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«Alarga o espaço da tua tenda»
18.06.2018
A ocorrência do Dia Mundial dos Refugiados, no dia 20 de junho, suscita motivos para concentrarmos as atenções sobre um dos maiores dramas da atualidade: o dos refugiados.

«Muitas vezes ouve-se dizer que, face ao relativismo e aos limites do mundo atual, seria um tema marginal, por exemplo, a situação dos migrantes. Alguns católicos afirmam que é um tema secundário relativamente aos temas “sérios” da bioética», afirma o Papa Francisco na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, sobre o chamamento à santidade, considerando que a «única atitude condigna» dos cristãos perante a crise dos refugiados «é colocar-se na pele do irmão que arrisca a vida para dar um futuro aos seus filhos».

Estamos perante uma enorme tragédia que teima em persistir, sem fim à vista, sabendo que nunca terá uma solução rápida e será sempre complexa. As rotas de migração têm origem em múltiplos países, essencialmente da África e da Ásia, marcados pela violência e pela miséria, estendem-se por milhares de quilómetros, atravessando dezenas de outros países, para chegar à Europa, depois de atravessarem o Mediterrâneo.

As pontes de diálogo são um primeiro passo para a resolução dos problemas. Todavia, os países tocados pelo drama desta migração devem procurar dar respostas, no imediato, às necessidades de sobrevivência dessas populações.

«Alarga o espaço da tua tenda» (Is 54,2) foi o tema da assembleia geral das Conferências Europeias dos Superiores das Congregações Religiosas, realizada na Roménia, que levou ao compromisso destas instituições em acompanhar a população migrante, defendendo a sua dignidade e os seus direitos. O tema leva a refletir sobre alguns dramas recentes da história europeia, que, em situações bem piores, conseguiu dar uma resposta de grande envergadura e de enorme elevação. Muitos recordarão que, há cerca de 44 anos, o nosso país acolheu, em pouco mais de um ano, quase mais 10% da sua população oriunda das ex-colónias. Tempos em que as condições de vida em nada se comparavam com as atuais. Ainda que pejados de condicionalismos, alguns preconceitos e muita pobreza, fomos capazes de alargar o espaço da “nossa tenda” para que todos coubessem. Da mesma forma, a sociedade e a economia da Alemanha Ocidental, com outro poderio económico e uma capacidade social bem maior, acolheram mais de 25% da população na reunificação, após a queda do muro de Berlim.
O ensaísta e filósofo judeu George Steiner, cuja vida e pensamento ficaram para sempre marcados pelo Holocausto, afirmou que «a solidariedade coletiva só funciona na tragédia, mas no dia a dia é uns a ver e os outros a sofrer». O que assusta é sermos muitos a ver o mesmo durante muito tempo, caindo no perigo da banalização.

Na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações, em 2017, o Papa Francisco convidava a «ultrapassar aquele sentimento de mau humor e resignação que muitas vezes se apodera de nós, lançando-nos na apatia, gerando medos ou a impressão de não ser possível pôr limites ao mal. (…) Onde o drama do sofrimento e o mistério do mal facilmente são elevados a espetáculo, podemos ser tentados a anestesiar a consciência ou cair no desespero.»