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Contra o instinto do instantâneo
15.03.2021
Dada a terceira vaga da pandemia que estamos a viver, não penso que precisemos de mais sacrifícios e penitências do que aqueles que temos vindo a fazer desde março do ano passado: isolamento, sobrecarga de trabalho, incertezas várias, desgaste psicológico e sofrimentos. Mas continuamos a precisar de conversão! E de que tipo?

Neste contexto de pandemia, todos compreendemos bem o que significa solidão, isolamento e a importância da cura. Mas curar significa também saber viver o tempo da convalescença, o tempo da quietude, por vezes da solidão e do isolamento, saber conviver com o silêncio.

É interessante que a prescrição do silêncio por parte de Jesus aparece várias vezes nos Evangelhos, sobretudo quando Jesus curou alguns doentes e expulsou espíritos malignos e impôs-lhes que não dissessem nada. Porque ser curado e não perceber as implicações dessa graça que recebemos é desperdiçar oportunidades de crescimento interior.

Vivemos num tempo em que parece que temos de saber tudo imediatamente, que tem de se publicar tudo nas redes sociais e até as coisas mais banais e irrelevantes… Esta abundância de comunicação será certamente sintoma de falta de interioridade; quando tudo é uma questão de extroversão, tudo tem de ser dito e mostrado, é porque falta interioridade.

Viver sempre de uma forma espetacular, sempre na ribalta, numa imagem ilusória de felicidade, é uma tentação muito forte e que deve ser corrigida para benefício de todos. A interioridade está tão presente nas palavras de Jesus: «Entra no teu quarto, fecha a porta e reza ao teu Pai ocultamente; e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á.» (Mt 6,6)

Muitas pessoas não conseguem fazer nada de verdadeiramente grande e importante nas suas vidas (amar e servir são porventura as maiores e mais importantes coisas nas nossas vidas) precisamente pela falta desta interioridade, pois vivem uma vida epidérmica e constantemente improvisada, feita apenas de primeiras impressões. De que nos serve toda uma exterioridade da vida se depois não tem consistência? Todo este mundo de hipercomunicação, de hiperconsumismo da vida, dos sentimentos, dos afetos, dos prazeres e até da vida espiritual é uma banalização do que somos realmente e para o qual este tempo de Quaresma pede a nossa conversão. Uma vida assim é como uma história curta e sem perspetiva de futuro porque baseada no instintivo e no instantâneo.

Somos convidados a viver na integralidade, isto é, a descobrir e aceitar que a solidão e a interioridade não só fazem parte da vida mas ajudam-nos a alcançar valores maiores. Para isso é preciso saber esperar, saber calar, saber elaborar interiormente o que é verdadeiramente importante. Para as decisões importantes na nossa vida precisamos de iniciar sempre de um processo interior, partindo do silêncio para chegar à compreensão da realidade de Deus e da vida que nos circunda. Contra a banalização de tudo impõe-se um caminho interior.

E a Mensagem do Papa Francisco para esta Quaresma aponta-nos verdadeiras pistas para este caminho: «O tempo da Quaresma é feito para ter esperança, para voltar a dirigir o nosso olhar para a paciência de Deus, que continua a cuidar da sua Criação, não obstante nós a maltratarmos com frequência. Na Quaresma, estejamos mais atentos a “dizer palavras de incentivo, que reconfortam, consolam, fortalecem, estimulam, em vez de palavras que humilham, angustiam, irritam, desprezam” (FT, 223). Cada etapa da vida é um tempo para crer, esperar e amar. Que este apelo a viver a Quaresma como percurso de conversão, oração e partilha dos nossos bens nos ajude a repassar, na nossa memória comunitária e pessoal, a fé que vem de Cristo vivo, a esperança animada pelo sopro do Espírito e o amor cuja fonte inexaurível é o coração misericordioso do Pai.»