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Acolhimento como expressão de fé
30.09.2019
Depois de um dia de praia, fui celebrar a Eucaristia. No final uma senhora veio ter comigo à sacristia. Percebi que se encontrava numa situação de sofrimento e necessitava que a escutasse e aconselhasse.

Ao mesmo tempo que a ouvia, fui-me dando conta de muita movimentação à minha volta acompanhada de barulhos cada vez mais fortes. Percebi que era o sacristão a arrumar as alfaias litúrgicas e as ofertas da missa, os paramentos e as cadeiras. Sacristão este que muito admirava, pois cuidava não apenas dos aspetos práticos da igreja, como abrir e fechar a porta, preparar o altar, distribuir as leituras e animar os cânticos, mas também orientava a oração do terço e a adoração ao Santíssimo, antes da missa, com muita devoção e para proveito espiritual dos fiéis.

A certo ponto apagam a luz e o sacristão dirige-se a nós dizendo que tinha de fechar a igreja, não podia ficar ali mais tempo, sublinhando que as confissões eram antes da missa e era hora de irmos embora. Fiquei perplexo com toda aquela situação e sem saber muito bem como reagir. Não era o pároco, estava ali apenas de passagem, não queria criar conflitos… Despedi-me da senhora, ela retirou-se humildemente, foi-se ajoelhar junto do sacrário e depois foi-se embora. Eu, com menos humildade, decidi perguntar ao sacristão se não achava indelicado pôr assim o padre na rua e perder a oportunidade de fazer uma obra de caridade para com aquela alma em sofrimento. Ao que me respondeu que compreendia o que dizia, mas já ali estava há muito tempo e ainda tinha de ir regar as batatas.

Pensei para comigo e exteriorizei para com ele também: se é assim que queremos evangelizar não vamos a lado nenhum. De que valem as belas orações e cânticos a Nossa Senhora e a Nosso Senhor se depois não somos capazes de um acolhimento pastoral que põe em primeiro lugar aquele que sofre? Claro, foram perguntas retóricas porque àquele ponto, praticamente empurrado a sair da igreja, já não havia capacidade, nem tempo, de escuta e de diálogo.

Naquela circunstância, recordei as palavras do Papa Francisco pronunciadas em duas ocasiões diferentes: «Acolher o outro é acolher Deus em pessoa.» E ainda: «Uma Igreja verdadeiramente segundo o Evangelho só pode ter a forma de uma casa acolhedora com as portas abertas para todos, sempre. As igrejas, as paróquias, as instituições com as portas fechadas não se devem chamar igrejas, mas museus.»

Estou convencido de que não houve maldade da parte daquele sacristão nas atitudes que tomou. Apenas houve falta de sensibilidade pastoral. Assim como não gostaria que lessem estas palavras como uma crítica fácil, mas um convite à reflexão sobre as nossas atitudes enquanto cristãos, precisamente no início de mais um ano pastoral.

Deixemo-nos iluminar, uma vez mais, pelas palavras do Papa Francisco: «Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: “Dai-lhes vós mesmos de comer.” (Mc 6,37)»

Estou cada vez mais convicto de que o acolhimento é uma verdadeira expressão de fé pela qual somos cada vez mais procurados. Não desperdicemos estas boas ocasiões!