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Ataque a Moçambique
08.07.2020
Desde 2017, a província moçambicana de Cabo Delgado, no extremo norte do país, tem sido abalada por dezenas de ataques armados contra a população e as forças de segurança. Os mortos são já centenas; os deslocados, mais de cem mil. O Estado Islâmico tem reivindicado a autoria dessas ações, mas na realidade ninguém sabe ao certo quem está por trás delas. O mistério adensa o medo e a incerteza num país que já está à beira da catástrofe.

Aparecem de súbito, habitualmente em aldeias isoladas, e matam, torturam e queimam indiscriminadamente. As decapitações são frequentes, com o objetivo claro de espalhar o terror. Muitas mulheres e crianças são raptadas e os sobreviventes põem-se em fuga. Mais de cem mil pessoas já tiveram de deixar as suas casas.

Os ataques começaram em outubro de 2017, mas redobraram de intensidade e ousadia nos últimos meses. Só entre o início do ano e o final de fevereiro, as Nações Unidas registaram 28 situações desse tipo. A mesma fonte diz que 9 dos 16 distritos da província de Cabo Delgado já sofreram este flagelo. Trata-se de um território ligeiramente mais pequeno do que Portugal Continental, mas que tem apenas 2.3 milhões de habitantes. Este despovoamento, somado às enormes dificuldades de comunicação e à pobreza extrema da província, são condições ideais para a ação destes grupos armados.

Mas, afinal, quem são eles e o que querem? O bispo de Pemba, a capital de Cabo Delgado, disse recentemente que «a verdade é que o inimigo não tem rosto» - e não anda longe da verdade.

Os ataques têm sido sido levados a cabo por um grupo extremista islâmico chamado Ansar al-Sunna, ou Ahlu Sunnah Wa-Jama (ASWJ), como se designava inicialmente. Surgiu por volta de 2015, como um movimento religioso que procurava converter os muçulmanos da região, que são muito numerosos, a uma versão mais radical e, diziam eles, mais pura do Islão. Contudo, parecem não ter tido grande sucesso, tanto mais que as comunidades islâmicas locais rapidamente se distanciaram do movimento, especialmente depois de os seus métodos intimidatórios se terem tornado conhecidos.

Contudo, essa rejeição não desencorajou o grupo, bem pelo contrário. Ele foi-se radicalizando e adotando métodos cada vez mais violentos, até que se assumiu como força de guerrilha, com campos de treino nos distritos de Macimboa da Praia (local do primeiro ataque), Macomia e Montepuez.

A maior parte dos seus membros são moçambicanos, mas também parece haver tanzanianos e somalis. A real influência estrangeira sobre o grupo é a grande dúvida que persiste, e que deixa no ar interrogações sobre os seus verdadeiros objetivos.
Ao contrário do que é habitual nas organização terroristas islâmicas, o Ansar al-Sunna nunca publicitou os seus atos, nem sequer deu explicações públicas sobre eles. Os únicos anúncios vieram do Estado Islâmico (EI), que, a partir de meados de 2018, passou a reivindicar as ações do Ansar al-Sunna como suas.

Todavia, há há poucos dados concretos que permitam acreditar nessa ligação, para além da aparente coincidência de objetivos doutrinários, como a instauração da lei islâmica (Sharia).

Os especialistas que se têm debruçado sobre o problema também tendem a negar ou a desvalorizar a eventual ligação com o EI. Para eles, as explicações e as motivações para o surgimento do Ansar al-Sunna são eminentemente locais e têm a ver com a situação de enorme carência económica e social que se vive em Cabo Delgado, especialmente entre os jovens, e com a corrupção e incapacidade do Estado para resolver os problemas locais. A ONU também diz que seria importante que se criasse um programa de ajuda que desse alguma esperança à população, tanto mais que ela ainda não recuperou dos efeitos do tufão Kenneth, que causou enormes destruições em abril do ano passado.

Qualquer ajuda económica em Cabo Delgado está condenada ao insucesso, se não houver pacificação primeiro. E essa é também a ameaça que pende sobre as enormes explorações de gás natural que começam agora a ser ali implantadas e que deverão começar a produzir em 2022. Aliás, há quem veja um laço muito estreito entre isso e o aparecimento dos ataques.
Um relatório recente da Economist Intelligence Unit avisa que «o desenvolvimento das fábricas para a exploração de gás na província nortenha de Cabo Delgado é ameaçado pela crescente presença militar de grupos islamitas» e que «os ataques militantes aumentaram em severidade e frequência durante o ano passado, e é provável que continuem, mesmo com as forças de segurança estatais a debaterem-se para os conter».

Este ponto de vista é partilhado pelo bispo de Pemba, D. Luiz Fernando Lisboa, que, em declarações à Fundação AIS, reconheceu que estamos perante «uma realidade muito triste, que as forças de defesa e de segurança não estão a conseguir conter se não houver uma ajuda internacional».

O governo já reconheceu essa necessidade, embora não abertamente. Em agosto do ano passado, o presidente Nyusi foi foi à Rússia, onde assinou vários acordos nas áreas da segurança e da energia. Poucas semanas depois, chegaram a Moçambique cerca de 200 mercenários do Grupo Wagner, uma empresa militar privada com ligações muito próximas ao Kremlin.
Contudo, os mercenários russos parecem ter tido muito pouco sucesso. Logo em outubro e novembro surgiram notícias de que pelo menos uma dezena deles teriam sido mortos, e que alguns teriam sido mesmo decapitados. Fontes das forças armadas moçambicanas disseram a vários órgãos de comunicação social que a colaboração com os russos deixou rapidamente de existir devido a falta de confiança mútua.

Contudo, não é de acreditar que os russos se vão embora. A sua presença faz parte de uma estratégia mais vasta de Moscovo de ganhar influência em países africanos ricos em recursos naturais. A França também não quer ficar atrás e propôs em fevereiro, durante uma visita do seu ministro dos Negócios Estrangeiros a Maputo, tratar a questão da segurança marítima «numa lógica de vizinhos».

A razão é clara: a petrolífera francesa Total é a líder do consórcio que fará a exploração de gás natural nas águas ao largo de Cabo Delgado e, portanto, é do interesse estratégico de Paris que não haja quaisquer problemas de segurança na zona. No mar ou em terra.