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As mães não usam casacos (mas deviam!)
05.03.2018
Descobri porque é que as mães não usam casacos. E por casacos quero dizer sobretudos, blusões almofadados a penas e abafos do género. Descobri à minha custa, ou melhor relembrei, porque já houve tempo em que teria a resposta na ponta da língua. Fiquei com três dos meus netos durante dois dias, apenas dois dias, e não foi preciso mais para que se fizesse luz. Começa logo com o sair de casa, que com crianças nunca é uma cadeia de eventos sequenciais, do tipo, vestir o casaco, confirmar se temos carteira, telemóvel, computador, chaves do carro, bater com a porta. Com filhos, além dos próprios e de toda a tralha que os acompanha, há sempre uma pasta que ficou para trás, um que, à terceira volta da chave na fechadura, precisa mesmo, mesmo de ir à casa de banho, e claro o que se esqueceu do saco da ginástica. Fora as birras. E mesmo que a mãe tenha tido a ingenuidade de vestir casaco, mal começa o exercício de os sentar nas cadeiras do carro, já transpira por todos os poros.
 
Quando finalmente chegam ao emprego (o oficial), têm a vantagem de não perder tempo a pendurá-lo, o que são logo mais uns minutos que dão à casa. Os gestores inteligentes sabem como é inteligente contratar mães, que conhecem melhor do que ninguém o valor do tempo. Distraem-se menos, porque têm consciência de que, daqui a nada, é preciso ir buscar os filhos à escola, e “pegar” ao outro emprego. As estatísticas indicam que as mulheres dedicam, por dia, um total de 4 horas e 23 minutos a tarefas domésticas, e as que têm filhos acrescentam-lhe mais três horas.
 
Os pais estão cada vez mais presentes, mas muitas vezes as mães – e ninguém disse que eram perfeitas! –, tratam-nos como subalternos a quem delegam tarefas, para depois, armadas em fiscais de linha, confirmarem se estão como elas querem. Deliciando-se quando a camisa não condiz com os calções, ou a papa tem grumos.
 
As mães também cuidam das suas mães, e das suas avós, e das irmãs e dos sobrinhos, e encontram disponibilidade mental para ouvir as amigas, e consolar corações partidos. Algumas mães, ainda cantam por cima, e conseguem ensinar os filhos a gostarem de si mesmos e dos outros e a serem felizes.
 
Por isso não usam casacos, nem gorros, nem luvas, nem tão pouco cachecóis. Mas se não passam frio, andam cansadas, mesmo muito cansadas – são 64% aquelas que com filhos de cinco anos ou menos se dizem exaustas todos os dias ou com frequência, número que desce uns míseros pontinhos quando os filhos crescem um bocadinho. 
 
Mas é perigoso nunca vestir um casaco. Há riscos graves para a cabeça e para o coração em dar, sem receber, e a culpa muitas vezes é de quem não sabe pedir. A omnipotência das mães é mágica, mas pode deixá-las presas no papel de supermulheres. Se nunca usa casaco, se calhar é tempo de parar para pensar.
 
Fonte das estatísticas: Os Usos do Tempo de Homens e de Mulheres em Portugal, CESIS e CITE