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Avós e idosos: uma riqueza para cuidar
19.07.2021
Um famoso psiquiatra alemão, Kurt Schneider, diz que, em algumas idades da vida, não experimentar tristeza, não ter sentimentos depressivos, é mais preocupante do que os ter. No clima cultural em que vivemos (idolatra-se a vida ativa e ignora-se o idoso), penso que seja muito difícil que um idoso não se sinta frequentemente como uma “pessoa inútil” ou “ultrapassada” e “abandonada”. São modos de sentir muito próprios dos idosos, na qual a solidão e a idade da reforma podem tornar a vida mais dolorosa. Os dias sucedem-se uns atrás dos outros sem conseguirem preenchê-los com significado. A falta de interesses, as doenças, o sofrimento e a dificuldade em preencher o “vazio” deixado pela morte do cônjuge muitas vezes estão na origem da própria incapacidade de viver a vida em relação com os outros.

A ausência de um trabalho ou de ocupações na vida dos idosos pode levar a que se fechem em si mesmos, se afastem cada vez mais da vida social e terminem reféns de uma amarga perceção do mundo e da vida. E daqui pode nascer não apenas uma simples depressão (ou mal-estar) mas uma depressão patológica, que se prolonga no tempo, e que leva o idoso a ficar apático, com sentimentos de mal-estar, tristeza, isolamento, cansaço de viver, associados a momentos de ansiedade e angústia, perda da alegria e interesse pela vida.

«Os avós são muitas vezes esquecidos e nós esquecemos esta riqueza de preservar as raízes e de as transmitir. Por esta razão, decidi instituir o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, que terá lugar na Igreja inteira todos os anos no quarto domingo de julho, na proximidade da festa dos santos Joaquim e Ana, os “avós” de Jesus”», anunciou o Papa no Angelus no dia 31/01/2021. Este ano, o Dia Mundial dos Avós e Idosos será celebrado pela Igreja a 25 de Julho.

Por conhecer bem a realidade dos avós e dos idosos hoje, o Papa Francisco deixou palavras de esperança para eles na sua primeira mensagem para este dia mundial: «“Eu estou contigo todos os dias”» é a promessa que o Senhor fez aos discípulos antes de subir ao Céu; e hoje repete-a também a ti […] toda a Igreja está solidária contigo – ou melhor, connosco –, preocupa-se contigo, ama-te e não quer deixar-te abandonado […]  há necessidade de ti para se construir, na fraternidade e na amizade social, o mundo de amanhã […]. Entre os vários pilares que deverão sustentar esta nova construção, há três que tu – melhor que outros – podes ajudar a colocar. Três pilares: os sonhos, a memória e a oração. A proximidade do Senhor dará – mesmo aos mais frágeis de nós – a força para empreender um novo caminho pelas estradas do sonho, da memória e da oração.»

O próprio Papa Francisco, que tem consciência de ser idoso, na mensagem acima referida dá o seu testemunho e incentivo: «Recebi a chamada para me tornar bispo de Roma quando tinha chegado, por assim dizer, à idade da aposentação e imaginava que já não podia fazer muito de novo. O Senhor está sempre junto de nós – sempre – com novos convites, com novas palavras, com a sua consolação, mas está sempre junto de nós. Como sabeis, o Senhor é eterno e nunca vai para a reforma. Nunca.»

Não esqueçamos, os avós e os idosos têm necessidade de relações familiares e de relações sociais que sejam capazes de aliviar a solidão e o sentimento de abandono e gerar neles nova esperança. Os avós e os idosos necessitam de partilhar as suas emoções, precisam de alguém que os escute sobre as suas fragilidades, medos, ansiedades, desilusões, sonhos. Precisam de atenção e diálogo, do interesse dos familiares, da presença dos amigos.

É aqui que entra também a importância da espiritualidade na terceira idade. Espiritualidade no sentido amplo da palavra, isto é, numa dimensão antropológica presente em todas as pessoas, que nos leva a questionar sobre o sentido e o valor da nossa existência. Sentido de vida ao qual o Papa Francisco convida todos os avós e idosos a tomarem consciência: «Qual é a nossa vocação hoje, na nossa idade? Salvaguardar as raízes, transmitir a fé aos jovens e cuidar dos pequeninos. Não vos esqueçais disto.»