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Matrimónio: Comunidades paroquiais vão acompanhar preparação e casais em crise
08.05.2019
Dias depois da sua aprovação em Assembleia Plenária, foi publicada a carta pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) sobre a preparação para o matrimónio. «A alegria do amor no matrimónio cristão» pretende ser um contributo, «em sintonia com o Papa Francisco», «que consiste em apresentar as razões e os motivos para se optar pelo matrimónio e a família, de modo que as pessoas estejam melhor preparadas para responder à graça que Deus lhes oferece».
 
Apesar dos discurso inaugural de D. Manuel Clemente falar numa «série de indicações necessárias e práticas para a preparação do matrimónio, atinentes à maturidade e ao relacionamento mútuo; ao projeto familiar, ao respetivo amadurecimento e à superação de conflitos; à comunidade cristã como lugar de entreajuda e celebração familiar; à doutrina sobre o sacramento, suas propriedades e fins», a verdade é que o documento mostra uma abordagem mais teórica, deixando para cada instância de preparação e acompanhamento para o matrimónio a tarefa de encontrar forma de tornar estes conceitos realidade no seu trabalho.
 
Admitindo que, perante uma «realidade» tão «frágil» como é o matrimónio, «alguns casais preferem não arriscar na celebração do matrimónio ou na constituição de uma família», optando por «“viver juntos” ou em união de facto, convivências à experiência ou relações que não exijam um compromisso radical», os bispos reconhecem que «a ideia do “para sempre” atemoriza e a perspetiva de “institucionalizar o amor” afigura-se desnecessária ou mesmo hostil». Aliado a isto, surgem «novas formas de família», onde se destaca a terminologia de «comunidades de vida homossexuais», a forma como descrevem a situação das uniões homossexuais.
 
Por isso, reafirmam que «o matrimónio é um caminho de beleza e alegria mútua em que cada um deseja e tudo faz para a felicidade do outro». Mesmo sabendo que «é normal
ter dúvidas, inquietações e hesitações diante de algo tão nobre, belo e profundo como é partilhar a vida inteira com alguém», a solução «não está num adiamento sine die do compromisso ou numa fuga à entrega total e assumida perante os outros e perante Deus».
 
Até porque, defendem os bispos na Carta Pastoral, «contrariamente ao que possa parecer, assumir publicamente o casamento confere uma robustez mais sólida à relação, precisamente porque compromete, com a energia da graça de Deus, os esposos, não só entre si, mas também com os filhos, as suas famílias, os amigos, a Igreja e a sociedade».
 
Mais à frente, os bispos explicam que, «quando um homem e uma mulher se casam na Igreja, a sua união é um sinal que vive e exprime o amor de Deus pela humanidade, o amor de Jesus Cristo pela Igreja; recebem a missão de construir um mundo mais justo através da constituição da família, mostrando com a vida de comunhão que o amor entre eles – e o amor de Deus pela humanidade do qual são sinal – pode superar todas as dificuldades e crises humanas».


 
Preparação e acompanhamento dos casais é função das «comunidades paroquiais»
 
Os bispos consideram que «a preparação para o matrimónio não pode ser algo pontual e restringido a um momento específico da vida». Como tal, e como já estava preconizado, «implica pensar uma pastoral familiar a longo prazo em que se inclua toda a catequese».
 
Neste sentido, e pensando na preparação próxima do matrimónio, os bispos consideram que «toda a comunidade cristã é chamada a envolver-se mais profunda e amplamente na preparação dos noivos para o matrimónio», e pedem um «empenho sério numa preparação próxima, a médio prazo».
 
Porque admitem que a «experiência» mostra como a preparação dos noivos muitas vezes é «manifestamente incompleta ou muito condicionada», os bispos falam na implementação de uma «pastoral do namoro», na qual todos, «catequistas, líderes de grupos de jovens, promotores vocacionais e demais agentes pastorais unam esforços e trabalhem juntos de forma a, com tempo, começar a preparação e o discernimento para o namoro, noivado e matrimónio». Para isto, sugerem a criação, nas comunidades, de grupos de namorados, atividades e encontros de reflexão.
 
