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Bispos de Moçambique denunciam «barbárie»
19.04.2021
A Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) alertou para a crescente «perceção» de «interesses de vária natureza» por trás dos conflitos em Cabo Delgado e lamenta a insegurança e a fome das populações provocados por «atos de barbárie». «Deploramos e condenamos todos os atos de barbárie cometidos», afirmam os bispos moçambicanos numa declaração enviada à Agência ECCLESIA, aprovada na Sessão Plenária que decorreu em Maputo no final da semana passada.


Os bispos moçambicanos lastimam a «trágica situação que vive a população de Cabo Delgado» onde as «pessoas indefesas são mortas, feridas e abusadas», veem os «seus bens pilhados, a intimidade dos seus lares violada, suas casas destruídas e cadáveres de seus familiares profanados» e as pessoas «obrigadas a abandonarem a terra que os viu nascer e onde estão sepultados os seus antepassados».

A CEM alerta que cresce e consolida-se a «perceção de que por de trás deste conflito há interesses de vária natureza e origem, nomeadamente de certos grupos de se apoderarem da nação e dos seus recursos», nesta que foi umas principais decalrações conjuntas dos bispos sobre a situação de Cabo Delgado.

Os bispos moçambicanos advertem que os recursos da região estão a ser «subtraídos» com «total falta de transparência», «alimentando a revolta e o rancor», nomeadamente «no coração dos jovens» e tornam-se «fonte de descontentamento, de divisão e de luto», quando deveriam ser «postos ao serviço das comunidades locais e tornarem-se fonte de sustento e de desenvolvimento». «Reconhecemos que um dos motivos fortes que move os nossos jovens a se deixarem aliciar e a juntarem-se às várias formas de insurgência, desde a criminalidade ao terrorismo, ou também aquela outra insurgência, não menos nociva, do extremismo político ou religioso, assenta na experiência de ausência de esperança num futuro favorável por parte dos nossos jovens», lembra o episcopado moçambicano.

A CEP refere que, para a maioria dos jovens, «não há oportunidades de se construir uma vida digna», a sociedade e decisores «ignoram o seu sofrimento e não escutam a sua voz». «Como podem ter os jovens perspetivas se o próprio país parece não ter rumo, um projeto comum, no qual são convidados a serem colaboradores ativos e que alimente a sua esperança?», questionam.

Os bispos de Moçambique reafirmam que «nada justifica a violência», manifestam  a «total solidariedade com os mais fracos e com os jovens que anseiam uma vida digna» e lembram que «as religiões têm uma grande contribuição a dar na  resiliência das comunidades e perseguir um ideal de sociedade unida e solidária». «Como missão da Igreja Católica tem sido sempre nosso compromisso colaborar para o bem da nação, apontando os perigos e esperando sempre que quem tem responsabilidades busque as devidas soluções», afirma a CEM.

Os bispos de Moçambique pedem que «as forças políticas nacionais, as organizações presentes no país, a comunidade internacional» unam esforços e «socorram as populações deslocadas», criem «mais oportunidades de trabalho e de desenvolvimento para todos» e apelam para que «todos contribuam para a pacificação, protegendo a população, fechando as vias de financiamento à guerra, isolando e travando indivíduos ou grupos que tiram proveito da tragédia de Cabo Delgado».

D. Fernando Luiz, antigo bispo de Pemba, afastado por «ameaças»do Governo
O bispo emérito de Pemba, em Moçambique, considerou que o governo local procurou ocultar a crise na Província de Cabo Delgado e disse que o executivo o ameaçou de morte, por denunciar a situação. Em entrevista publicada pelo jornal ‘La Repubblica’, de Itália, D. Luiz Fernando Lisboa foi questionado sobre se a sua saída de Moçambique e regresso ao Brasil, por decisão do Papa, teria como motivo as ameaças dos extremistas islâmicos, que há três anos atingem o norte do país africano. «Não. O governo. Recebi primeiro ameaças de expulsão, depois de apreensão de documentos e, no final, de morte», respondeu.

foto de arquivoApesar de, num primeiro momento, não terem sido claras as razões para a saída do bispo de Pemba, e de o próprio apenas ter declarado que o Papa Francisco poderia ter informações que ele não tivesse, e que justificassem a saída, nesta entrevista o agora arcebispo foi muito contundente nas suas considerações. «Maputo negou a guerra desde o início. Quando o conflito e o perigo se tornaram evidentes, proibiu que se falasse sobre o assunto. Impediu que os jornalistas fizessem o seu trabalho. Um repórter está desaparecido desde abril do ano passado», denunciou.

Segundo o missionário brasileiro, a Igreja Católica «era a única que falava sobre a situação» e isso não agradava ao Governo de Moçambique. «Acima de tudo, não tolerava que saíssem notícias sobre o estado. Orgulho nacional, negócios. Quando há um ano a Conferência Episcopal condenou o que estava a acontecer, num documento, as autoridades reagiram mal, começando a lançar lama sobre mim», relata.

O responsável considera, por outro lado, que esta «não é uma guerra religiosa». «Eles atacam todos e destroem tanto igrejas como mesquitas. Eles matam líderes cristãos e muçulmanos. Esta é uma guerra económica pela apropriação dos recursos naturais: gás líquido, ouro, rubis, pedras semipreciosas», refere, a respeito dos insurgentes que se apresentam como elementos do autoproclamado Estado Islâmico.

Texto: Ricardo Perna (com Agência Ecclesia)
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