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Cáritas faz o retrato (preocupante) dos jovens em Portugal
27.02.2018
A Cáritas Portuguesa apresentou hoje o seu relatório «Os jovens na Europa precisam de um futuro», um trabalho de conjunto feito com a Cáritas Europa. O relatório faz uma análise preocupante da situação dos jovens portugueses, presos em trabalhos precários ou mal remunerados, impedidos de adquirir habitação ou de preparar o seu futuro.

«Salários baixos e condições de trabalho precárias; a educação desadequada ou de pouca qualidade» são os dois fatores determinantes apontados pela Cáritas como condicionantes na vida dos jovens portugueses. A Cáritas aponta ainda a «banalização das situações de contratos irregulares e a falta de coordenação entre os serviços públicos de emprego, as escolas e as universidades quanto à formação, oportunidades de emprego, orientação profissional e vocacional», pode ler-se num comunicado enviado aos jornalistas.
 
No relatório, pode ler-se como a taxa de abandono precoce da escola em Portugal, de 14,7%, é mais alta que a média da União Europeia (UE), que se cifra nos 10,7%, e como a média salarial para os trabalhadores jovens é de 621€, muito próximo dos 557€ do salário mínimo nacional, mesmo nos jovens com mais habilitações. Um valor que está cerca de 346,22€ mais baixa que a média de salários paga aos trabalhadores em Portugal entre os 35 e os 44 anos. «Estas estatísticas podem ser explicadas pelas políticas de resposta ao desemprego jovem levadas a cabo pelas autoridades públicas, na sequência das recomendações das instituições europeias e da “Troika”, desde o início da crise, como os estágios e outros programas que promovem a inserção dos jovens no mercado de trabalho», diz o relatório, que critica medidas que se fixaram na «preocupação em impedir que a taxa de desemprego continuasse a aumentar», mas que provocaram que aumentasse o «trabalho temporário» e os «empregos precários». «Estas medidas provocaram salários mais baixos e um aumento da pobreza no trabalho», acusa o relatório, que tem uma especial incidência nos jovens com deficiência, pois afirma que «as escolas não estão preparadas para receber, incluir e promover os estudantes com deficiência nos processos de aprendizagem», e que mesmo depois da escolaridade obrigatória há uma «falta de serviços para encontrar um local adequado para estes jovens e para os integrar na sociedade».

 
A preocupação com os jovens estende-se a todos os níveis do seu desenvolvimento e autonomia, já que depois, com os baixos salários e empregos precários, vêm as questões com a falta de habitação e o abandono escolar precoce, além de uma «desilusão» que prejudica a educação dos jovens. «Em Portugal, há muitas pessoas que terminaram estudos superiores, mas que não conseguem encontrar e emprego correspondente às suas habilitações, ou que são consideradas com demasiadas qualificações para outros tipos de trabalho. Isto também contribui para que os jovens estudantes desistam dos seus estudos, pois não percebem quais as vantagens de uma educação de nível superior», refere o relatório, antes de incidir sobre os «custos elevados da educação» no nosso país, afirmando que «os esquemas de proteção social não são suficientes para cobrir todas estas despesas».
 
Segundo a Cáritas, os direitos à habitação, trabalho, educação, igualdade e não discriminação e proteção social estão colocados em causa, e demonstram algumas políticas governativas que apontam como tendo um «impacto positivo, mas limitado», como é o caso das creches a preços razoáveis, que, sendo uma boa medida, tem uma oferta muito limitada, o que força os pais a procurarem «serviços privados, que são muito dispendiosos, ou a deixar os filhos com amas, muitas vezes não certificadas e sem condições adequadas», entre outros exemplos.
 
Medidas para o futuro
«Promover níveis salariais dignos, incluindo medidas para a criação de emprego e alargar a proteção social em caso de desemprego; prevenir a precariedade laboral; conceder oportunidades iguais no acesso à educação e prosseguimento dos estudos. Facilitar a habitação a preços acessíveis, visando uma vida independente e desenvolver uma estratégia nacional para promover a participação cívica dos jovens», são as cinco recomendações apresentadas pelo estudo.

 
Para cada uma destas medidas, a Cáritas explica as razões que estão por trás e o apoio que a própria Comissão Europeia poderia dar nos para implementar cada uma delas. Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa destaca que «é urgente que se olhe para os jovens a partir daquilo que eles representam hoje para a sociedade portuguesa e lembra que este relatório não é mais do que a auscultação da realidade que foi feita, em Portugal, pelas Cáritas diocesanas e por outras instituições que a nós que se associaram, ou seja, é preciso que todos, governantes e responsáveis políticos estejam atentos aquilo que é a vida de todos os dias dos portugueses», em declarações reproduzidas pelo gabinete de comunicação da Cáritas Portugal.
 
Esta é uma situação que se repete ao nível europeu, reforça Jorge Nuño Mayer, secretário-geral da Cáritas Europa, que trouxe até Lisboa o contexto europeu deste relatório e lembrou o imperativo de «todos, governantes, intervenientes políticos, organizações da sociedade civil e a Igreja, se juntarem para escutar os jovens, olharem a sua realidade e promover mudanças», citado pelo mesmo gabinete.

Texto: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e iStockphoto
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