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«Casados à Primeira Vista» - O que faço ao meu otimismo?
03.12.2018
Fujo aos discursos fatalistas do hoje já nada é como era. Até porque quem passa os dias enfiado em livros de História, e conhece o passado, sabe bem que não era cor-de-rosa como tanta gente o quer pintar. Então quando o assunto é o casamento, menos ainda – que o digam as mulheres obrigadas a casar com perfeitos desconhecidos, tantas vezes com idade para serem seus pais ou avós, míseras peças num tabuleiro de estratégias económicas e políticas das suas famílias.

Na Idade Média, a Igreja estabeleceu os 12 anos como idade mínima para o matrimónio e exigiu, coisa nunca antes vista, o consentimento livre da mulher. A intenção era louvável, embora a mesma Igreja tenha fechado vezes demais os olhos às suas próprias exigências, e a semente foi germinando nos países de cultura judaico-cristã, ao ponto de hoje acharmos inadmissível o casamento de crianças, ou que um pai escolha casar uma filha contra o seu desejo.

Por tudo isto não gosto de romarias a tempos que nunca foram. E prefiro mil vezes acreditar que a Humanidade, no seu todo, se vai aperfeiçoando, preferindo a verdade dos sentimentos à hipocrisia das normas, mesmo quando isso significa, por exemplo, uma separação ou um divórcio. Que só acontecem, quero muito crer, porque o casamento é sério demais para admitir a falta de amor ou de compromisso.

Mas tenho igual receio de quem nunca olha para o caminho que já percorremos e desvaloriza gratuitamente as conquistas feitas. Como acontece em reality shows como o «Casados à Primeira Vista». Tanto esforço para nos libertarmos de casamentos arranjados, para promovermos a autonomia das nossas escolhas, e afinal há por aí gente disposta a voltar à estaca zero, seja sob a luz dos holofotes, no conforto do seu sofá?

Ainda para mais recorrendo ao argumento antigo de que há quem saiba melhor do que nós o que nos convém, argumento que serviu, e serve ainda em tantas culturas, para justificar que pais agrilhoem os filhos a relações cruéis. E recorrendo ao perpetuar da ideia sórdida de que um casamento se pode consumar sem amor (e não nos venham com conversa, como se pode amar quem não se conhece?), e que somos sérios quando nos comprometemos a partilhar com um desconhecido uma vida.

Que gente que confessa abertamente ter sido incapaz de manter relações amorosas, numa versão sorte ao jogo azar ao amor, se entregue a uma suposta ciência, feita por “especialistas”, peritos em neuroisto e coachingaquilo, acreditando que é o vestido de noiva, a festa, a lua de mel e horas de exposição às câmaras de televisão que vai superar as suas falhas e carências, é triste, mas e o que vai na cabeça de quem assiste? Finge que não percebe que uma ciência com 90% de insucesso é no mínimo duvidosa, que o que se procura ali é exatamente a cena canalha? (Títulos dos clips na página da SIC no dia 6/11: «Vem aí uma discussão», «Sónia vai viver com o João contrariada», «Ana chora», «Hugo fica desiludido».)

Mas, confesso, que até obter um «sim» da SIC à minha pergunta «Estes casamentos são juridicamente válidos?», quis acreditar que era uma brincadeira, de mau gosto, mas uma brincadeira em que participava gente maior e vacinada e via quem queria. Contudo, a surpresa de que há de facto uma banalização absoluta de um contrato de casamento, e de um subsequente divórcio (a SIC assegura que é por conta da casa os custos respetivos, desde que se dê no tempo da “experiência/programa”), perante a passividade geral, deixam-me de facto sem saber o que fazer ao meu otimismo.