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Centenas de pessoas despedem-se do Pe. Feytor Pinto
07.10.2021
Centenas de pessoas deslocaram-se à igreja da paróquia do campo Grande, para homenagear e despedir-se do Pe. Vítor Feytor Pinto, esta quinta-feira, dia 7 de outubro. Uma dessas pessoas foi Marcelo Rebelo de Sousa. No final da Eucaristia de corpo presente, em declarações aos jornalistas, disse que «o padre Vítor Feytor Pinto foi um dos vultos, das personalidades na Igreja Católica, que mais acompanhou a viragem da Igreja do passado para a nova mensagem do Vaticano II. Ainda no regime anterior, nos anos 60, ele lançou o Movimento por um Mundo Melhor. Enchia o pavilhão dos desportos e pregava uma abertura da Igreja à sociedade, à saúde, à educação, à justiça, à igualdade, à solidariedade social. Começou aí um percurso que durou meio século e em que esteve presente em tudo. Ele foi das figuras mais importantes na abertura à sociedade, mas também na mudança da sociedade portuguesa. É por isso que cardeal patriarca, bispos um pouco de todo o país reconhecem o papel único que ele teve para Portugal. Não foi só para a Igreja, foi para Portugal».

Marcelo Rebelo de Sousa esteve na missa de corpo presente.

Presidiu à Eucaristia D. Manuel Clemente. À entrada, salientou que «o padre Vítor foi o exemplo magnífico daquilo que o Concílio Vaticano II nos deixou ao propor uma relação muito ativa Igreja mundo, em que as comunidades cristãs longe de estarem fechadas sobre si próprias se transformam em proposta para a sociedade envolvente através dos seus membros, padres ou leigos. E o padre Vítor, que aderiu de alma e coração como ele sempre disse ao Concílio Vaticano II, foi sempre muito dado a pôr em prática esses ensinamentos e pô-los com o que lhe era próprio: com uma vida e um entusiasmo espantoso». Salientando que mesmo com muitos problemas de saúde nos últimos anos, «nunca o encontrei esmorecido, pelo contrário, era sempre olhar para a frente e o que ia fazer a seguir. Era um homem de uma vitalidade extraordinária». Uma vitalidade contagiante. «Era extremamente bom para todos nós, saudável, entusiasmante contactar com ele, como aconteceu comigo há muitos anos, desde jovem. Sobretudo quando voltei a Lisboa para estas funções episcopais e até à última vez em que nos encontrámos que foi na última segunda-feira, já ele estava muito, muito, muito debilitado. Mas a mesma ideia, o mesmo espírito, o estar na igreja, o estar para servir. Estava lá tudo», recorda.

O cardeal-patriarca de Lisboa recorda que o sacerdote «não punha restrições nenhumas nos seus contactos, nas suas amizades, o que ele fez na sociedade e o que o próprio Estado lhe pediu, por exemplo no campo da saúde, e depois na defesa da vida em todas as suas fronteiras, tudo isto levava-o ao encontro de muita gente e também a acolher muita gente». Na homilia, D. Manuel Clemente voltou à ligação umbilical do padre Vítor ao Concílio Vaticano II dizendo que ele o «viveu de uma maneira muito intensamente», aplicando-o à vida concreta. Referindo-se à constituição pastoral Gaudium et spes, o cardeal-patriarca defende que «o padre Vítor representou o espírito da Gaudium et spes de uma forma única. Não conheço ninguém que durante tanto tempo, em tantas fronteiras e com tanta expansão representasse esta fantástica mensagem do Concílio Vaticano II: as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos vossos contemporâneos são as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Ele viveu intensamente essas fronteiras até ao fim».


