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Abusos na Igreja: Papa escreve que «feridas nunca prescrevem»
20.08.2018
O Papa Francisco publicou hoje uma Carta ao Povo de Deus na qual expressa pesar por «um crime que gera profundas feridas de dor e impotência, em primeiro lugar nas vítimas, mas também em suas famílias e na inteira comunidade, tanto entre os crentes como entre os não-crentes». «Com vergonha e arrependimento, como comunidade eclesial, assumimos que não soubemos estar onde deveríamos estar, que não agimos a tempo para reconhecer a dimensão e a gravidade do dano que estava sendo causado em tantas vidas. Nós negligenciamos e abandonamos os pequenos», refere o Papa neste documento, publicado hoje em diferentes línguas.


Nos últimos dias foi conhecido um relatório nos Estados Unidos da América que refere a existência de abusos sexuais a menores por parte do clero, com mais de 1000 casos referenciados. Isto depois de, há meses, terem sido conhecidas acusações referentes ao clero no Chile. O Papa escreve que «a dor dessas vítimas é um gemido que clama ao céu» e assume que «por muito tempo, foi ignorado, emudecido ou silenciado». «Mas o seu grito foi mais forte do que todas as medidas que tentaram silenciá-lo ou, inclusive, que procuraram resolvê-lo com decisões que aumentaram a gravidade caindo na cumplicidade», referiu.
 
No documento, o Papa pede «tolerância zero», e uma mudança na atitude perante a denúncia de situações deste género. «Se no passado a omissão pôde tornar-se uma forma de resposta, hoje queremos que seja a solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo e desafiador, a tornar-se o nosso modo de fazer a história do presente e do futuro, num âmbito onde os conflitos, tensões e, especialmente, as vítimas de todo o tipo de abuso possam encontrar uma mão estendida que as proteja e resgate da sua dor», defende o Papa.
 
Para isso, o Santo Padre compromete todo o Povo de Deus nesta tarefa, não apenas os sacerdotes e o clero. «É necessário que cada batizado se sinta envolvido na transformação eclesial e social de que tanto necessitamos. Tal transformação exige conversão pessoal e comunitária, e nos leva a dirigir os olhos na mesma direção do olhar do Senhor», diz o Papa, que acrescenta que «toda a vez que tentamos suplantar, silenciar, ignorar, reduzir em pequenas elites o povo de Deus, construímos comunidades, planos, ênfases teológicas, espiritualidades e estruturas sem raízes, sem memória, sem rostos, sem corpos, enfim, sem vidas».
 
O Papa Francisco volta a criticar o clericalismo, conforme já o fez em diversas ocasiões, considerando que «gera uma rutura no corpo eclesial que beneficia e ajuda a perpetuar muitos dos males que denunciamos hoje. Dizer não ao abuso, é dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo», escreve.
 
Penitência e jejum para combater toda e qualquer forma de abuso
Neste sentido, e para combater este «mal», o Papa convida «todo o Povo Santo fiel de Deus ao exercício penitencial da oração e do jejum, seguindo o mandato do Senhor, que desperte a nossa consciência, a nossa solidariedade e o compromisso com uma cultura do cuidado e o “nunca mais” a qualquer tipo e forma de abuso». Esta oração e penitência poderá servir, afirma, para o Povo ganhar a consciência «de nos sentirmos parte de um povo e de uma história comum», que permitirá «reconhecer nossos pecados e erros do passado com uma abertura penitencial capaz de se deixar renovar a partir de dentro».
 
Estendendo o problema dos abusos para lá das questões sexuais do clero, o Papa escreve que «tudo o que for feito para erradicar a cultura do abuso em nossas comunidades, sem a participação ativa de todos os membros da Igreja, não será capaz de gerar as dinâmicas necessárias para uma transformação saudável e realista». «A dimensão penitencial do jejum e da oração ajudar-nos-á, como Povo de Deus, a nos colocar diante do Senhor e de nossos irmãos feridos, como pecadores que imploram o perdão e a graça da vergonha e da conversão e, assim, podermos elaborar ações que criem dinâmicas em sintonia com o Evangelho», pode ler-se.
 
O Papa pede que as pessoas estejam ao lado de quem mais sofre, mas não apaga o principal motivo desta carta, e mais que uma vez no documento afirma que «é imperativo que nós, como Igreja, possamos reconhecer e condenar, com dor e vergonha, as atrocidades cometidas por pessoas consagradas, clérigos, e inclusive por todos aqueles que tinham a missão de assistir e cuidar dos mais vulneráveis».
 
Francisco elogia o «esforço e o trabalho» de quem já, em todo o mundo, trabalha contra estes abusos e cria as medidas «necessárias que proporcionem segurança e protejam à integridade de crianças e de adultos em situação de vulnerabilidade, bem como a implementação da “tolerância zero” e de modos de prestar contas por parte de todos aqueles que realizem ou acobertem esses crimes». «Tardamos em aplicar essas medidas e sanções tão necessárias, mas confio que elas ajudarão a garantir uma maior cultura do cuidado no presente e no futuro», defende o Papa.
 
A terminar, o Papa pede que, com o exemplo de Maria, cada um possa «crescer mais no amor e na fidelidade à Igreja».«”Um membro sofre? Todos os outros membros sofrem com ele”, disse-nos São Paulo. Através da atitude de oração e penitência, poderemos entrar em sintonia pessoal e comunitária com essa exortação, para que cresça em nós o dom da compaixão, justiça, prevenção e reparação», conclui.
 
Texto: Ricardo Perna
Foto: Lusa
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