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Celebrar o Natal onde tudo aconteceu
18.12.2020
Por todo o mundo, o Natal celebra o nascimento de Jesus e os cristãos relembram, à distância, o momento em que Maria deu à luz naquela gruta de Belém. Para os cristãos que vivem em Belém, é a possibilidade de celebrar o Natal no local exato onde se pensa que tudo possa ter acontecido. É bom, mas também traz o seu lado negativo, para eles e para o Cristianismo.

Foto: Shutterstock

Por razões diferentes, os dois locais principais de peregrinação cristã são Roma e a Terra Santa. Roma pelo que é hoje e tem sido nos últimos séculos, a Terra Santa pelo que foi no início do Cristianismo. Foi ali, no território hoje partilhado por Israel e pela Palestina, que tudo aconteceu. Em Belém, na que é hoje a Praça da Manjedoura, fica a Igreja da Natividade, que se julga ser a mais antiga do mundo, mandada construir pelo imperador Constantino, que enviou a sua mulher, Santa Helena, para construir três igrejas nos locais santos do nascimento, da morte e crucificação e no local da Ascensão, o Monte das Oliveiras. As duas últimas foram destruídas e reconstruídas, pelo que esta será a mais antiga. É um local de peregrinação para milhões de peregrinos todos os anos, e uma honra para quem ali vive. «Eu nasci em Belém, cresci como seminarista e fui ordenado sacerdote em Belém. Estou ao serviço das pedras vivas, o cristão da área de Belém», conta-nos o Pe. Hanna Mass’ad, sacerdote diocesano membro do clero do Patriarcado Latino de Jerusalém e, desde agosto de 2017, o pároco da Comunidade Católica de Beit Jala, uma pequena cidade ao lado de Belém. «É realmente uma grande honra ser cristão no lugar onde Nosso Senhor Jesus nasceu, é um grande presente e uma graça celestial o Senhor ter escolhido a nossa terra para encarnar nela e redimir o universo a partir dela», considera.

Pe. Hanna Mass’ad. Neste sentido, a vivência do Natal, sendo grande em todo o lugar, tem aqui uma vida especial. «Normalmente é um momento cheio de alegria e atividades, como concertos, o Mercado de Natal, a Festa das Árvores de Natal Relâmpago, festas para crianças, peregrinos que enchem as ruas de Belém, lojas e Igreja... entre muitas outras coisas», garante o sacerdote. Este ano, tudo será, necessariamente, diferente. «Com o medo do coronavírus, a nossa vida mudou e as nossas celebrações também. As festas religiosas tornaram-se simples, sem missas ou outros eventos em grupo. A celebração do Natal deste ano exorta-nos a voltar à Gruta de Belém, aceitando encontrar Jesus de forma privada e pessoal, aceitando celebrar Jesus na fé simples, como os pastores, que aceitaram anunciar a sua presença entre nós», afirma.

Mas a pandemia veio apenas piorar uma situação já de si muito complicada para os cristãos de Belém, uma zona em território palestiniano que tem assistido a uma saída generalizada desta comunidade em busca de melhores condições de vida. Nicolas é guia turístico e reside em Belém. Acompanha grupos portugueses e tem vindo a Portugal todos os Natais para vender presépios de madeira da Terra Santa, muito apreciados aqui, e traça um cenário difícil para os cristãos em Belém. «Sinceramente, cada ano o Natal é mais pobre, porque há menos cristãos. A Missa do Galo que se celebra na Igreja da Natividade não está aberta a todos, só entramos com convite, porque vêm muitas delegações estrangeiras, e acabamos por ir a outras paróquias», lamenta.

Nicolas é guia turístico.O número de cristãos diminui a olhos vistos e são poucos milhares os que continuam ali, uma minoria muito pequena dentro da população palestiniana. Os conflitos entre Israel e a Palestina provocam um isolamento da zona palestiniana e uma dificuldade ainda maior para os cristãos, que vivem do turismo e das peregrinações. «A contínua ocupação israelita (73 anos) é a principal causa do sangramento da comunidade cristã palestiniana», afirma o sacerdote, que, no entanto, não baixa os braços. «Nosso Senhor Jesus Cristo nasceu sob a ocupação militar romana, e as suas testemunhas, as pedras vivas da Terra Santa, nasceram e continuam hoje a viver e a sofrer com a ocupação israelita. Eles vivem como todos os palestinianos numa grande prisão, sem ver o fim, com medo do seu futuro e do futuro dos seus filhos, sob o jugo do “Herodes” dos dias de hoje, que continua a tentar matar os seus filhos...», relata-nos o Pe. Hanna.

Nos territórios palestinianos, os empregos são escassos, mas a possibilidade de ir trabalhar em Israel não é mais fácil. «Para trabalhar em Israel é preciso permissão do exército israelita; sempre foi difícil obtê-la e, por causa do impacto do coronavírus, tornou-se mais difícil obtê-la. Os números do desemprego aumentaram», diz o Pe. Hanna Mass’ad.

Para quem consegue trabalhar, a situação obriga a muitos sacrifícios. «As pessoas que tiveram a sorte de ter autorização para trabalhar em Israel foram forçadas a enfrentar, viver e trabalhar em condições desumanas, só porque querem alimentar as suas famílias», relata, acrescentando que «às vezes, quando ficam doentes, recusam-se a fazer o teste do coronavírus, por causa do risco de perderem as suas autorizações de trabalho».

Aliás, este sacerdote revela que até para o combate à pandemia o Ministério da Saúde palestiniano «enfrentou enormes dificuldades com a força de ocupação israelita para obter remédios, provisões médicas e máquinas para curar o povo palestiniano infetado».

Não é fácil encontrar quem queira falar sobre a situação dos cristãos em Belém, pois o receio de represálias ou de uma “má interpretação” existe, e isso mesmo nos é reportado por quem lá vive. Nicolas avisa que «a Terra Santa sem cristãos seriam apenas pedras mortas, e todas as igrejas podem ser convertidas», pelo que, defende, «é importante que os cristãos do mundo inteiro venham à Terra Santa, em particular a Belém», para apoiar a vida de «ovelhas que vivem rodeadas de lobos».

Este guia turístico não acredita que o número de cristãos possa aumentar no breve prazo. «Os milagres existem, mas acho que não. Temos vagas de emigração desde o tempo dos otomanos em 1900. Os que emigram encontram melhores condições de vida, pelo que não querem regressar, mas o que vai suceder com os lugares santos?», questiona este cristão, para quem é «importante» manter a memória viva na Terra Santa.

O Pe. Hanna sente que, mesmo diminuídos e em dificuldade, é ali que têm de estar os cristãos. «Jesus encarnou nesta terra para estar perto dos seus filhos e filhas. Ele amava-os, curou-os, pregou-lhes e deu-lhes esperança. Portanto, vejo a minha missão de sacerdote aqui na Terra Santa, na Palestina, na região de Belém e em Beit Jala, como o Senhor me chamou para fazer: estar perto do povo, amá-lo, orar por ele, pregar a Palavra do Senhor, dar-lhe esperança para resistir e continuar a testemunhar a sua fé cristã na sua Terra Santa, e delicadamente encorajá-lo a clamar por justiça e paz real, a lutar pela construção da civilização da vida, a trabalhar para “construir pontes, não paredes”, como dizia São João Paulo II», refere este sacerdote.
 

 
 Texto: Ricardo Perna
 
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