D. Manuel Felício, bispo da Guarda, lembrou que a ordenação do padre Vítor ocorreu nessa diocese. «Ele foi ordenado na Guarda e durante dez anos serviu a diocese da Guarda. Depois mercê de várias circunstâncias partiu à procura do mundo, tendo como base de partida o Patriarcado de Lisboa, onde o encontrei durante três anos enquanto fui bispo auxiliar aqui e depois tive a alegria de descobrir que ele era da diocese da Guarda. Ele teve sempre no coração e sempre manifestava com grande apreço ter sido um sacerdote do presbitério da Guarda, que foi até ao fim. É por essas razões que estamos aqui a evocá-lo, a fazer memória e também a fazer sufrágio por ele», afirmou a sorrir. Dele tem memória de «um homem muito intrometido na realidade social, estava-lhe na alma. Ele quis chegar à sociedade com a diferença do Evangelho e da Igreja e conseguiu. Pela linguagem que utilizava, pela forma como estava dentro dos assuntos, ele marcou profundamente realidades sociais».

José Manuel Pureza, vice-presidente da Assembleia da República e deputado do Bloco de Esquerda, marcou presença nas exéquias, em representação da Assembleia da República, o que «mostra precisamente como a pluralidade de correntes de opinião em Portugal tem no padre Vítor Feytor Pinto alguém que só pode ser respeitado». O parlamentar defendeu que «é indiscutível que o padre Vítor Feytor Pinto foi alguém que marcou pelo seu testemunho de vida, de palavra, de ação, um modo de a Igreja estar no mundo, marcado pela abertura, pelo espírito de tolerância, pelo acolhimento das diferenças, sempre com enorme respeito, mas também sempre com uma grande convicção. Creio que lhe devemos essa homenagem que é a de nas nossas próprias vidas seguirmos esse exemplo de abertura, de acolhimento, de atenção, ao cuidado com o outro, que nos deu o seu exemplo».

Entre as centenas de paroquianos e antigos paroquianos e diversas personalidades, marcou também presença Durão Barroso, antigo primeiro-ministro e antigo presidente da Comissão Europeia. «Conhecia o padre Feytor Pinto há muitos anos. Foi ele que batizou os meus três filhos e que casou um dos meus filhos. Também fui muitos anos paroquiano aqui no Campo Grande e conhecia-o bem também por isso. Era uma pessoa notável, para além da dimensão religiosa e espiritual era uma pessoa de um profundo humanismo, que se preocupava muito com os outros, muito inteligente, muito culto, mas sempre com uma grande preocupação com os ouros», disse, aos jornalistas. Também José Ribeiro e Castro, antigo líder do CDS, foi paroquiano do padre Vítor. «Fiz parte das equipas litúrgicas das missas que ele celebrava. Convivi muito com ele nesse serviço. Ele marcou a Igreja da cidade e do país, como também a sua marca na sociedade portuguesa. Aqui na paróquia do Campo Grande foi uma bênção muito grande que nos caiu e o padre Vítor é daquelas pessoas que, não sendo bispo, deixa uma pegada fortíssima de intervenção, de magistério, de catequese, na sociedade portuguesa. Era um grande orador, tinha uma palavra muito forte, era um homem vigoroso, muito alto, era uma torre, um homem impressionante. Era muito querido de muita gente. Foi bom para muita gente. Tinha uma marca muito grande de bondade. Um homem de muita coragem», disse, emocionado.

Uma das áreas em que mais trabalhou foi na da saúde. O Pe. Fernando Sampaio, capelão do Hospital de Santa Maria e coordenador nacional dos capelães, representou todos na homenagem. «Estou aqui porque devo muito ao padre Vítor, como capelão hospitalar e como pessoa o que fui recebendo dele. Sou capelão hospitalar desde 1986. Acompanhei muito o padre Vítor em toda a pastoral da saúde, na formação de capelães e de alguma forma é uma homenagem. É um gesto de ternura e também pedir a Deus que o acolha no seu reino. De facto, ele foi um grande homem no seu ministério e também como cidadão», afirmou. Este capelão quis sublinhar o «contributo enorme para melhores serviços de saúde em Portugal, foi um dos que introduziu a reflexão sobre a humanização».

À saída do corpo da Igreja paroquial do Campo Grande houve palmas.

