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Carlos Vidal: o eterno Avô Cantigas
26.07.2018
Carlos Vidal tornou-se no Avô cantigas há quase 40 anos. No início, usava cabeleira e maquilhava umas rugas. O cachimbo desapareceu. Assim como a cabeleira e as maquilhagens. Os anos foram-se encarregando de lhe dar o ar de avô. Continua a fazer as delícias das crianças atuais. Falámos com  ele sobre a música e sobre a vida.

Não há avô mais conhecido no país que o avô cantigas?

Tenho a impressão que é verdade. Estou habituado a ouvir isso. Esta figura do avô Cantigas tornou-se bem popular e isso ajudou a que eu pudesse agarrar nela e fazer dela um pouco a quase totalidade da minha vida. Pelo menos, em termos profissionais, é essa a realidade.
 D. R.
 
O Carlos tem alguma coisa em comum com o avô cantigas? O sorriso já vimos que sim…
Sim, e o bigode [risos]. O Avô Cantigas é a minha cara. Eu, Carlos Vidal, tenho tudo em comum com o Avô Cantigas e depois por sua vez o Avo Cantigas naquelas coisas específicas em que tem de ter uma atuação… ele aquilo que é não é propriamente os parâmetros de um personagem de teatro que estou a cumprir. Não, deixo-me ser eu, naturalmente, sem representar qualquer papel. Não há aqui uma separação. Eu deixo-me ser como sou quando visto as jardineiras e quando ponho o boné colorido do avô cantigas que agora é também algo diferente do que era no início porque punha uma cabeleira grisalha e usava um cachimbo e um cavaquinho. Eu tentei adaptar-me aos tempos. Deixo-me ser assim. Eu não tenho um alter-ego. Só há um ego e pode ser alto. Alter não quer dizer alto, quer dizer o outro, mas eu penso que o único que há que tenha altura suficiente para poder ser dos dois.

Tinha uma carreira antes do Avô cantigas. Nunca se arrependeu? Nunca sentiu: “Vou fechar o Avô cantigas numa gaveta e agora vou por outro lado?"
Sim, senti isso agora mesmo. O projeto está a andar, estou a acabar de gravar um trabalho de música original que não tem absolutamente nada que ver com o Avô cantigas, é do Carlos Vidal, em que eu apresento algumas canções que eu foram fazendo parte deste período em que eu andei muito bem ocupado com o Avô Cantigas mas em que não deixei de agarrar na viola ou de me sentar ao piano e compor as minhas outras canções que depois não fizeram nem poderiam fazer parte dos discos do Avô cantigas. Para esses compus centenas de outras canções.
Mas a verdade é que ao longo destes 36 anos foram surgindo por impulso de uma atividade criadora que qualquer artista sente que tem e que tem de lhe dar uso sob o risco de implodir. Há 10 anos, há 20 anos e tal a pergunta ia surgindo: “Então o que é feito do Carlos Vidal?” “O Avô Cantigas veio para pôr o Carlos Vidal na prateleira?” E eu sempre disse que sim até aos dias de hoje em que de facto surgiu esta oportunidade de produzir este trabalho, que estou a produzir com o músico Luís Filipe Reis que me dá a garantia de ir por um caminho válido. O Luís Filipe Reis com os arranjos maravilhosos que fez e também com as dicas que eu lhe dei sobre onde eu queria que aterrasse este meu trabalho, não é em fim de vida, mas é numa altura em que estou a  ficar bem maduro. É um trabalho que eu pretendo que seja repousado e que vá por um caminho que eu quero que, esteticamente, esteja bem definido e que possa ser elaborado. Tentámos fazer músicas com conteúdo e serem canções muito bem vestidas, muito bem arranjadas. É uma prenda que eu espero ter muito brevemente que é a de poder sair com um trabalho não do Avô Cantigas mas do Carlos Vidal, e poder imaginar que as pessoas que tanta ternura têm pela figura do Avô cantigas possam deixar que essa ternura se possa transformar em curiosidade e me darem a honra de me dedicarem alguma atenção. Como essas pessoas são aos milhões, porque, de facto, o Avô Cantigas tem essa implatação popular muito forte e pela positiva, talvez eu pudesse chegar a muitos portugueses com essa música que vem aí muito brevemente.
 


