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Bielorrússia: Entre a espada e a Rússia
06.10.2020
A Bielorrússia é um daqueles países de que se fala apenas quando há uma revolução ou uma catástrofe. Com quase a mesma população de Portugal e situada no outro extremo da Europa, pouco há para a pôr nas notícias, tanto mais que é controlada há 26 anos pelo mesmo homem. Contudo, isso pode estar para mudar. Os bielorrussos parecem estar fartos da sua democracia a fingir e vieram para as ruas dizê-lo. Ainda não é a tal revolução, mas já pôs o país nos noticiários em todo o mundo.

Há países que são eternas vítimas da sua geografia. Os mexicanos, por exemplo, dizem que «estão muito longe de Deus e perto demais dos Estados Unidos». Os polacos andam há séculos a lutar contra a gula alemã e russa pelo seu território, e só tiveram sucesso (relativo) em esquivar-se a ela após as duas guerras mundiais – mesmo assim só à custa da segunda maior percentagem de vítimas do maior conflito armado da história da Humanidade.

O primeiro classificado dessa lista terrível chama-se Bielorrússia, que na altura fazia parte da União Soviética. Por causa da 2.ª Guerra Mundial, perdeu um quarto da sua população em apenas seis anos (1939-1945). Os avanços e recuos dos exércitos nazis e soviéticos encarregaram-se de devastar o país num grau difícil de compreender hoje.

Pouco mais de 40 anos passados sobre essa tragédia, a Bielorrússia voltou a ser atingida desproporcionalmente por outra. A incompetência, a incúria e a indiferença do regime comunista causaram o desastre de Chernobyl. A central nuclear situava-se na Ucrânia, mas foi sobre os bielorrussos que caiu a maior parte da precipitação radioativa. Não se sabe ao certo quantas pessoas morreram, mas foram certamente milhares e essa contagem continua.

Quem estudou os movimentos independentistas da Ucrânia e da Bielorrússia diz que eles nunca teriam um crescimento tão rápido e forte se não tivesse existido Chernobyl. Por isso, em 1991, quando o regime comunista entrou em colapso em Moscovo, os bielorrussos optaram pela independência, muito embora fossem o povo da ex-União Soviética com a maior proximidade cultural e linguística com a Rússia.

Contudo, rapidamente as realidades da geopolítica se impuseram e essa separação foi revertida em muitos aspetos. A dependência da Bielorrússia em relação a Moscovo é muito forte e explica muito do que se tem vivido ali recentemente.

O primeiro presidente da Bielorrússia independente é também o único. Antes de 1991, Alexander Lukashenko fazia parte da nomenklatura comunista, muito embora tivesse tido lugares de pouco relevo. Tinha sido oficial político no exército e era administrador de uma quinta estatal. Depois da independência, foi eleito deputado e lançou uma campanha anticorrupção que visou o governo da altura. Graças a isso, em 1994 ascendeu à presidência e nunca mais de lá saiu.

Os limites ao seu poder, como a restrição do número de mandatos, foram sendo derrubados um a um. Os membros da oposição vão parar à cadeia ou pior. Em 1999 e 2000, dois líderes oposicionistas, um empresário e um jornalista incómodos para Lukashenko, desapareceram. Dois desses desaparecimentos ocorreram no mesmo dia em que o presidente disse ao chefe dos serviços de segurança para castigar a «escumalha da oposição» – e estou a citar. Como sabemos isso, perguntará o leitor? Muito simples: Lukashenko deu a ordem perante as câmaras da televisão pública.

A Bielorrússia é a única ex-república soviética em que o serviço secreto se continua a chamar KGB, como no tempo do comunismo. Nem Vladimir Putin, ele próprio um orgulhoso ex-membro (se é que isso existe) dos “serviços especiais” se atreveu a recuperar essa designação na Rússia.

Lukashenko não tem esses pruridos. Desde o seu primeiro mandato que deixou claro que o anterior modelo económico, social e político é para preservar tanto quanto possível. A economia continua sob controlo maioritário do Estado, as eleições têm vencedor pré-determinado e as forças armadas e de segurança recebem tratamento privilegiado. A ditadura pode já não ser a do proletariado ou do Partido Comunista, mas é para respeitar com igual vigor, e quem não o fizer sofre as consequências.

Houve outra coisa que também foi rapidamente recuperada dos tempos soviéticos: a ligação estreita, em muitos casos subserviente, com Moscovo. Em 1999, foi criada uma união entre os dois países, no âmbito do qual a Rússia pode enviar forças militares e de segurança para território bielorrusso a pedido de Lukashenko, uma hipótese que, aliás, já foi mencionada nas últimas semanas, depois das manifestações democráticas terem começado.

O presidente da Bielorrússia não se submete a Putin por convicção, mas por mero cálculo político e geoestratégico. Ele sabe que o seu país, quer queira quer não, está na órbita da influência russa. Tentar fugir dela tem graves consequências, como a Geórgia e a Ucrânia aprenderam nos últimos anos. Para começar, significaria que Lukashenko perderia quase certamente o poder. Por enquanto, a Rússia quer que ele continue lá e é por isso que é tão difícil mudar algo substancial em Minsk. As relações entre Putin e Lukashenko têm piorado nos últimos anos, mas ele continua a ser a única hipótese viável para os russos. É o mal que já conhecem; qualquer outro presidente será quase certamente muito pior para os seus interesses.
Se a geopolítica fosse o único fator a definir a existência dos povos e dos regimes, o destino da Bielorrússia estaria eternamente traçado, porque não é previsível que alguma vez deixe de ter fronteira com o maior país do mundo em superfície.
Contudo, há outros fatores a ter em consideração, nomeadamente a vontade desses mesmos povos. Desde o segundo escrutínio presidencial vencido por Lukashenko que não há nenhum observador independente que dê qualquer crédito aos resultados oficiais das eleições. As de 8 de agosto de 2020 não foram exceção. Oficialmente, 80% dos votos foram para o presidente, mas a candidata da oposição, Sviatlana Tsikhanouskaya, reclamou uma vitória com pelo menos 60%. Isto levou centenas de milhares de bielorrussos, senão mais, a virem para as ruas de Minsk e de outras cidades protestar. Milhares deles foram detidos, agredidos e até torturados.

Quase ninguém fora da Bielorrússia reconhece agora Alexander Lukashenko como o presidente legítimo do país, mas isso pouco lhe importa. A União Europeia, os EUA e outros países democráticos já têm em vigor, ou irão introduzir, sanções contra o regime, mas também pouco o afetarão. O suporte externo que não pode falhar – e não falha, até ver – está em Moscovo. Só a falta de apoio das forças armadas e de segurança pode derrubar o ditador a partir de dentro do país, mas esse vai-se mantendo também.
Em última análise, só a prova de determinação dada por mais sangue bielorrusso nas ruas é que pode convencer polícias e militares a recuar e a deixar cair Lukashenko.