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Covid-19: Enquanto o Mundo não olhava
08.03.2021
A maior pandemia dos últimos cem anos está a mudar muita coisa, e em alguns casos quase sem se dar por isso. Vários estados aproveitaram o facto de todas as atenções estarem concentradas na Covid-19 para fazerem coisas que, noutra altura, dificilmente se atreveriam a fazer e que dificilmente lhes seriam permitidas. O mapa político de várias regiões está assim a ser reconfigurado.
 
John F. Kennedy disse um dia que, «quando escrita em chinês, a palavra crise compõe-se de dois caracteres: um representa perigo e o outro representa oportunidade». Ora o Mundo vive uma das maiores crises desde a Segunda Guerra Mundial e há alguns países que decidiram testar o aforismo ao limite.
O exemplo mais claro é o da Turquia que, apesar de fazer parte da NATO, segue há anos uma política externa muito própria e antagonista dos interesses da aliança em variados aspetos. Depois de ter percebido que a porta da União Europeia está, no futuro previsível, permanentemente fechada para si, o governo de Ancara decidiu criar o seu próprio espaço de influência, ao ponto de já se falar da emergência de um novo Império Otomano.

Um dos símbolos maiores desse período histórico é a famosa Hagia Sofia, que começou por ser a catedral cristã de Constantinopla e foi transformada depois da queda da cidade nas mãos dos otomanos, em 1453, numa mesquita. Desde 1934 que é um museu, mas agora o governo islamita de Recep Tayyip Erdogan decidiu transformá-la novamente num templo islâmico. É uma atitude que diz mais sobre o que é a Turquia hoje do que centenas de discursos.
 
A aventura líbia
O presidente Erdogan aproveitou duas guerras civis, na Síria e na Líbia, para conquistar poder e influência na região. Se 2019 foi o ano de consolidar vantagens na Síria, com o lançamento de grandes ofensivas militares para lá da fronteira, 2020 foi o ano da Líbia.

Logo no início de janeiro, o parlamento turco aprovou uma intervenção militar para apoiar o Governo de Acordo Nacional (GNA), que estava em grandes dificuldades até aí. A Turquia enviou homens e grandes quantidades de armamento para apoiar o GNA, que assim conseguiu impor pesadas derrotas militares às forças do marechal Khalifa Haftar, que é apoiado pelo Egito, pelos Emirados Árabes Unidos, pela Rússia e pela França.

A intervenção turca foi de tal modo decisiva que as diferentes partes chegaram a um acordo de cessar-fogo permanente em outubro. Ancara foi recompensada com a assinatura de um vantajoso acordo de delimitação de fronteiras marítimas com a Líbia (o GNA é o governo reconhecido oficialmente pelas Nações Unidas) e certamente receberá futuras vantagens na exploração das enormes reservas de petróleo e gás natural existentes no país.
 
É o gás, senhores
A Turquia escolheu o mês de agosto do ano da pandemia para delimitar unilateralmente as suas fronteiras marítimas no Mediterrâneo Oriental. Para tal, enviou para a zona um navio de prospeção de hidrocarbonetos escoltado por vasos de guerra. Fê-lo sabendo que essas são águas também reclamadas pelo Chipre e pela Grécia, e que assim a sua atitude daria necessariamente origem a tensão diplomática e militar. Como deu.

Já irritada pela forma agressiva como os turcos impediram que um navio de carga suspeito de furar o embargo de armas à Líbia fosse vistoriado por uma das suas fragatas, a França juntou-se à Grécia para uma verdadeira aliança antiturca. Os presidentes turco e francês envolveram-se em várias trocas de acusações e insultos, com Erdogan a manifestar o seu desejo de que os franceses «se livrem de Emmanuel Macron o mais depressa possível», e este, por seu lado, a dizer que «o povo turco merece melhor» do que Erdogan.

O que está aqui em causa é a posse das enormes reservas de gás natural que existem no subsolo marinho da zona em disputa, muito embora haja sérias dúvidas sobre a viabilidade económica da sua exploração.