Isabel Galriça Neto, médica de cuidados paliativos, lutou com o padre Vítor pela defesa de cuidados paliativos. «Um legado de quem viveu plenamente. Fez de cada dia uma vida, como alguns dizem, no sentido de aumentar a dignidade das pessoas mais vulneráveis. Ele dedicou-se a muitas coisas no âmbito da saúde. Nunca deixou de dar testemunho da necessidade de atendermos ao sofrimento dos outros. Muito se tem dito que nos cuidados paliativos e nos cuidados continuados já não há nada para oferecer aos doentes. É falso. O padre Vítor deu-nos também este acaso feliz de morrer no mês dos cuidados paliativos e dizer que há uma resposta clara quando temos ao lado pessoas que estão em sofrimento. É fazer tudo para que esse sofrimento não se torne disruptivo, não se torne intolerável. Isso é possível nos cuidados paliativos. Estou-lhe grata por ter sido um bom parceiro neste percurso de muitos e muitos anos e, de alguma forma, meu mestre também.» O padre Vítor faleceu na unidade de cuidados paliativos do Hospital da Luz, onde trabalha Isabel Galriça Neto. Acompanhá-lo nestes últimos anos de doença «são sempre experiências muito ricas. É um privilégio. O padre Vítor há anos que estava numa situação em fim de vida. No caso concreto dele, numa vivência intensa de santidade e quem está à volta é privilegiado por partilhar isso».

Eugénio da Fonseca, antigo presidente da Cáritas, quis deixar uma «palavra de gratidão, de 48 anos de convivência». Recorda uma relação que começou com a Ação Juvenil. «Ele era um perito em lidar com os jovens. Depois manteve sempre essa juventude. Admirava nele a sua capacidade de estar com todos, de saber dialogar com todos, de fazer pontes com todos. E quando digo todos não digo apenas dentro da Igreja, mas em espaços não eclesiais muitas vezes de natureza política, de outras religiões. O padre Vítor tinha a capacidade da compreensão para depois criar condições para que houvesse o encontro. Era o padre do encontro».

Essa capacidade de criar consensos e pontes é enaltecida também por Helena Presas que trabalhou de perto com o padre Vítor na paróquia do Campo Grande. «Trabalhei muitos anos com o padre Vítor. Era uma espécie de braço direito que o padre Vítor tinha. Era sempre um desafio muito grande trabalhar com o padre Vítor porque o padre Vítor era muito criativo. Fazia muitos consensos. Falava com este, com aquele e com o outro e acabava por modificar projetos à medida que ia conseguindo a complementaridade de outras pessoas. Era um desafio constante que era feito com muita serenidade. O padre Vítor era uma pessoa muito delicada na maneira de falar connosco, muito delicada na maneira de gerir uma equipa. Era um senhor», afirmou, em declarações aos jornalistas. Na Igreja, Helena falou salientando «o enorme esforço de atualização da Igreja no mundo», traduzido na sua prática quotidiana porque «rodeava-se de leigos», «tinha sempre tempo para uma palavra ou ouvir» e «criou na paróquia uma cultura de acolhimento permanente».

O irmão do padre Vítor Feytor Pinto quis «agradecer a Deus, agradecer em especial ao senhor cardeal-patriarca e sobretudo aos paroquianos do Campo Grande que souberam amar o nosso irmão. O Vítor serviu a Igreja e Portugal». O irmão lembrou as brigas que tinham em crianças, «espicaçados pela mãe», em que Vítor era «sempre respeitador nas diferenças» e em que «o amor permanecia sempre».

Antes da missa, ao longo de toda a manhã, muitas pessoas foram passando pela igreja, onde foi afixada uma fotografia do Pe. Vítor Feytor Pinto com a mensagem «Até Deus, querido Pe. Vítor». No final da missa, algumas dezenas de pessoas esperaram pela saída do corpo da Igreja para prestar uma última homenagem com palmas. O corpo e o cortejo seguiram para o Cemitério do Alto de São João, em Lisboa.
 
Reportagem: Cláudia Sebastião
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