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COVID-19: Consequências para as famílias e profissionais de saúde
18.05.2020
Estamos a viver um pesadelo terrível de que não há memória nestes últimos tempos. Começamos mesmo a ficar saturados de tantas notícias e de imagens chocantes – que retratam o que se vai passando em Portugal e por esse mundo fora, num cenário de horrores que parece não ter fim. Apesar de tudo, o nosso país vai sobrevivendo, bem longe do que tem sucedido noutras nações, onde o panorama é ainda mais desolador.

Tenho-me interrogado mesmo como conseguimos chegar a estes resultados, se a prevenção nunca foi o nosso forte.
De facto, quando se perde a maior parte do tempo a pensar em indicadores, números e estatísticas – como tem acontecido nos últimos anos no setor da Saúde –, em vez de tratar doentes e ir ao encontro dos verdadeiros problemas (cuidados continuados, cuidados paliativos, campanhas preventivas, apoio à natalidade, entre outros), seria de temer agora o pior.

Mesmo assim, há muita coisa que não está a correr bem.
Temos corrido atrás do prejuízo, com insuficiências de toda a espécie, dificuldades no terreno, umas atrás das outras, sendo notórias falhas na planificação das operações para fazer face a uma pandemia tão devastadora.

Contudo, é de louvar a boa vontade, a dedicação e o empenho de todos os profissionais, tentando remar para o mesmo lado, e enaltecer, também, os apoios que o Serviço Nacional de Saúde tem tido de instituições privadas, particulares e demais organizações, o que que tem contribuído para que o número total de infetados e de vítimas mortais não seja ainda mais assustador. Deus seja louvado!

Poder-se-á perguntar – e é próprio do espírito humano interrogar-se acerca do futuro, daquilo que aí vem, do que vamos ser daqui a algum tempo – se conseguiremos sobreviver a este flagelo. Ninguém o sabe, nem ninguém o poderá prever. Uma coisa é certa: nada será como antigamente e nunca mais voltaremos ao ponto onde ficaram as nossas rotinas e a nossa maneira de viver no passado.

Concretamente, o que nos trouxe a COVID-19? Comecemos pelos profissionais de saúde, o pessoal da frente de combate nesta guerra contra um inimigo invisível. Quando se diz alto e bom som que uma grande percentagem dos infetados são os próprios profissionais de Saúde, é fácil concluir que eles não tiveram a proteção necessária e que alguma coisa falhou no plano, ao serem destacados para o teatro de operações.

Por tudo aquilo a que temos assistido, sente-se a falta de uma voz de comando, uma vez que são vários a emitir opiniões, que os pareceres são contraditórios e que as orientações nem sempre são as mais indicadas.

Daí, médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar andarem um pouco perdidos no terreno, arriscando a vida perante potenciais infetados, não olhando a meios para atingir um fim: salvar vidas. É precisamente aqui que se reconhece a falta de uma preparação bem delineada e na devida altura. Até por isso, estes profissionais da linha da frente merecem o nosso respeito, a nossa solidariedade e, acima de tudo, a nossa profunda gratidão.

A nível das famílias, este vírus demolidor conseguiu destruir rotinas, hábitos instalados e o seu modo de funcionar. Com o isolamento forçado, em jeito de "prisão domiciliária", os membros das famílias vão dando sinais de exaustão, vindo ao de cima, por vezes, mais aquilo que os divide do que aquilo que os deve unir.

Enquanto médico de família, tive ocasião de comprovar discussões, desentendimentos e algum mal-estar, que são normais no comportamento humano. Outras vezes, é a depressão a marcar presença pelas imagens chocantes que a televisão tem levado a casa de cada um; e o aumento dos pedidos de receituário de ansiolíticos (impossível de passar despercebido) é sinal de que as pessoas não estão bem.

Porém, excetuando o número de vítimas e de internamentos, a consequência mais catastrófica vai ser a nível económico, setor que irá afetar todas as famílias pelas ondas de choque resultantes do descalabro da economia. Os próximos tempos não serão nada fáceis, e é bom que estejamos preparados para os enfrentar.

Houve, contudo, um aspeto positivo que este isolamento forçado nos trouxe e que tem a ver com a amizade. Não houve ninguém que não telefonasse ou enviasse mensagens pelo telefone ou pelo e-mail aos amigos, mesmo aos mais distantes e (quem sabe?) esquecidos.

Uma dessas mensagens que me reencaminharam fala por si: «Obrigado Senhor pelos amigos que nos deste. Os amigos que nos fazem sentir amados, que têm o jeito especial de nos fazer sorrir, que nos aguentam quando o mundo parece um sítio incerto, que sabem tudo de nós, perguntando pouco, que discordam de nós permanecendo connosco, que perdoam antes das desculpas, que conhecem o segredo das pequenas coisas que nos deixam felizes. Obrigado Senhor por essas e esses, sem os quais o caminhar pela vida não seria o mesmo.» (Tolentino de Mendonça)

Resta-nos esperar por melhores dias com paciência e resignação. Aceitemos as imposições governamentais e não vejamos nelas um castigo mas antes uma orientação temporária para estes tempos difíceis. Cumprindo o que for determinado, estamos a contribuir para o bem comum e a defender-nos a nós próprios.

Oxalá tenhamos aprendido a lição, com este vendaval medonho que varreu o mundo; e a humanidade abra, então, os olhos a uma vida onde brilhe a luz da fraternidade, da paz e da esperança.

Neste mês de maio, peçamos à Mãe do Céu que olhe por nós e que interceda junto do Pai pelo fim desta pandemia destruidora. Portugal, terra de Santa Maria, acredita que não nos abandonarás.