Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
COP 26: entre a esperança e a (in)coerência
07.12.2021
A COP26, Cimeira do Clima das Nações Unidas, decorreu em Glasgow de 31 de outubro a 12 de novembro de 2021. O acordo, que deveria ter sido fechado dentro destas datas, saiu apenas um dia depois do fim, após grande pressão por parte do governo do Reino Unido. Fui uma das “sortudas” de poder participar nesta cimeira. Coloco “sortuda” entre aspas, porque considero que esta COP não foi de todo aquilo que nem eu, nem ninguém que trabalha diariamente estas temáticas, e que se esforça por “mudar pelo planeta, cuidando das pessoas”, esperava. Viajei longas horas com o sentimento de “esperança e inquietação”. Tinha a inquietação de um acordo que se afigura urgente e inadiável. Mantinha a esperança de que, dentro da sala das negociações, a humanidade se sobrepusesse à economia.

A falta de coerência por parte da organização (tudo foi servido em excesso de plástico ou em material totalmente descartável), dos participantes (que discutem algo tão premente como as alterações climáticas e o futuro do planeta – e consequentemente da humanidade –, mas que continuam a falhar algo tão simples como colocar o lixo nos recipientes apropriados, distribuídos abundantemente pelo recinto) e dos stands das várias nações presentes (com mostras de propostas para o futuro totalmente irrealistas – ao estilo de feira – e que nada tinham, na maior parte das vezes, que ver com os compromissos assumidos previamente pelos seus países), deixaram-me logo à partida mais inquieta do que esperançosa. Fomos auscultando vários participantes e várias organizações que eram uníssonas na opinião: o acordo que sairia de Glasgow ficaria muito aquém do que era urgente e necessário. Mitigação, adaptação, financiamento e justiça climática era tudo o que era necessário. Nada (e não, não exagero) foi conseguido. Das três nações que mais poluem, os presidentes estiveram ausentes da cimeira (China, Rússia e Brasil), dificultando ainda mais os compromissos urgentes.

Podemos resumir desta forma o acordo final: foi decidida a redução do uso de carvão ao invés da sua eliminação (urgente e necessária!); ao invés dos necessários 1,5°C necessários, a probabilidade é que fiquemos bem acima (entre os 2,0°C e 2,6°C); o financiamento climático aos países mais vulneráveis ficou muito aquém do necessário (uma vez mais, os países que menos poluem pagam a fatura mais alta, sendo que já ficam muitas dúvidas quanto à possibilidade de alcançar a meta inicial de 100 mil milhões de dólares). Fica a pergunta: haverá integridade na definição das regras para os mercados globais de carbono? Além de tudo o que não se alcançou nesta cimeira, ainda existiram «restrições sem precedentes no acesso às negociações colocadas às organizações da sociedade civil». Não era possível aceder aos negociadores, não era possível intervir e mostrar as preocupações com a justiça climática e os direitos humanos em geral. As centenas (se não milhares!) de manifestações que foram acontecendo pela cidade e, em particular, à porta da Blue Zone (zona das negociações) não foram escutadas por quem tinha o dever de o fazer. Ao invés disso, foram plenamente ignoradas.

E no final, o balanço será positivo? Temos um acordo que apenas serve os mais ricos, onde os países que menos contribuem para as alterações climáticas continuam a ser os mais vulneráveis e afetados, umas linhas escritas por decisores de todo o mundo em que a economia se sobrepôs uma vez mais à humanidade. Terá valido a pena? Ainda acredito que sim. O futuro faz-se caminhando e, enquanto se continuarem a sentar à mesma mesa os líderes mundiais, a esperança de um acordo que a todos sirva deve permanecer viva.