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Ao jeito de Jesus
24.09.2018
Quando foi abordado por uma criança – numa escola de Coimbra, na década de 1970 – que lhe perguntou o que era preciso fazer para se ser feliz, o Pe. Zezinho respondeu-lhe e inspirou-se nesse episódio para, nas semanas seguintes, antes de regressar ao Brasil, compor uma das suas canções de maior êxito: Amar como Jesus amou. Ao dirigir-se aos jovens no santuário chileno de Maipú, em janeiro passado, o Papa Francisco confiou-lhes a palavra-passe para se manterem sempre conectados com Jesus, na escola, na universidade, na rua, em casa, com os amigos, no trabalho: «Perguntar-se sempre: “O que faria Cristo no meu lugar?”»

Estes dois episódios apenas repetem o que encontramos várias vezes no Novo Testamento, em especial nas cartas de São Paulo, sobre a necessidade de termos os mesmos sentimentos de Cristo, a mesma forma de pensar, a mesma conduta de vida.
Urge recordarmos com frequência esse aspeto central na dinâmica da vida, agora que se inicia uma nova fase de programação das diversas atividades escolares, académicas, profissionais, de lazer e, obviamente, pastorais e religiosas. Saberão, todos os cristãos, colocar Cristo em todos esses momentos ou guardar esse momento apenas para a hora preceituada do domingo?

Na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, o Santo Padre deixa apelos à forma como contrariar a tendência narcisística e autorreferencial do nosso tempo, onde até pode existir algum espírito de filantropia, limitado a um mínimo incómodo, deixando os demais cuidados à mercê das instituições, incapazes, de todo, em dar resposta a tantas solicitações. Defender e viver o modo de agir de Jesus obriga a um compromisso com o próximo, na possibilidade de cada um, sobretudo com cargos públicos na esfera política e não só. De outra forma, incorre-se na atitude do sacerdote e do levita da parábola do bom samaritano que, no cumprimento do dever ritual, se afastaram do necessitado, caído na berma da estrada, para não ficarem “impuros”. Em situações semelhantes, Jesus sempre afirmou em fazer o mais urgente sem descurar o restante numa lógica de hierarquia de valores que se devem preservar.

Anunciado como um sinal de contradição, Jesus mudou sociedades e políticas num passo gigantesco para um mundo mais humano e mais divino. Se a religião, a economia e a política do seu tempo não eram garantes de dignidade para todos, Ele fez da sua missão a procura constante dos preteridos dessas instituições, para lhes dar a conhecer a Boa Nova, sem prejuízo da dedicação incessante ao Pai.

Há que dotar de divino e transcendente o dia a dia, por exemplo, dando espaço à Providência, como fez a pobre viúva, no Evangelho, que, junto ao Templo, deu tudo o que tinha. Perante a indigência, Jesus defende a ausência de qualquer espírito interesseiro e, também, menos refém de calculismos financeiros numa atitude de confiança no Pai, que está nos Céus, para que a Igreja não seja, apenas, mais uma instituição de caridade, igual a tantas outras.

O Ano Missionário, convocado pela Conferência Episcopal Portuguesa, será uma oportunidade para se fazer render talentos e preconizar valores, decidindo se queremos embeber do Espírito de Jesus a cultura e a sociedade que nos desafiam.