Faz muitas ações com crianças desfavorecidas ou doentes. Diz que o faz para «aliviar aquela balança do deve e do haver». Diz isso também no sentido religioso?
Religiosamente, eu sinto que as dúvidas que eu tinha quando tinha 20 anos são talvez as mesmas que tenho hoje com 63. É engraçado. No entanto, eu tenho uma vida não é inteira dedicada ao estudo profundo dessa procura. Não tem sido isso, eu tenho sido é o Avô Cantigas. Mas, no entanto, o dia tem muitas horas e eu por ser uma pessoa sensível tenho muitas e muitas, milhares de horas viradas para dentro. Quando tinha 20 anos como hoje isso continua.
Eu sou um ser espiritual, mas depois se sinto que se quiser juntar a isso uma religiosidade então eu por ser cristão eu tento ser um bom cristão e vejo na figura de Jesus um exemplo que nunca vi que pudesse ser um mau exemplo para a minha vida. Nunca tive maus conselhos da minha Igreja. Ao tentar seguir, ao tentar ser um bom cristão, estou a tentar ser uma melhor pessoa. Se conseguir tanto melhor. 
Uma das coisas que mais me entristece é que eu sentindo que sendo juiz em causa própria fico triste quando algo acontece com pessoas e eu sinto que tenho de lhes perdoar. Fico triste por isso acontecer. Preferia não ter de perdoar a alguém, seja ele quem for. Eu por um lado fico triste se tenho de perdoar algo a alguém. Mas depois, logo a seguir, quer dizer não é logo a seguir, tenho levado uma vida inteira a aprender isso e ainda hoje não acontece… logo a seguir fico feliz por conseguir perdoar. É alguma coisa que é impressionante. É sermos impregnados dessa sabedoria, desse feeling que é saber perdoar. E não é bem saber. Não é algo que se aprenda. Parece que vem do fundo de nós par que nos possamos sentir bem.

Enquanto figura pública Avô Cantigas também sente que tem alguma coisa de que pedir perdão ou de que ser perdoado?
Não sinto enquanto figura pública. Tenho os meus erros. Eu sou divorciado. Vivo com a minha mulher e companheira. Também na vida se aprende muito no amor. Às vezes costumo dizer a brincar que na vida tive os meus amores. Tive três relações sérias do género de compromisso que também fazem parte da vida pública porque a pessoa sente que na vida pública expõe: «Esta é a minha mulher.»
Se pudesse voltar atrás, voltaria. Por exemplo, a minha mãe já faleceu. O meu pai ainda é vivo. Todos os dias estou com ele, vou beber cafezinho com ele, conversamos. Tenho sabido coisas da vida dele e da minha vida também pelas horas de conversa que tenho com ele. Se hoje pudesse estar novamente com a minha mãe, ter-lhe-ia dedicado mais tempo. Tenho não é um remorso doentio ou que me faça sofrer, mas apetece-me pôp-lo no saco do remorso, de isso não ter acontecido. Sofro um boacidnho porque já não posso voltar atrás. E às vezes até tive umas certas impaciências com a mãe.
Aprendi com o tempo, com a idade. Também aprendi a ser melhor companheiro. A pessoa tenta sempre atingir a perfeição e que as coisas corram bem. Peço perdão pelas minhas coisas da vida privada.
Em termos públicos, sempre me esforcei por ser exemplar. Se algum dia perdi a cabeça de uma forma privada mas estava num sítio púbico e alguém pudesse ter reparado peço desculpa. Sempre que eu estive ou no palco, ou na televisão, ou na rádio, ou numa entrevista como esta, sempre que estive no supermercado, sempre me esforço por ter um comportamento exemplar e sempre me esforço por sorrir para as pessoas e lhes dar o melhor que posso ter de mim. É um tesouro que eu tenho: sempre que eu sou abordado é sempre com um sorriso, as pessoas vêm ter comigo sempre de braços abertos. Há certas pessoas que às vezes são vaiadas e levam assobios e a coisa pode tornar-se desagradável porque uns odeiam e outros adoram.
 


