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Bispos pedem colaboração dos fiéis para nova tradução da Bíblia
26.03.2019
A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) apresentou ontem, segunda-feira, a primeira versão de uma nova tradução da Bíblia, promovida e organizada pela CEP. Os quatro Evangelhos e os salmos foram editados para serem colocados à prova dos fiéis, que são convocados a ler e a sugerir alterações de tradução. O objetivo é fortalecer a ligação do Povo de Deus com os textos sagrados.

 
D. Anacleto Oliveira, o bispo responsável por todo o processo, explicou, no lançamento que ocorreu no auditório Cardeal Medeiros da Universidade Católica, em Lisboa, que era necessário «ter tradução uniforme para todas as instâncias da Igreja porque só a Liturgia das Horas é que estava traduzida». «Não há livros originais na Bíblia, e por isso há sempre este trabalho. O objetivo é conseguir um texto que se aproxime da versão original, e por isso estamos sempre a aprofundar, é um trabalho permanente, que leva a diferenças nas traduções», explicou o prelado.
 
O bispo de Viana do Castelo explicou também as várias fases pelas quais passou esta tradução que agora começa a ver a luz do dia, num trabalho que se iniciou em 2012. «Encontrar o biblista mais indicado para cada livro da Bíblia e pedir-lhe uma tradução tão literal quanto possível, com literalidade, não literalismo; apresentar a tradução a uma comissão de análise dos vários livros; fazer uma revisão da tradução, porque houve traduções que foram mandadas para trás ou rejeitadas; as comissões harmonizaram as diferentes traduções; o texto foi entregue a um especialista em língua portuguesa, depois a um liturgista, pois o destino da tradução é essencialmente a liturgia; e finalmente entregar o texto para que o povo português possa pronunciar-se e sugerir alterações à tradução».
 
As sugestões podem ser enviadas por email, através do endereço eletrónico biblia.cep@gmail.com

D. Anacleto Oliveira, bispo de Viana do Castelo 
A lei da indissolubilidade do matrimónio é intocável, mas tem «exceções»
A nova tradução altera substancialmente o significado e a abrangência de vários termos, dos quais um dos mais significativos é Porneia, o termo utilizado por S. Mateus para designar a exceção que permitia a um homem rejeitar a sua mulher, e que tanta tinta fez correr por causa da situação dos divorciados recasados.
 
Na antiga tradução, a tradução do termo era união ilegal, o que permitia referir-se ao momento da realização do ato, mas a nova tradução é promiscuidade, podendo ler-se, no versículo 32 do capítulo 5, «Mas eu digo-vos: todo aquele que repudia a sua mulher -  a não ser em caso de promiscuidade – faz com que ela incorra em adultério, e aquele que se casar com uma repudiada, comete adultério». A nova tradução alarga o âmbito que permita ao homem validamente rejeitar uma mulher (podendo aqui colocar-se questões sobre a validade de um novo vínculo), mas D. Anacleto defende que a nova tradução é «um termo feliz». «Na base desta mudança esteve o sentido original da palavra, que é muito aberto. O termo grego é suscetível de diversas traduções, e houve implicações eclesiais. Enquanto os católicos se habituaram a traduzir por união ilícita, pensando no incesto, igrejas evangélicas traduziram por adultério. Nenhuma está completa, ambas estão viciadas pela fé das pessoas que estão por trás, e portanto procurámos encontrar um termo que abarque isso tudo. Eu acho que o termo promiscuidade é feliz», refere.
 
O prelado reconhece que a nova tradução poderá também estar influenciada pelo Papa Francisco e pela Amoris Laetitia. «A abrangência do termo é alargada, claro. E alguém nos perguntava se isto vinha na linha de orientação do Papa Francisco. É possível que sim, o Papa Francisco tem uma abertura no que toca a este ponto», diz. E acrescenta que há «exceções à lei», mesmo que a leia seja o «princípio da indissolubilidade». «O autor fala no princípio da lei, que é intocável. E o princípio é a indissolubilidade, por amor do reino de Deus e respeito para com ele. O homem e a mulher não têm poder sobre Deus em algo que eles assumiram livremente. Isto é a lei, e basta dizer que só um autor do Novo Testamento é que apresenta uma exceção. O que é que nós deduzimos daí? É que na aplicação desse princípio se descobriu que ele não era aplicável a casos concretos. O princípio mantém-se, mas a sua aplicação pode ter exceções, porque a situação pode mostrar que a aplicação fixa e rígida desse princípio vai produzir o efeito contrário, torna-se desumano, e a lei é acima de tudo para ajudar a pessoa a ser mais humana», declarou aos jornalistas no final da apresentação.

 
D. Manuel Clemente elogia tradução «fundamental no trabalho da Igreja Católica»
A encerrar os trabalhos, D. Manuel Clemente agradeceu o empenho de todos numa tarefa «fundamental». «Tudo quanto acontece na Igreja é na sequência desta Palavra. São palavras transmitem a fé dos nossos antepassados, e é a partir daqui que tudo se legitima na Igreja», disse o Cardeal Patriarca de Lisboa.
 
Presentes no lançamento estiveram também os responsáveis pelas traduções do Antigo e do Novo Testamento, coordenadores de uma equipa de 34 biblistas que está encarregue da tradução. O Professor José Augusto Ramos coordena a equipa que traduziu o antigo Testamento e afirmou que a ideia foi criar «um âmbito de leitura criativa para que possa surgir um texto que represente os leitores da melhor forma possível». Este especialista defende que a Bíblia deveria ser traduzida «de 50 em 50 anos», e assegurou que «a expetativa da semântica dos leitores não significa que se abandone o rigor da tradução científica».
 
O Pe. Mário de Sousa é o coordenador da tradução do Novo Testamento, e referiu, na sua apresentação, que «a palavra Evangelho refere-se na sua génese à proclamação oral do próprio Jesus da Boa notícia». «A pregação de Jesus deu origem à pregação sobre Jesus», afirmou.
 
O sacerdote português disse que a «tradução pretende ser fiel ao texto, ao mundo do texto e ao mundo que está por trás do texto». «Os evangelhos são consequência da fé das comunidades e destina-se a alimentar a fé», defendeu, ao mesmo tempo que explicou que a tradução procurou ser «o mais fiel possível ao texto grego».


 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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