Mas pouco importa. Há prestígio a ganhar e a Turquia quer implementar a sua doutrina da «Pátria Azul», que implica um alargamento das áreas do Mediterrâneo sob o seu controlo. Além disso, os combustíveis fósseis ainda são sinónimo de poder, mesmo que a riqueza que proporcionam já não seja o que foi.
 
Uma vitória inesperada
Quer na Líbia quer no Mediterrâneo Oriental, a Turquia não conseguiu vitórias concludentes – até ver.
Onde isso parecia mesmo ter acontecido é no mais improvável dos locais, o enclave de Nagorno-Karabakh. Há cerca de 30 anos que arménios (cristãos) e azeris (muçulmanos) disputam a posse daquele território, que formalmente faz parte do Azerbaijão, mas que esteve sempre sob controlo da população arménia – até 2020.

Em setembro, os azeris lançaram uma ofensiva militar com grande apoio da Turquia, nomeadamente através do fornecimento prévio de aviões não-tripulados. Ao contrário do que tinha acontecido em combates anteriores, o Azerbaijão obteve uma vitória expressiva que lhe permitiu ocupar parte do enclave e obrigou a Arménia a assinar um acordo de cessar-fogo que reconhece essa derrota.

Isto só não é uma vitória total para a Turquia porque a Rússia, tradicional apoiante dos arménios, acabou por conseguir assumir o papel de fiador no negócio final, ao colocar as suas tropas no terreno para garantir a aplicação do cessar-fogo.

Em 2020, os jogos de alianças tiveram também uma importante evolução noutra região em conflito permanente desde a Segunda Guerra Mundial.
 
Novos amigos no Médio Oriente
Desde os acordos de Camp David, que fizeram a paz entre Israel e o Egito, que não se verificava uma mudança tão importante nas alianças no Médio Oriente como a que se viu em 2020. Tal como aconteceu em 1978, o agente impulsionador da mudança foi um presidente dos Estados Unidos.

Pouco empenhado em combater a pandemia de Covid-19, Donald Trump teve tempo e engenho para convencer Marrocos, Emirados Árabes Unidos e Barém a assinarem acordos de paz com os israelitas. É preciso não esquecer que, por causa da questão palestiniana, a maior parte do mundo árabe não tem – ou não tinha – relações normalizadas com Israel.

Estes acordos são, na prática, uma aliança contra o Irão, o inimigo comum de todos os estados envolvidos. Se ela contar com a adesão da Arábia Saudita, como parecia provável até à derrota de Trump nas presidenciais, então esse entendimento ganha uma dimensão muito mais importante, o que pode transformar de vez a região.

Para começar, os palestinianos podem ver-se abandonados de uma vez por todas pelo mundo árabe, com todas as consequências que daí advêm para o seu futuro e para a sua relação com Israel.
Contudo, muito pode ainda mudar, dependendo dos entendimentos que Joe Biden possa querer fazer com o Irão relativamente ao programa nuclear do estado xiita.
 
A China a ser a China
Houve ainda um outro desenvolvimento durante o período da pandemia que provavelmente não teria acontecido noutra altura – ou pelo menos não da forma tão repressiva como se deu. Falamos do esmagamento do movimento democrático de Hong Kong e da imposição do controlo do governo central de Pequim sobre a região.

Violando o espírito, senão mesmo a letra do acordo de transferência do território da soberania britânica para a chinesa, os dirigentes comunistas chineses impuseram o seu comando sobre o aparelho de segurança local e introduziram nova legislação que limita severamente as liberdades de expressão e associação que os habitantes de Hong Kong sempre usufruíram ao abrigo da lei inglesa, que é a matriz do sistema jurídico da cidade.

O movimento democrático tentou travar estas intenções com grandes manifestações, mas sem sucesso. Os seus líderes acabaram por ser presos e condenados, ou então tiveram de procurar o exílio.
Assim desapareceu, pelo menos por enquanto, a maior esperança de que a China pudesse vir a ter um verdadeiro movimento democratizador a nível nacional. Foi por ter consciência do risco que essa possibilidade representava para a sua própria sobrevivência que o Partido Comunista Chinês agiu em fidelidade aos seus velhos hábitos.