O Carlos é avô? O Avô Cantigas é avô?
Não, não sou avô de verdade. E, no entanto, eu tenho dois filhos já adultos, um com 34 anos e um com 31. Mas ainda não me deram nenhum neto. É um assunto com o qual não me preocupo nada. Assim como no princípio não pensava se o Avô cantigas ia durar mais dois ou mais trinta. Agora não penso se vou ter netos ou não vou ter.
 
Falou do seu pai, reconhece também que o próprio Carlos está a chegar a uma fase mais madura. Preocupa-o a situação dos idosos em Portugal?
O meu pai está num lar e já lá fui cantar algumas vezes, assim como já fui animar as tardes de lares e centros de convívio. Há algum onde vou com alguma regularidade. Já sou amigo deles e já me conhecem. Agarro na viola, canto uns fadinhos. Eu sinto-.me bem e alivio mais 30 gramas de pecados. [risos]
Não vou ao ponto de me preocupar com o problema dos lares em Portugal. Agora, reconheço esta realidade: os idosos têm tendência para não gostar dos lares. Mas no entanto também reconheço que os lares com os seus funcionários, não são locais abandonados, embora acredito que haja uns que sejam melhores do que outros e isso só reverte a favor sdos seus ocupantes, dos velhos. No caso do meu pai, vejo que ele sofre por estar lá. Não tanto por não ter uma boa resposta do lar. Mas porque ele sente que esse período coincide com o tempo em que ele perdeu as coisas. Eu vejo que o meu pai teve um percurso de vida normal, teve o seu emprego, foi senhor da sua vida. Hoje ele perdeu as suas referências físicas. Não tem a sua casa.
A grande maioria dos idosos não são de famílias que possam proporcionar o conforto para além do espiritual, porque têm uma boa estrutura física que os acompanha e espiritualmente são pessoas que continuam com as famílias e se calhar há dinheiro para continuar a pagar a alguém para que fiquem nas suas casas. Vocês estão a ver: isto [a minha casa] é uma sala e um quarto e não tenho condições para tê-lo a viver comigo com os seus quase 90 anos. Fisicamente, a coisa mais importante que o meu pai tem na vida é o quartinho dele. Felizmente tem o seu quarto onde está sozinho e a sua casa de banho que é só dele. E ele constrói daquela parte para dentro o seu mundo que é hoje a sua casa. Algo completamente diferente e relativamente recente na vida do meu pai. O meu pai viveu 86 anos com a minha mãe, na sua estrutura que foi construindo e agora vê-se reduzido a nada.
Onde quero chegar é às centenas e centenas de pessoas idosas que têm as suas vidas em sofrimento muitas e muitas horas do dia por causa da sua saúde. Aí o estado também precisa de dar a sua resposta porque precisamos de ter um Serviço Nacional de Saúde que lhes dê algum alívio com os medicamentos. E alguns casos mais extremos nomeadamente com o apoio direto que se pode dar às pessoas, tanto nas suas próprias casas, como nas instituições ou nos hospitais. A velhice costuma ter a acompanhá-la os problemas de saúde, o que é uma coisa que me faz pena. O ser humano podia estar feito de uma forma sem estragar tanto o material. Que morrêssemos só de velhice, sem dores e sem cancros. Mas a verdade não é essa.
 
Entrevista conduzida por: Cláudia Sebastião
Fotos: Ricardo Perna e D. R.

 
Esta é uma parte da entrevista a Carlos Vidal, publicada na revista Família Cristã de julho/agosto de 2018. pode ler outros excertos na edição impressa.
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