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«Como São José, somos chamados a ser artesãos de Esperança»
18.03.2021
D. José Cordeiro, bispo de Bragança-Miranda, é o presidente da Comissão Episcopal de Liturgia e Espiritualidade. No dia em que começa o Ano de S. José, fala à Família Cristã de uma figura essencial na liturgia católica, apesar do pouco que se conhece sobre a figura do pai terreno de Jesus.


Como viu esta decisão do Papa de dedicar um ano à figura de S. José?
Uma feliz surpresa! O Papa Francisco inaugurou, providencialmente, o seu ministério petrino no dia 19 de março de 2013, solenidade de São José. Sete anos depois declarou um Ano dedicado a São José, escrevendo na carta apostólica Patris corde, cujo objetivo «é aumentar o amor por este grande Santo, para nos sentirmos impelidos a implorar a sua intercessão e para imitarmos as suas virtudes e o seu desvelo. (...) Só nos resta implorar, de São José, a graça das graças: a nossa conversão». Os sete traços acerca da paternidade pelo amor do coração de São José são deveras inspiradores: Pai amado; Pai de ternura; Pai na obediência; Pai no acolhimento; Pai com coragem criativa; Pai trabalhador e Pai na sombra.
 
Vê alguma relação entre esta decisão do Papa e o tempo de pandemia que vivemos?
Como o Papa Francisco diz ao proclamar o Ano de São José: «o desejo foi crescendo ao longo destes meses de pandemia», como reconhecimento e gratidão às pessoas comuns, que, como São José, aparentemente escondidos ou em segundo plano, mas que têm um protagonismo sem paralelo na história da salvação e fazem com que a vida aconteça em cada dia nos muitos serviços e bens essenciais. São José é protetor e, ao mesmo tempo, modelo operativo. Como São José, somos chamados a ser artesãos de Esperança que enfrenta e vence as crises, com coragem e confiança.
 
É, arrisco, uma das figuras da história do Cristianismo das quais mais se fala, mas menos se conhece. Concorda? Porque será isto?
O essencial mostrado nos evangelhos trouxe algum silêncio em relação a São José. Com efeito, de São José não conhecemos palavras, mas sonhos e obras. O anjo a São José só aparece em sonho, «mas num sonho que é realidade e revela realidade. Mais uma vez é-nos apresentado um traço essencial da figura de São José: a sua perceção do divino e a sua capacidade de discernimento» (Bento XVI). São José é o grande facilitador do encontro com Jesus. Não tenhamos medo de ir a São José e ser como ele, recebendo Deus no coração e na inteligência e de O comunicar na alegria da fé, da esperança e da caridade. O nome José significa Deus acrescenta, provindo do verbo iasàf – acrescentar. São José é um homem com coragem criativa e confiança crescente. «A felicidade de José não se situa na lógica do sacrifício de si mesmo, mas na lógica do dom de si mesmo» (Patris Corde, 7). Que São José acrescente à Igreja mais chamados para serem enviados a acrescentar o Evangelho da Esperança no mundo contemporâneo.
 
O Papa elenca, na sua mensagem para o Ano de S. José, várias das características de S. José que podem ser tomadas como exemplo pelos cristãos. Quais são as características de S. José que destaca como mais significativas?
Antes de mais recordo a homilia do Papa Francisco, no dia 19 de março de 2013, exorta-nos à bondade, ou melhor à ternura, a exemplo de São José. «A propósito, deixai-me acrescentar mais uma observação: cuidar, guardar requer bondade, requer ser praticado com ternura. Nos Evangelhos, São José aparece como um homem forte, corajoso, trabalhador, mas, no seu íntimo, sobressai uma grande ternura, que não é a virtude dos fracos, antes pelo contrário denota fortaleza de ânimo e capacidade de solicitude, de compaixão, de verdadeira abertura ao outro, de amor. Não devemos ter medo da bondade, da ternura!».
 
Em termos litúrgicos, qual a importância da figura de S. José?
Na Liturgia da Igreja, José de Nazaré é o «servo fiel, humilde e silencioso», homem justo e prudente, «patriarca do silêncio e do trabalho». São José é um facilitador da vida em Cristo. De facto, a Liturgia, ao celebrar os mistérios da vida do Salvador, sobretudo os do nascimento e da infância, comemora frequentemente a figura e o papel de São José: no tempo do Advento; no tempo de Natal, em particular na festa da Sagrada Família; na solenidade do dia 19 de Março; na memória do primeiro de Maio. O nome de São José é recordado nas Orações Eucarísticas I a IV do Missal Romano e na Ladainha dos Santos....
 
De que forma acha importante que este ano de S. José seja celebrado, pela Igreja instituição, por um lado, e pelos fiéis, por outro?
Com uma grande alegria grata do coração. Há 150 anos, São José foi proclamado padroeiro universal da Igreja e há mais de 50 anos foi celebrado como padroeiro do II Concílio do Vaticano. São José é também protetor de muitos seminários, casas de formação, e de tantas pessoas e instituições. Constatamos que ao longo das várias épocas culturais, a devoção e reflexão eclesial salientou algumas virtudes de São José: a fé; a obediência dedicada e silenciosa às manifestações da vontade de Deus; a piedade sincera; a fortaleza nas provações; o amor a Maria; a paternidade de Jesus; o trabalho escondido e a simplicidade de vida autêntica.
 
Em Portugal, o que se está a preparar para marcar esta data?
A celebração do dom deste Ano é sobretudo de carácter espiritual e pastoral. Certamente que cada pessoa, instituto de vida consagrada, instituições, paróquias, unidades pastorais, dioceses, estão a viver com coragem criativa e confiança crente, o melhor possível, este tempo favorável de graça.
Sabemos que em várias comunidades se renova a devoção a São José, por exemplo com a aquisição da sua imagem (onde ainda não exista) e/ou outras manifestações... O Secretariado Nacional de Liturgia publicará em breve um devocionário como contributo de harmonização da Liturgia com a Piedade Popular.
 
O ano de S. José confere também a possibilidade de indulgências plenárias, algo que as pessoas não compreendem muito bem o que é. É também uma oportunidade de explicar melhor?
A indulgência é um dos meios através dos quais a Igreja apoia o nosso processo de conversão profunda. Como dizia o grande teólogo Karl Rahner: «a indulgência não substitui a atividade intensa do amor (...); ela é mais a ajuda da Igreja para favorecer a obra sempre difícil do amor». Durante este Ano, poderão obter a Indulgência plenária da pena temporal para os próprios pecados concedida pela misericórdia de Deus, aplicável em sufrágio dos defuntos, todos os fiéis sinceramente arrependidos, confessando-se devidamente, comungando sacramentalmente, e que rezem segundo as intenções do Santo Padre, conforme a prática eclesial dos Anos Santos. Neste Ano de São José, os fiéis têm a possibilidade de obter a indulgência plenária realizando ao menos uma das seguintes obras: meditando durante ao menos 30 minutos sobre a oração do Pai-Nosso ou fazendo um dia de recolhimento espiritual em que haja ao menos uma meditação sobre São José; realizando qualquer obra de misericórdia corporal ou espiritual; oferecendo o trabalho à proteção de São José; rezando a Ladainha de São José, Akathistos (ao menos uma parte) ou qualquer oração litúrgica em favor da Igreja perseguida “ad intra” ou “ad extra”; fazendo qualquer oração aprovada pela Igreja a São José; no caso dos doentes e mais velhos, rezando a São José por todos os doentes e os agonizantes e oferecendo os próprios sofrimentos a Deus.

 
Entrevista: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e Bruno Luís Rodrigues

 
 
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