Isto antes do que hoje mais se conhece como o CPM, a preparação imediata. Aqui, os bispos pedem uma maior exigência, que deverá levar os noivos a perceber uma série de conceitos e ideias, que os bispos elencam.
 
«Assim, uma apropriada preparação para o matrimónio deverá conduzir os noivos a:
  • saber avaliar a maturidade afetiva, psicológica e espiritual, própria e do outro;
  • saber avaliar a própria relação, nos seus pontos fortes e fracos, bem como prever possíveis consequências decorrentes desses pontos;
  • delinear um projeto de vida familiar: princípios orientadores, valores “inegociáveis” e metas a alcançar enquanto família;
  • uma metodologia para uma maior maturidade familiar: momentos de paragem para avaliar e lançar para o futuro. Só assim é possível “detetar os sinais de perigo que poderá apresentar a relação, para se encontrar os meios que permitam enfrentá-los com bom êxito” (AL 210);
  • elaborar “estratégias” de gestão e superação de conflitos;
  • descobrir a comunidade cristã como lugar onde a família se pode pôr ao serviço dos outros, pode procurar ajuda para as suas necessidades e crises e ganha profundo sentido a celebração de diferentes situações familiares e comunitárias;
  • aprofundar o conhecimento da doutrina da Igreja sobre o sacramento: as propriedades e os fins próprios do matrimónio, nomeadamente o vínculo de unidade indissolúvel, bem como as condições sine qua non para a validade do sacramento, isto é, liberdade, fidelidade e fecundidade. Tudo na perspetiva da construção de uma verdadeira felicidade.
Mesmo sem indicar como levar os noivos a compreender de forma prática estes conceitos, os bispos portugueses esperam que as comunidades locais e diferentes movimentos eclesiais «insistam numa pastoral familiar que envolva as próprias famílias cristãs como agentes» dessa preparação e não apenas como destinatários.
 
É no ponto 32 que surge o apelo mais claro a todas as comunidades para se socorrerem «de todos os meios humanos possíveis e pensar em atividades que possam e devam ser levadas a cabo para apoiar e reativar as famílias», utilizando os exemplos que o Papa Francisco deixa na exortação pós-sinodal Amoris laetitia. «O Papa Francisco propõe diversos exemplos: reuniões de casais, retiros, conferências de especialistas sobre problemáticas da vida conjugal e familiar, agentes pastorais preparados para falar com os casais acerca das suas dificuldades e aspirações, consultas sobre situações familiares desfavoráveis (dependências, infidelidade, violência familiar), espaços de espiritualidade, escolas de formação para pais, etc. Sabendo que «não é possível fazer tudo em todos os lugares», os bispos pedem que as comunidades se organizem «para que a oferta de instrumentos de pastoral familiar seja mais efetiva e eficaz», abrindo assim a porta a entendimentos extra paroquiais para uma melhor execução deste plano.

 
No ponto 41, os bispos dizem que «as paróquias, os movimentos e outras instituições da Igreja e casais mais amadurecidos são chamados a apoiar os casais cristãos, especialmente quando surgem crises». «Através do seu testemunho experiente e, quando necessário, de ajudas especializadas, é possível recordar que o casamento é uma tarefa a dois que implica ultrapassar obstáculos, e que uma crise pode ser uma oportunidade para recomeçar e renovar a mútua entrega e fidelidade».
 
A carta pastoral não esquece aqueles que, apesar de tudo isto, possam ver o seu casamento falhar. Para estes, «é importante saber que o caminho da Igreja continua a ser o caminho de Jesus, o caminho do acolhimento, da misericórdia e da integração». «Assim, enquanto batizados e membros da Igreja, não devem considerar-se condenados ou separados da mesma Igreja. Através de um discernimento pessoal e pastoral em cada caso e dando espaço à consciência de cada um, os interessados devem ser ajudados a encontrar a sua própria maneira de participar na comunidade eclesial, segundo as orientações da Exortação Apostólica Amoris laetitia e do Bispo diocesano», lê-se no final do documento.
 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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