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Acreditar também é uma escolha
08.10.2018

Humana, quero dizer.

Adoro a coerência…e faço tudo por ser coerente, a sério que é um esforço ao qual me dedico. Porém, somos humanos e algumas “incoerências” (está entre aspas propositadamente, já explico) todos temos.

Antes de passar ao tema – a acusação de violação de que Cristiano Ronaldo foi alvo – é preciso esclarecer, e espero eu que muito bem, algumas coisas relativas ao que penso sobre um crime de violação: uma violação é-o sempre na medida em que resultar do ato de uma pessoa contra a vontade da outra e se há um “não”, é para parar imediatamente (independentemente do que se passou até ao “não”).
O facto de existirem pagamentos não elimina a violação (e se houve alguém que recebeu, houve alguém que pagou).
O crime também não se apaga porque se ficaram muitos anos sem o verbalizar.

Passando ao assunto deste texto, e saindo em defesa de algumas pessoas que têm sido acusadas de “incoerência” (uso a palavra porque é disso que têm sido acusadas, mas na verdade, não sei se será bem a palavra certa) porque não se manifestaram tão defensoras da vítima no caso que envolve CR7, como noutros casos, eu consigo perceber que haja “incoerências”.

A incoerência é humana. Tal como é humano preferir acreditar numa pessoa de quem se gosta e cuja imagem social é a de uma boa pessoa. E por vezes, essa pessoa pode encontrar-se em lados diferentes da barricada; pode ser quem se diz vítima de algo ou quem se vê acusado de alguma coisa.

Que tristeza seria se quem nos conhece um pouco não escolhesse acreditar em nós até prova em contrário, estejamos nós em que lado da barricada for (obviamente que aqui falo de pessoas e não da justiça e dos direitos fundamentais, já que todos temos direito à presunção de inocência e não questiono isto como direito).

Se conhecemos uma pessoa (mesmo que apenas a sua imagem social) e se aquilo que lhe conhecemos é bom e nos inspira confiança, eu diria que, em termos humanos, o mais normal é acreditarmos naquela pessoa. Por isso é que, por vezes, damos connosco a acreditar em pessoas que se dizem vítimas de algo e, noutras vezes, em quem se vê acusado, muitas vezes em situações semelhantes (se o facto de escolhermos acreditar num dos lados, nos dá o direito de denegrir e dizer tudo o que vem à cabeça sobre o outro, não dá, mas isso é uma outra discussão).

O limite da “incoerência” termina no momento do esclarecimento, ou melhor dizendo, do veredito. E aqui, também, só nos resta confiar nas provas e na justiça.

Se consideramos que uma violação é um crime e que quem o comete é um violador, contra uma vítima, quando se dá o esclarecimento, temos de ficar do lado da “bancada” que apregoamos.
Mas até lá, a confiança, a esperança, a crença, podem-se manifestar.

Com isto quero dizer que também eu – que considero que uma violação é sempre uma violação, que um não é sempre um não e que um violador é um criminoso – gosto do Cristiano Ronaldo, tenho uma imagem dele de boa pessoa e faço a escolha consciente de preferir acreditar no que ele diz até prova em contrário (neste caso, do lado da presunção de inocência). No entanto, eu, a mesma pessoa, pelos mesmos motivos, já escolhi acreditar noutras pessoas que se disseram vítimas de crimes semelhantes antes mesmo de a justiça ter determinado um culpado, porque simplesmente não me passaria pela cabeça que estivessem a mentir.

Escolher acreditar nas “nossas” pessoas não é bem uma incoerência... Pondo-me em qualquer dos papéis (de vítima ou acusada), o mínimo que eu esperaria seria que as minhas pessoas acreditassem em mim.
Mas a incoerência termina nos direitos que todos temos e na vontade de querermos acreditar na pessoa que temos como boa.
Os factos serão os que forem e, quando provados, não deixam margem para incoerências, estejam ou não de acordo com a “nossa” pessoa.