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Vida Cristã
Acompanhar na doença
21.05.2016
Depois da explicação do que é e não é a eutanásia, Mons. Feytor Pinto reflete sobre a dignidade da vida dos doentes e o modo como devem ser acompanhados.

Ao doente em fase terminal, isto é, na proximidade da morte, devem proporcionar-se todos os apoios indispensáveis: os cuidados médicos e de enfermagem que garantam a suficiente qualidade de vida, sobretudo o importante alívio do sofrimento; os cuidados afetivos da família e dos amigos, com a “terapia da compaixão”, isto é, acompanhamento constante e com aquilo a que o Papa Francisco chamou “carinhoterapia”, uma presença de amor, e os cuidados espirituais de preparação para um tempo final vivido com a serenidade e a paz que a religião de cada um pode proporcionar. Envolver o doente com todos estes cuidados vai permitir a morte digna. Precipitar a morte, com o auxílio de médicos e o apoio da família constitui uma morte indigna, porque não respeita a vida, o primeiro de todos os valores do ser humano. Qualquer que seja a razão, técnica ou afetiva, precipitar a morte é sempre um contravalor inaceitável. Dá a sensação que médicos e familiares preferem o mais fácil, o mais breve, o menos incómodo, do que acompanhar o doente até ao fim proporcionando-lhe a qualidade de vida indispensável, nestas circunstâncias.

Em termos médicos, o acompanhamento faz-se com os cuidados paliativos e os cuidados de compaixão. Os cuidados de compaixão não consistem em ter pena do doente, mas em estar presente em todo este processo com um acompanhamento que sendo técnico é também afetivo, de confiança, e de ajuda até ao último momento. Os cuidados paliativos constituem um dos elementos mais importantes para aliviar o sofrimento do doente e dar qualidade a uma morte digna. Todos os hospitais deveriam proporcionar cuidados paliativos aos doentes em fase terminal. O investimento nos cuidados paliativos é um dever do Estado. Em vez de querer aprovar legislação para o direito à Eutanásia, exige-se a criação de muitas unidades de cuidados paliativos para proporcionarem bem-estar na fase de grande sofrimento, pela proximidade da morte.

Divulgou-se em alguns países o exercício do suicídio assistido. Numa perspetiva ética, ninguém tem direito de pedir a sua própria morte. A vida não é apenas um bem pessoal, é também social e, por isso, ninguém pode dispor da própria vida porque ela envolve muitas outras pessoas. O suicídio é sempre negativo e a assistência nele, isto é, o apoio ao suicídio, dado pelos médicos ou pelos familiares e amigos, é sempre inaceitável. Se a vida é inviolável, ela é também indisponível. É, então, esta a razão pela qual discutir a vida não pode nunca estar sujeita a um referendo. Os valores fundamentais nunca podem ser postos em questão, fazem parte dos ideais mais profundos do ser humano. Não é aceitável o relativismo de um referendo que pudesse comprometê-los. A liberdade, por si só, não valida atos que comprometem valores que estão inscritos no coração do homem. Destruir a vida será sempre condenável.

Os cristãos têm o dever de respeitar, defender e promover sempre a vida, como maravilhoso dom de Deus. A culpa de Adão, na alegoria do Génesis, foi exatamente esta, a de querer ser ele o senhor da vida. A tentação levou-o a comer do fruto “da árvore da vida”, acabando por contrariar todo o projeto de Deus, provocando a total divisão entre o homem, a mulher e o universo. O homem ao querer ser senhor da vida, arrugou-se também o direito de ser senhor da morte. E Caim matou Abel. É nesta visão bíblica que o ser humano ao esquecer Deus considera ter direito de destruir a vida humana. Fá-lo com a Eutanásia, homicídio e suicídio assistido. Tudo isto é eticamente inaceitável.
 
Monsenhor Feytor Pinto
Pároco do Campo Grande, Lisboa
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