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Brasil: Tragédia em verde e amarelo
26.07.2021
Terceiro país do mundo com mais casos de covid-19; segundo país com mais mortes – eis o Brasil em maio de 2021. Pelas suas características demográficas, económicas e sociais, este país sofreria sempre muito com a pandemia, mas não tinha de ser assim tanto. O governo do presidente Jair Bolsonaro cometeu quase todos os erros que era possível cometer, e o pior é que muitos foram fruto da teimosia e do preconceito ideológico.
 
As estatísticas oficiais dizem que mais de 15 milhões de brasileiros tinham sido infetados com covid-19 até meados de maio. Quando ler estas linhas, o número de mortos certamente já terá passado os 500 mil.

Meio milhão! O Brasil é assim o segundo país do mundo onde a pandemia mais matou.

E mais mesmo, porque na realidade esse limiar já foi ultrapassado há bastante tempo. Como os dados oficiais ficam sempre aquém dos dados reais, o verdadeiro número já andaria perto de 600 mil mortos em maio, segundo um estudo da Universidade de Washington, nos Estados Unidos da América.

Bastava assistir às dificuldades de cemitérios em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro para sepultar todos os falecidos no auge da mortalidade, em abril, para se perceber que a realidade ultrapassava a mais negra das imaginações.

Foi a altura, também, das unidades de cuidados intensivos sobrelotadas e, acima de tudo, da falta de oxigénio. As imagens de familiares de doentes, desesperados, a procurar o gás vital em Manaus, na Amazónia, correram o mundo em janeiro, mas em abril havia mais de mil hospitais em todo o país com falta de oxigénio.

Só em Manaus, estima-se que cerca de 40 pessoas tenham morrido desta forma terrível, mas o governo federal descartou-se de todas as responsabilidades – ali e no resto do país. As declarações do presidente Jair Bolsonaro, em 30 de janeiro, podem ser transcritas sem alteração para tudo o que se passou depois no Brasil em relação à covid-19.

«Não é competência nossa levar e nem atribuição nossa levar o oxigénio para lá», disse o presidente já depois de se saber de algumas mortes. «Nós damos os meios», mas «não é obrigação nossa antecipar os problemas».
 
Entregues à sorte
Assim sendo, o combate à pandemia no Brasil ficou entregue aos governos estaduais e municipais que quiseram e puderam fazê-lo. Muitos não têm recursos suficientes.

Em Brasília, os ministros da Saúde entravam e saíam a uma velocidade estonteante. O atual titular é já o quarto em apenas dois anos e meio de governo e a razão foi sempre a mesma: divergências insanáveis com o presidente sobre o combate à pandemia – ou melhor, o não-combate.

Jair Bolsonaro seguiu fielmente a linha do seu guru político, Donald Trump, e desvalorizou os perigos da covid-19 desde o início, e mesmo depois de ele próprio ter sido infetado. O chefe de estado brasileiro referiu-se à doença em pelo menos duas ocasiões como «uma gripezinha» e garantiu que as restrições económicas e de movimentos determinadas pela pandemia matam muito mais do que o coronavírus.

Além disso, adotou também as teorias da conspiração do ex-presidente dos Estados Unidos da América, que responsabilizou a China pelo aparecimento da covid-19.
 
«É um vírus novo», disse Bolsonaro. «Não se sabe se nasceu em laboratório ou se foi de um homem que comeu um animal. Sabemos que há guerras bacteriológicas», e que a China «é o país cujo Produto Interno Bruto mais cresceu com a pandemia».
Outra causa trumpiana, o uso da cloroquina como tratamento para a doença, também foi adotada com ardor pelo chefe de estado brasileiro. Contudo, ao contrário do ex-presidente norte-americano, que percebeu que promover uma droga sem qualquer efeito comprovado contra a covid-19 apenas o cobria de ridículo, Jair Bolsonaro persiste até ao fim nessa obsessão. Para ele, «canalha é aquele que critica a cloroquina e não apresenta alternativa».

O presidente brasileiro, sempre de dichote e insulto na ponta da língua, não se coibiu de criticar aquilo que ele designa como «a conversinha mole de “fique em casa e a economia a gente vê depois”. Isso é para os fracos», garante.

Pouco importa que a tal «conversinha mole» seja só lei em quase todo o mundo. No Brasil, o governo federal nunca teve uma política consequente de combate à pandemia e de proteção dos cidadãos. Muitos acabaram por acreditar na retórica presidencial e continuaram e viver como se nada se passasse. Em pleno verão brasileiro, as praias continuaram a encher-se de gente e as festas continuaram a realizar-se com centenas ou mesmo milhares de participantes.

O resultado está à vista: uma transmissão descontrolada do coronavírus, ainda para mais agravada pelo aparecimento de uma variante brasileira mais contagiosa.
 
Ajuste de contas
A tragédia brasileira é exponenciada pela crise política. O presidente há muito que está a ser “cozinhado em lume brando” no Congresso. A oposição não se consegue livrar dele, mas faz tudo o que pode para debilitar Bolsonaro antes das próximas eleições presidenciais, em 2022.

Ele paga-lhes na mesma moeda, e acrescenta o desprezo e o insulto público. Perante a decisão do Congresso de criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito à conduta do governo na crise pandémica, Bolsonaro responde com uma palavra: «Xaropada.»

Ninguém no Brasil tem dúvidas sobre o intuito meramente político e partidário desta comissão, que, por isso, merece pouco crédito dos brasileiros. Todavia, teve pelo menos um mérito: possibilitou que os ex-ministros da Saúde de Bolsonaro dissessem publicamente o que pensavam da política (ou ausência dela) do presidente para a maior tragédia a atingir o país e o mundo nas últimas décadas.

O primeiro desses ex-ministros, Luiz Henrque Mandetta, pronunciou uma das acusações mais fortes que um antigo membro de um governo pode fazer ao seu responsável máximo nesta nova era da covid-19.

«Agora, como cidadão, eu posso, sim, criticar, porque eu não vi, mesmo após eu ter saído, mesmo após eu ter visto negar o uso de máscara, negar o uso de higiene das mãos, negar a compra de vacinas, negar a questão da testagem, uma série de negações, negações, negações... Eu, como cidadão, hoje, 410 mil vidas me separam do presidente.»