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Abusos: Igreja fala de perdão, mas custa «admitir que erraram»
10.05.2022
A Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa organizou um colóquio que juntou hoje, dia 10, vários especialistas nacionais e internacionais na Fundação Calouste Gulbenkian para refletir e dar alguma formação relacionada com esta matéria dos abusos.

 
O dia serviu para ouvirmos também D. José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), reiterar «o pedido de perdão pela falta de atenção ao vosso sofrimento ou de prevenção às suas causas». O bispo de Leiria-Fátima esteve presente da parte da tarde, juntamente com o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, e o bispo emérito de Bragança-Miranda, D. António Montes Moreira. Foram as únicas presenças em termos de bispos no evento juntou cerca de 100 pessoas para ouvir estes especialistas, entre o quais cerca de duas dezenas de sacerdotes.
 
O orador mais esperado era o Pe. Hans Zollner, sj, membro da Comissão Pontifícia para a Tutela dos Menores (CPTM), da Santa Sé, que veio explicar que, nesta matéria dos abusos, nada é a «preto e branco, foi o que aprendi neste tempo que estou a lidar com isto». O sacerdote jesuíta explicou o contexto de como os abusos transformaram a perceção das pessoas em lugares de responsabilidade na Igreja, como o Papa e os bispos, e que «os intocáveis tornaram-se alvos». «Isto é algo recente, há a suspeita generalizada que os bispos não fazem o que é suposto fazerem, e isto é uma desconfiança na Igreja que temos de enfrentar», refere o sacerdote, que dá o «remédio». «Se perdemos confiança, a única forma de a recuperar é fazer o que dizemos que fazemos, cumprirmos as nossas promessas e não pretender ser tratados de forma diferente», pediu.
 
O Pe. Hans Zollner explicou ainda que, mais que o abuso, o assunto que mais choca é a ocultação dos crimes por parte da Igreja, pois «toda a gente erra», mas «há uma componente cultural católica que impede assumir o erro, deixar o cargo e pagar o preço», algo que é «verdadeiramente perturbador». «Já estive em 70 países, em todos os continentes, para abordar este tema. Já vi a base da Igreja Católica, a hierarquia e tudo o que está pelo meio, nesses 70 países. E é surpreendente e perturbador que os mesmos mecanismos – insisto, os mesmos mecanismos, não similares, mas os mesmos – de defesa da instituição, à custa da consciência sobre o sofrimento das pessoas, tenham sido colocados em ação. A negação da realidade ou a negligência, a falta de vontade de a enfrentar realmente. Isto é o ponto que me deixa muito, muito triste e também acredito que isto é algo que não consigo entender, racionalmente, porque não consigo perceber como é que tornamos tão difícil enfrentar a verdade. As pessoas admitem que qualquer pessoa com cargos de liderança comete erros. Se alguém for o chefe, durante cinco ou 10 anos, vai cometer muitos erros. Todos o fazem. O problema é que assim que se admite ter errado, as pessoas podem perdoar; se negar ter feito erros, as pessoas deixam de acreditar e de confiar», sustentou.

 
O sacerdote jesuíta, que tem estado na linha de ação através do Centro de Proteção de Menores da Universidade Gregoriana e agora da CPTM, elogiou a Igreja portuguesa que, ao contrário de outros países, que, «em vez de aprenderem com os outros, tivera de passar pelos mesmos processos e experiências», parece que «aprenderam com os outros, que demoraram muito mais tempo».
 
A tarefa de acabar com os abusos passa, diz, por todos nós. «Todos temos algum poder para prevenir que os abusos sobre as crianças não aconteçam. O que podemos fazer é garantir que não cometemos esses crimes nós mesmos, garantir que as pessoas à nossa volta sabem disto e as instituições que representamos são capazes de criar um espaço seguro, onde as pessoas podem viver livremente e sentirem-se seguras», defendeu.
 
Admitindo que a Igreja faz hoje o que «nenhum Estado, ONG ou outra organização faz em termos de prevenir abusos e dar formação aos seus agentes», o Pe. Hans Zollner refere que o problema é saber «lidar com o passado». «Lidar com o passado, é a minha opinião, tem sido mal feito. Reconhecer os casos de abusos e a negligência que eles provocaram. Precisamos de lidar melhor com o passado, para que a parte boa seja valiosa e visível», afirmou.

 
«Total transparência agora» da Igreja é chave para entender o passado
Quanto aos outros oradores do dia, Pedro Strecht abriu os trabalhos explicando que é preciso «perder o medo», até porque «muitas pessoas depois dos abusos continuam a afirmar-se maioritariamente católicas, pelo que à própria Igreja interessa continuar a cuidar» destas pessoas.
 
