Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
Consumo de álcool aumenta riscos
29.11.2021
Há dados científicos que apontam riscos concretos entre o consumo de álcool e uma maior probabilidade de desenvolver certos tipos de cancro. Um estudo da Organização Mundial da Saúde, divulgado este verão, trouxe mais números, que embora careçam de aprofundamento, são mais um alerta a juntar aos anteriores.
 
Cerca de 741 mil casos de cancro diagnosticados em 2020 em todo o mundo poderão estar relacionados com o consumo de álcool. As conclusões são da Agência Internacional para a Pesquisa do Cancro (IARC), organismo da Organização Mundial da Saúde (OMS). E não é preciso ser um consumidor desregrado para existir um aumento do risco. Este cresce a partir da primeira bebida e não há risco zero. Dito isto, há, porém, uma relação crescente entre o risco e a quantidade de álcool ingerida; quanto maior a quantidade de álcool ingerida, maior o número de cancros associados.

O álcool é composto por etanol, uma substância carcinogénea presente em qualquer tipo de bebida, da cerveja ao vinho, passando pelas bebidas destiladas. São quatro os mecanismos que fazem com que o álcool atue como potenciador do cancro, de acordo com as explicações da OMS: o álcool é convertido (sobretudo no fígado, mas também na boca e no intestino) em acetaldeído, que danifica o ADN das células e impede a sua reparação. Por outro lado, o consumo de álcool altera os níveis de hormonas como o estrogénio ou a insulina, que são quem regula o crescimento e a divisão das células. A ingestão crónica de álcool pode induzir um stresse oxidativo, que danifica o ADN. Finalmente, o consumo de álcool pode originar uma diminuição do ácido fólico, o que pode levar a alterações do ADN.

Os dados agora divulgados, e publicados na revista científica The Lancet Oncology, indicam que cerca de 86% dos casos estão ligados a um padrão de “risco” ou de “consumo pesado”, isto é, um consumo de mais de duas bebidas alcoólicas por dia. No entanto, mesmo o consumo leve a moderado, de até duas bebidas por dia, também é perigoso. De acordo com o estudo, este padrão de consumo representa um em cada sete cancros atribuíveis ao álcool, o que representa mais de 100 mil do total dos 741 mil casos.

O consumo de álcool está associado a um risco acrescido de desenvolver concretamente sete tipos de cancro, já haviam demonstrado estudos científicos anteriores: da boca, da garganta, do esófago, do fígado, da laringe, colorretal e da mama. Juntos, estes tipos de cancro contribuíram para o diagnóstico de 6,3 milhões de casos e 3,3 milhões de mortes em 2020.

De acordo com os dados do estudo da IARC, os tipos de cancro associados ao consumo de álcool mais detetados foram o do esófago (190 mil casos), colorretal (160 mil casos), fígado (155 mil casos) e da mama (98 mil casos).

A região da Europa é a que apresenta o consumo mais elevado de álcool. E os números do nosso país não são irrelevantes. Entre 179 países analisados pelo organismo da OMS, Portugal está em 26.º lugar, com uma estimativa de 3500 cancros diagnosticados em 2020 poderem estar associados ao consumo de álcool, e, à semelhança do retrato mundial, com maior incidência nos homens (2700 casos) do que nas mulheres (880 casos). Na contabilização total dos países, 77% dos casos foram registados nos homens e 23% nas mulheres.

Os riscos associados ao consumo do álcool e ao desenvolvimento de alguns tipos de cancro estão estabelecidos por outros estudos, e os dados deste estudo alinham com os anteriores, no entanto, há dados que necessitam de ser aprofundados, reconhecem os autores. O estudo teve em consideração padrões de consumo de álcool de 2010, uma vez que estes tipos de cancro podem ter um hiato de dez anos entre o momento do risco e o momento do diagnóstico, o que significa que não teve em conta alterações desse padrão antes e depois de 2010. Por outro lado, 2020 foi o ano da pandemia, em que muitos diagnósticos poderão ter ficado por efetuar, o que se pode traduzir num número subestimado. O estudo não estabelece ainda a associação entre o consumo de álcool e outros elementos como o cigarro (o consumo moderado de álcool associado ao tabaco aumenta cinco vezes o risco de cancro) ou outras doenças (obesidade, hepatite ou fatores genéticos) que também podem estar na origem dos tipos de cancro. E, finalmente, o padrão utilizado foi o de consumo de álcool por país e região (que muitas vezes podem não mostrar a realidade exata e cuja fiabilidade varia de país para país), faltando mais dados individuais de padrões de consumo.

Independentemente de ser necessário continuar a aprofundar os estudos, tendo em conta as conclusões já existentes, os especialistas não têm dúvidas do fator de risco que o álcool constitui. Da mesma maneira, consideram que há um elevado número de mortes que poderiam ser evitáveis pelo não consumo de álcool. Mas estas conclusões, para a OMS, não estão suficientemente claras aos olhos do cidadão comum. No sítio da OMS, Carina Ferreira-Borges, do Centro Europeu para a Prevenção e Controlo de Doenças Não Comunicáveis, afirma que «atualmente, muitas pessoas da região da Europa não estão cientes de que o álcool está considerado como carcinogéneo do grupo 1, assim como o tabaco» e a OMS considera, por isso, que há muito a fazer ao nível dos preços das bebidas (mais elevados), da limitação do acesso ao álcool e da redução ou eliminação da publicidade a bebidas alcoólicas.