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Bispos uniformizam taxas da Igreja e afirmam: «a graça de Deus não tem preço»
15.11.2018
Os bispos portugueses, reunidos em Assembleia Geral, decidiram elaborar «uma proposta comum de taxas, tributos e emolumentos para todas as dioceses, tendo em vista harmonizar e atualizar o que já se encontra definido nas três Províncias Eclesiásticas». Uma forma, explicou D. Manuel Clemente, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), aos jornalistas presentes na conferência de imprensa do final da assembleia, de fazer face à realidade da mobilidade das pessoas. «Hoje em dia as pessoas estão em toda a parte, e sentimos a necessidade de caminhar para umas tabelas comuns», afirmou.
O trabalho foi feito pelos vigários gerais, em conjunto com o secretário da CEP, e poderá ser delineado já na próxima assembleia plenária de abril do próximo ano.

 
Sobre as taxas, D. Manuel Clemente reforça que «a graça de Deus não tem preço, será a única coisa absolutamente gratuita que existe neste mundo», mas também diz que é Jesus quem diz que «o trabalhador merece o seu salário». O prelado sustenta que as taxas não visam “pagar” os sacramentos, mas foram uma forma encontrada de colher esses fundos necessários ao funcionamento da Igreja e sustento dos seus pastores, uma forma que, admite, pode ser mudada no futuro. «O que tem acontecido é que, até por questões de facilitação da vida das pessoas, esse contributo faz-se por ocasião dos sacramentos, mas as duas coisas são distintas, e podem pode ser mudadas, no futuro», referiu.
 
Questionado sobre o facto de haver muitas paróquias que não cumprem com o indicado, e cobram mais taxas e emolumentos que o que está definido pelas Províncias Eclesiásticas, que são quem, atualmente, define estas taxas, D. Manuel Clemente admitiu que o problema existe e que não é de fácil resolução. «Se as pessoas não cumprem, têm de cumprir, se há irregularidades, têm de ser superadas, mas esse é o trabalho da paciência e da persistência, que são duas irmãs gémeas. É um trabalho que vai demorar enquanto o mundo for mundo», desabafou.
 
Esta uniformização comporta também uma atualização, o que pode significar aumento em algumas taxas. O presidente da CEP justifica este eventual aumento com o custo da vida nos dias de hoje, com uma referência à economia natural, que muitas vezes implicava que os sacerdotes recebiam em «couves e batatas». «Hoje em dia viver em meio urbano, quando não se tem as batatas e as couves ao lado no quintal, e quando seja preciso deslocações, e hoje em dia temos muitas deslocações, é mais caro do que foi noutros tempos, em que funcionava a economia natural, com aquelas côngruas que às vezes eram em géneros alimentícios. A atualização terá de haver, mas que se faça da maneira mais justa possível, e se faça com a participação das comunidades cristãs, e com maior transparência», pediu o presidente da CEP.

 
Jovens com maior representatividade nas comissões episcopais
D. Manuel Clemente comentou o Sínodo sobre os jovens, reafirmando a necessidade de dar aos jovens «maior protagonismo», conforme pediram os participantes no Documento Final.
 
Apesar de não se querer comprometer com a inclusão de jovens nas assembleias plenárias da CEP, afirmando que «os jovens são a igreja na parte que lhes cabe», admitiu que poderá ser possível pensar numa maior presença dos mesmos ou dos seus movimentos nas comissões episcopais que lhes dizem «diretamente respeito». «Há abertura para pensar nisso concretamente nas comissões episcopais do laicado e família e das vocações e ministérios, onde eles, em princípio, terão mais presença, e foi por isso que foram os bispos responsáveis por elas que foram» ao sínodo.
 
Tratar cada caso de abuso como é, evitando «generalizações» que provocam «distorções»
Sobre o problema dos abusos do clero, que continua na ordem do dia, D. Manuel Clemente defendeu que a CEP está a fazer o trabalho que é necessário. Embora não tenha ainda feito como outras conferências episcopais que lançaram investigações às últimas décadas na Igreja dos seus países, o presidente da CEP não rejeita essa possibilidade, embora não esteja em cima da mesa para já. «Para já não se pôs isso em cima da mesa, se for necessário e aconselhável iremos fazer. Se for necessário, iremos fazer, mas tenhamos cuidado com as generalizações», avisou.
 
D. Manuel Clemente considera que, ao apresentarem-se os casos de abusos em conjunto, corremos o risco de incorrer em «generalizações que podem levar a distorções». «Tudo é mau, mas não é tudo igual. Cada caso é um caso, e tenhamos o cuidado de, casos que se apresentem, Deus queira que não, analisar pessoalmente e acompanhá-los pessoalmente, sem generalizações», pediu.
 
A Assembleia plenária da CEP aprovou ainda um documento sobre o Regulamento Geral de Proteção de Dados, que visa regularizar a situação da Igreja neste aspeto, uma nota pastoral sobre os 150 anos do Apostolado de Oração e divulgou o lançamento do manual «Levanta-te», da rede internacional Talitha Kum.

 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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