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Adeus, Angela!
04.10.2021
A líder do partido democrata-cristão CDU decidiu que era a altura de se retirar – e anunciou-o com muita antecedência. Mesmo assim, a Alemanha e a Europa não estão preparadas para deixar de contar com uma das líderes mais influentes e respeitadas das últimas décadas.
 
 epíteto de Mãe ou Pai da Nação está habitualmente reservado a ditadores que nada de bom fizeram para o ganhar, ou então a figuras históricas tão distantes no tempo que pouco ou nada sabemos sobre a sua real personalidade.
Angela Merkel não está em nenhuma dessas categorias, mas, no entanto, é tratada comummente na Alemanha por «mutti» – mãezinha ou mamã em português.

Ao contrário do que possa parecer, não é um tratamento exaltante – Merkel seria a primeira a horrorizar-se com qualquer tentativa de a endeusar – e até tem uma pitada de ironia, mas mesmo assim reflete a afeição, ou pelo menos o respeito, que a grande maioria dos alemães têm pela sua chanceler.

À semelhança de qualquer mutti, Merkel está sempre presente quando é preciso, e, mesmo quando não concordamos com ela, podemos confiar que ela faz sempre o que acha que é melhor para nós. E acerta na grande maioria das vezes.
Quantos líderes internacionais podem hoje a aspirar a tal reputação?

Angela Merkel é chanceler da Alemanha desde 22 de novembro de 2005. Neste período de quase 16 anos, os Estados Unidos da América tiveram quatro presidentes, a França outros quatro e houve cinco primeiros-ministros no Reino Unido.

Estar tanto tempo no poder num regime democrático é muito raro, e mais ainda se tivermos em atenção que Merkel governou sempre em coligação – e com parceiros muito diferentes. Isto é uma demonstração cabal das qualidades do sistema político-partidário alemão, que preserva a estabilidade com enorme eficácia, mas também tem muito a ver com as qualidades da Sr.ª Merkel: equilíbrio, bom-senso, flexibilidade e sentido tático e estratégico.

A chanceler é, muitas vezes, acusada de não ter ideologia, e até de ter tirado o cristianismo do seu partido, mas as suas ações mostram que defendeu consistentemente uma ideia muito simples e muito cristã, que ainda por cima se tem tornado rara nos últimos anos: a decência.

Decência na conduta dos assuntos públicos ao longo de 16 anos quase livres de escândalos; decência nas escolhas políticas em momentos decisivos da Alemanha e da Europa.

Foi Merkel que decidiu, em 2015, abrir as portas do país a cerca de um milhão de refugiados sírios, quando quase todo o resto da Europa fazia exatamente o contrário; foi ela que ergueu a bandeira da democracia liberal, a glória do Ocidente, quando Donald Trump a pisoteou; foi ela que impulsionou um plano de recuperação pós-COVID para a União Europeia que, com grande sentido solidário, corrige muitos dos erros cometidos na resposta à crise financeira de 2008-2012.
 
Um erro…
A crise das dívidas soberanas e o que se seguiu constituem um episódio negro da história da União Europeia (UE) e poderão muito bem ser o maior falhanço de Angela Merkel como líder continental, muito embora ela esteja longe de ser a principal responsável.

A imposição de medidas de austeridade tremendas aos países, como Portugal, que necessitaram de ajuda dos seus parceiros europeus para evitar a bancarrota revelou-se um enorme erro porque causou sofrimento desnecessário, atrasou a recuperação económica do continente e alimentou os extremismos.

Hoje, é o próprio ministro das Finanças de Merkel na altura, Wolfgang Schauble, que reconhece que a política seguida na altura foi, pelo menos em parte, um erro, mas a mea culpa já vem tarde. A crise de 2009-2011 criou uma divisão que permanece até hoje na União Europeia e põe em causa o seu futuro: Norte vs Sul; Ricos vs Pobres; Frugais vs Gastadores.

Angela Merkel não foi a principal impulsionadora do castigo imposto a portugueses e gregos, só para falar dos mais afetados, mas também não o impediu – se é que tentou. Numa democracia, o poder do chefe de um governo é sempre muito menor do que se pensa, e nem mesmo a mutti escapa a esse ditame.

Merkel tinha de se entender com os liberais no seu governo e com outros executivos da União Europeia que tinham muito pouca vontade de ajudar os países do Sul. Perante isto, talvez a chanceler não pudesse ter feito melhor, mas a verdade é que, durante os seus 16 anos de governo, o edifício europeu abriu mais fendas do que nunca.
 
… e uma lição aprendida
Todavia, é indiscutível que ela parece ter aprendido bem as lições de 2009-2012.  A pandemia de COVID-19 é uma situação muito diferente da crise financeira daquela altura, é certo, mas o plano europeu acordado em 2020 é totalmente diferente na maneira como trata os estados mais necessitados.

Onde antes havia uma visão castigadora, restritiva e frugal, agora há uma postura cooperativa, ousada e generosa. Vai haver muito dinheiro em muito pouco tempo, e a maior parte vai ser distribuído sob a forma de subsídios e não de empréstimos, que apenas serviriam para sobrecarregar as já débeis economias do Sul da Europa.

Podia não ser assim. Os debates em Bruxelas foram muitas vezes brutais. O acordo esteve em dúvida em vários momentos e ficou claro que as divisões já vão para além dos valores monetários e entram no reino dos valores políticos e humanos.

Mesmo assim o plano foi aprovado, e sem Merkel nunca existiria – pelo menos não na forma atual. A sua visão estratégica está lá.

A União Europeia vai investir mais de dois biliões de euros numa transição acelerada para a economia digital e verde como alavanca para o desenvolvimento. Se o plano der os frutos desejados, será a maior herança que Angela Merkel deixará à Alemanha e à Europa.
A face de ambas mudará para sempre.