O importante é fazer este trabalho, afirmou o pedopsiquiatra, até para «chegar a um ponto em que conseguimos distinguir pessoas da entidade». «Quem foram as pessoas que, dentro da Igreja, agiram de uma maneira menos adequada, percebendo que isso as distingue da Igreja instituição», disse aos jornalistas num dos intervalos.

 
A mesma ideia foi defendida por Álvaro Laborinho Lúcio, que explicou que o contexto dos abusos e da ocultação há décadas pode ser compreendido dentro do contexto da própria sociedade, que menosprezava os jovens e não lhes atribuía toda a importância que hoje já possuem, mesmo em termos de direito. Neste sentido, explicou, «nos dias de hoje, ou há total transparência agora, e podemos usar a questão cultural para compreender a ocultação e os abusos que ocorreram no passado, ou a Igreja rejeita a transparência e promove a ocultação».
 
O antigo juiz defendeu então que, «se promover a ocultação, não está a fazer mais do que fazer seus os abusos que aconteceram no seu seio, e retirar de todos nós e das nossas crianças a esperança de que as coisas se venham a modificar».
 
Pedro Strecht reforçou ainda uma outra ideia de que a importância deste trabalho que está a ser feito ao nível da Igreja pode ter no resto da sociedade. «Isto é importante para a Igreja, mas mais importante para toda a sociedade, onde só no início do ano de 2021 se registaram 1300 casos de abusos a crianças», referiu o médico que lidera a comissão, que acrescentou que «em bom tempo a CEP quis abrir os olhos para esta situação».
 
Ana Nunes de Almeida, a socióloga da Comissão, reportou que, à data de ontem, existiam já 326 testemunhos validados, mas que podem haver, a partir dos relatos destas vítimas que reportam outros abusos, «muitas centenas» de casos mais.
 
Para esta especialistas, «conhecer a realidade é reconhecer que ela existe» e «afasta julgamentos precipitados ou de uma sociedade a preto e branco».
 
Isabel Soares, psicóloga e professora catedrática da Universidade do Minho, tve a intervenção mais técnica do dia para explicar de que forma os abusos têm impacto na vida futura das crianças que são abusadas. A professora explicou como estes traumas podem provocar dissociação, que levam as crianças a achar que o abuso nunca ocorreu realmente, o que prejudica a sua capacidade de denunciar o abuso, que sendo repetitivo, pode inclusive implicar transformações ao nível da formação do seu cérebro.
 
Para esta professora, «ambientes institucionais promovem o aparecimento de abusos repetitivos, por causa do aparecimento de figuras de autoridade», não apenas no âmbito religioso, mas também no âmbito desportivo, afirmou, acrescentando ainda o «contexto familiar», que é o que tem «maior risco de aparecimento de abuso sexual», em função das relações de confiança que lá se estabelecem.

Professora Isabel Soares, da Universidade do Minho 
O facto de haver mais vítimas femininas que masculinas no fenómeno dos abusos de crianças é algo contrário à realidade dos abusos dentro da Igreja, onde as vítimas são maioritariamente rapazes, que podem ter mais dificuldade em admitir o abuso que sofreram.
 
Para além disso, o abuso no ambiente espiritual «pode ter ainda mais peso, por causa do conceito de Inferno, de pais que não vão acreditar nas histórias das crianças, ou até de receio que a família se possa destruturar» com estes relatos, considerou Isabel Soares.
 
A terminar, Pedro Strecht foi colocado perante a possibilidade de haver dioceses que não desejem colaborar com a questão da abertura dos arquivos diocesanos. O responsável pela Comissão não se mostrou preocupado, já que «se algum bispo não der acesso, Roma deverá intervir e autorizar» esse acesso. Uma tomada de posição mais forte, à semelhança do que já tinha acontecido com o facto de ter sido anunciado que havia bispos que não estavam a responder à comissão, e que mais tarde foi reconhecido por Daniel Sampaio como tendo sido um gesto de colocar pressão aos bispos.
 
Quanto ao facto de ter já enviado 16 relatos para o Ministério Público, mas não terem ainda sido despachados (situação que foi posteriormente negada pela Procurador Geral da República, que também marcou presença no evento), Pedro Strecht deixou o desejo de «celeridade na justiça portuguesa». «Não quero ser confrontado com a total ausência de respostas jurídicas no final do nosso trabalho», pediu, admitindo que «em breve» serão enviados mais testemunhos para o Ministério Público.

 
 Texto e fotos: Ricardo Perna
 
 
 
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