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Braga vai ordenar um sacerdote cego
12.07.2019
São 15h30 de uma quinta-feira de sol e calor. Da porta da igreja do Pópulo, em Braga, vimos sair uma cadela a acompanhar um padre. Bom, pelo menos traz cabeção e na rua todos o interpelam como padre. Na verdade, ainda não o é. Tiago Varanda é diácono e será ordenado sacerdote no dia 14 de julho, no Santuário de Nossa Senhora do Sameiro, mas a roupa “civil” e o cabeção não têm diferença da roupa de padre, e são muitos os que o confundem. Tiago não se preocupa com isso, antes prefere sorrir e cumprimentar todos quantos lhe falam.


Desde a entrada no seminário que a sua cegueira foi motivo de curiosidade, mas agora que se aproxima a ordenação, aumentam as entrevistas e os testemunhos. Tudo, diz, pela graça de Deus. «Para mim o mediatismo é algo estranho. Sempre fui muito discreto e a minha origem é de uma aldeia no meio da serra, em Lamego, e estar nas bocas do mundo é muito estranho, mas encaro como uma forma de dar testemunho de Jesus Cristo, que é a razão de eu estar aqui», diz-nos, em entrevista, no seu escritório no edifício do Patronato da Sé de Braga, onde esteve a estagiar no último ano pastoral sob a orientação do cónego Manuel Joaquim. «Eu não acolho apenas uma pessoa, acolho uma história, uma vida, sonhos e vontade de estar e de, em comunhão, construir», refere o sacerdote, pelo que acolher o Tiago foi tão natural como acolher qualquer outro seminarista.

Embora, lá está, tivesse de fazer alguns ajustes. «Tenho comentado que a presença do Tiago me ajudou a ter um ritmo diferente. Às vezes, naquela espontaneidade, corre para aqui e para ali, o facto de ter o Tiago comigo obrigou-me, nos primeiros tempos, a ter um ritmo diferente, uma ponderação diferente. A presença do Tiago tem sido uma mais-valia porque me ajuda, questiona e provoca a ver a realidade, as pessoas, os acontecimentos, os projetos a partir do interior, não tanto disperso com o que se possa ver e experimentar, mas a partir da vida interior a partir da qual se pode construir», reflete o Cón. Manuel Joaquim.

Saímos do escritório e somos conduzidos por Tiago até à igreja do Pópulo. Bom, pelo Tiago e pela Ibiza, de quem ainda não falámos. A cadela-guia do Tiago acompanha-o para todo o lado há cerca de três anos e é extremamente útil nos caminhos que o Tiago tem de fazer diariamente. Não sobe ao altar, mas fica sossegada na sacristia, e já foi adotada por todos os membros da paróquia, que a saúdam com uma festa quando a veem chegar.

Um dos membros ativos da paróquia é Conceição Oliveira, ministra extraordinária da comunhão e membro das Vicentinas. Quando viu Tiago pela primeira vez no altar, confessa que pensou «ai Jesus, o que é que vai acontecer?» [risos]. «Estamos com ele há nove meses, e quando nos demos conta ele já conhecia o nome de toda a gente, só pela voz. Conhece os grupos de liturgia, os servidores do altar, os grupos todos, e isso facilitou-nos muito», diz Conceição, que não considera que, fora os problemas de mobilidade naturais, a cegueira o impeça de exercer o seu ministério, bem pelo contrário. «A cegueira limita-o, mas ele tem uma visão muito mais profunda do que a nossa, e tem outros talentos que nós não somos capazes de ter», diz.


O Cón. Manuel Joaquim confirma que a cegueira do Tiago é uma mais-valia no sentido do aprofundar do mistério de Deus. «Há uns tempos comentava com o Tiago que das melhores e mais belas proclamações da Palavra de Deus nas assembleias que ouvi nestes meus 30 anos de experiência foi feita por um cego. Há uma contemplação, um saborear na intimidade aquilo que é a Palavra de Deus que, no caso desse cego, e também experimento isso com o Tiago, é qualquer coisa de maravilhoso», considera.

Com as suas limitações, o Tiago precisará de um apoio tecnológico na adaptação às novas funções, que apenas conhecerá na véspera da sua ordenação. Durante o seminário, conta, «comecei a ponderar, pois não existem materiais litúrgicos adaptados, e percebi que teria de ser eu a fazer as coisas, ou a pedir ajuda, e comecei a pôr mãos à obra. A ACAPO ajudou-me na impressão de algum material litúrgico, nomeadamente a Liturgia das Horas, quando estava no seminário. Tenho o Saltério todo em braille, e alguns tempos fortes também». Quando tiver de celebrar, alguns gestos poderão impedir que leia em braille as orações, mas a solução poderá passar por «decorar os gestos» e «usar o telemóvel com auscultadores, que me permite ouvir a oração nos ouvidos e repetir o que vou ouvindo, e aí já tenho liberdade para as minhas mãos».

É por isso que, por todo o lado, muitos se entusiasmam com esta ordenação, da mesma forma que se entusiasmam com outras. Porque, diz o Tiago, «acima de tudo, é uma grande responsabilidade da minha parte o testemunho como cristão, de poder comunicar o amor de Jesus Cristo a todos, porque foi esse amor que me fez vir para este ministério. Neste aprender a acolher a realidade e as pessoas como elas são, a minha cegueira vai ser um desafio para aprendermos a acolher os outros como eles são, nos seus limites e potencialidades. Jesus Cristo também acolheu a todos e procurou encaminhar os que procuravam o Reino de Deus. O grande desafio é a retidão da minha consciência, de seguir o apelo que Jesus me faz e de poder ser-lhe fiel em tudo, e partir daí fazer um caminho com todos e corresponder à vontade de Deus em tudo».

Pode ler toda a reportagem na edição de julho-agosto da sua revista Família Cristã.
 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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