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Vida Cristã
«Cada dia oferecia ao Senhor um cheque em branco, para que Ele pudesse pedir tudo»
09.12.2022
Todo o cristão pode sentir uma grande dificuldade em fazer a vontade de Deus. Dentro de cada um de nós trava-se sempre uma grande batalha entre fazer a nossa própria vontade e fazer a vontade de Deus, isto é, seguir o caminho estreito que conduz à eternidade. A Irmã Clare Crockett é um grande exemplo do que significa vencer-se a si mesmo e dar espaço a Deus, aos poucos, num percurso palatino, até chegar a poder dizer que queria passar todos os dias um «cheque em branco» a Deus para que Ele pedisse o que quisesse.



Clare Crockett nasceu em Derry, na Irlanda do Norte, a 14 de novembro de 1982. Nasceu numa família católica, mas dadas as circunstâncias políticas e sociais da Irlanda do Norte, esta pertença religiosa tinha antes de mais um significado político. A Irlanda do Norte é um país que se desenvolve num grave conflito entre nacionalistas e unionistas, isto é, entre aqueles que queriam uma Irlanda unida e entre aqueles que queriam estar ligados ao Reino Unido. Isto provocou ao longo dos anos grande dificuldades, conflitos e vários momentos de violência. É neste ambiente que nasce e cresce Clare: um ambiente de grande violência e, ao mesmo tempo, numa sociedade em que ser católico era antes de mais uma posição política a favor de uma Irlanda unida. Por isso, a sua formação religiosa é muito superficial e marcada por uma grande indiferença religiosa.

O que verdadeiramente interessava a Clare era ser atriz. Queria ser não uma atriz qualquer, mas uma atriz famosa, e sabia que tinha de trabalhar para isso. Na escola era uma má estudante, desinteressada e nada aplicada aos estudos. Verdadeiramente, o que a movia era o gosto pelo teatro e pelo cinema. Concorreu a umas audições e começou a receber várias propostas de trabalho. Participou em alguns filmes e era apresentadora de televisão em canais infantis.

Apesar de viver sempre longe de Deus, Deus nunca deixou de a amar e de a querer conduzir para a vida de fé. Deus envia os seus mensageiros para tocar nos corações e também enviou a Clare. A sua amiga Sharon Doherty convidou-a para uma viagem a Espanha. Era oferecida com tudo pago. Clare aceitou de imediato: Espanha, para ela, era sinónimo de sol e praias. Contudo, era um retiro de Semana Santa organizado pelo Hogar de la Madre, uma Associação Internacional de Fiéis de Direito Pontifício desde 6 de junho de 2010. Quando foram buscar os bilhetes, percebeu que era uma peregrinação e queria desistir. No entanto, Sharon conseguiu dissuadi-la. Antes da viagem, a sua amiga ficará doente com apendicite e acabará por não ir à peregrinação. Clare vai sem conhecer ninguém. Mas é precisamente assim que Jesus vai tocar o seu coração. Durante o retiro, Clare parece distante e desinteressada, no entanto, vai escutando o que é dito. Até chegar Sexta-feira Santa e participar da celebração da Paixão do Senhor. Quando foi o momento de beijar a cruz, Clare também integrou a fila da adoração. Deixemo-la contar o momento pelas suas palavras: «Quando chegou a minha vez de beijar a cruz, não me recordo se me ajoelhei ou se fiz a genuflexão, só me lembro que beijei o cravo que estava nos pés de Jesus e recebi a graça de ver que Deus tinha morrido por mim na cruz, pelos meus pecados, pelas minhas vaidades, pelas minhas infidelidades, pela minha impureza… Vi que eu tinha cravado o Senhor na cruz e que a única maneira que eu tinha de consolá-l’O era com a minha vida. Não valia a pena contar piadas nem fazer um teatro bonito para consolá-l’O. Nada do que eu pudesse fazer podia consolá-l’O, apenas dar-Lhe a minha vida. E isto sem eu ter nenhuma formação religiosa. Eu era uma “cabra loca” de discotecas que pensava que ia a Ibiza e, neste momento, ao beijar a cruz, o Senhor tirou-me totalmente do cavalo. Eu não entendia o que se estava a passar, era a primeira experiência forte que tinha.»

Clare sonhava ser atriz, saía à noite, apanhava bebedeiras. Um retiro mudou a sua vida.A partir daqui começa a grande aventura da vida de Clare. Regressa a sua casa e volta aos hábitos antigos: teatro, cinema e televisão, festas e discotecas. No meio de muitas voltas, Jesus não deixa de tocar o seu coração. Mas ela resiste. Percebe que Deus lhe pede que se consagre totalmente a Ele pela vida religiosa, mas ela quer ser atriz famosa. A luta será enorme, mas Deus é mais forte e vence. Conta ela esse momento em que se sentiu vencida por Deus: «Uma noite, numa discoteca, eu senti fortemente, realmente, o olhar do Senhor numa casa de banho, quando estava muito mal, quase a vomitar. Bebia tanto que não me controlava e, por isso, estava sempre num estado muito mau e, ao final, sempre dois homens tinham que me levar desde onde estava até à rua. E muitas noites estava na rua como uma pobre miúda. É muito triste, muito triste. Essa noite, ali, na casa de banho de uma discoteca, quando pensava que ia vomitar, senti fortemente o olhar do Senhor. Senti-o tão forte que pensei que uma amiga minha estava na outra casa de banho em cima da sanita – havia três casas de banho e eu estava na do meio –, olhando se eu estava bem ou não; muito forte era este olhar. Em seguida ouvi, dentro de mim, o Senhor que me dizia: “Porque continuas a ferir-Me?” Sabia que o Senhor estava ali e estava a olhar para mim. Sentir o olhar do Senhor é algo que te rasga interiormente. Vi de novo que estava cravando o Senhor com os meus pecados, com as minhas bebedeiras, outra vez na cruz. Entendi que a minha maneira de viver e a minha falta de resposta ao que o Senhor me estava a pedir faziam-me muito mal a mim mesma e a Deus também.»

Algum tempo depois, dará o passo para ser freira. Será dedicadíssima nos trabalhos que lhe confiam. É entre os mais novos que tem grande sucesso, dando catequese, preparando-os para os sacramentos, ensinando-os a rezar. Depois de trabalhar durante algum tempo numa escola dos Estados Unidos da América, é enviada para o Equador, onde trabalhará também numa escola. Dedica-se não só ao ensino, mas sobretudo ao apostolado junto dos mais jovens. Em diversas cartas e referências desse tempo, vemos como, no meio do imenso trabalho que tinha, nunca se cansava de apontar para Cristo.

No dia 16 de abril de 2016 um terramoto atinge o Equador e o edifício em que Clare se encontra com algumas alunas cai e ceifa aquelas vidas. Alguns dias antes, por sinal, a conversa ao almoço tinha sido sobre a morte e sobre o que pensavam da morte. Quando chegou a vez de Clare responder, disse: «Bem, eu não tenho medo de morrer. Porque é que eu devia temer a morte se a morte é o encontro com Cristo que é Aquele com quem sempre desejei estar?» A morte entristece e podemos questionar por que motivo tinha Clare de morrer dada a importância e valor que o seu trabalho tinha. Mas, se fosse assim, não tínhamos agora este grande exemplo de santidade. Clare ensina-nos a querer fazer todos os dias a vontade de Deus e, assim, a encontrarmos o caminho para o Céu.

Texto: Pe. Ricardo Figueiredo
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