenas que era «muito provável» que soubesse.
 
Neste sentido, afirma a resposta de Bento XVI, «o cardeal Ratzinger não esteve envolvido em nenhum caso de encobrimento».
 
Sobre as acusações de que teria relevado atos de exibicionismo desse mesmo sacerdote, elas também são negadas. Nas suas memórias, Bento XVI é acusado de referir que «o pároco X era descrito como exibicionista, mas não como abusador no sentido estrito».
 
Esta acusação é também negada, já que afirmam que as palavras de Bento XVI foram retiradas do contexto. «Na sua memória, de facto, Bento XVI diz claramente que os abusos, que incluem exibicionismo, são “terríveis”, “pecaminosos”, “moralmente repreensíveis” e “irreparáveis”», referem, adiantando que o sentido da frase retirada do contexto era o de indicar que, apesar de ser mau o comportamento, este não era, à época, reprovável do ponto de vista da lei canónica «em vigor na altura».
 
No final da sua carta, Bento XVI reafirma que «em breve me encontrarei perante o último Juiz da minha vida». «Embora ao olhar retrospetivamente a minha longa vida possa ter tantos motivos de susto e medo, todavia estou com o coração feliz porque confio firmemente que o Senhor não é só justo juiz, mas simultaneamente é o amigo e o irmão que já padeceu, Ele mesmo, as minhas deficiências e, consequentemente, ao mesmo tempo é juiz e meu advogado (Paráclito)».

 
Texto: Ricardo Perna
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