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Criatividade pastoral em tempos de quarentena
23.03.2020
Esta em quarentena não é sinónimo de estarmos parados, e no caso da vivência espiritual da Igreja, multiplicam-se um pouco por todo o mundo ideias e experiências que visam ajudar as pessoas a continuar na vivência da sua fé tão comunitária quanto estes tempos de isolamento o permitem.


Desde o anúncio da suspensão das missas comunitárias e das atividades paroquiais de uma forma geral que as dioceses e paróquias de todo o mundo têm procurado formas mais ou menos inovadoras de chegar aos seus fiéis. Desde logo, aproveitando as possibilidades tecnológicas hoje ao nosso dispor para levar até casa dos fiéis vários conteúdos de origem devocional.

A prioridade é a eucaristia. São várias as paróquias e os bispos que, diariamente ou semanalmente, celebram a Santa Missa no local onde estão em isolamento ou nas igrejas agora fechadas ao culto comunitário, um pouco por todo o país. Essa foi, desde logo uma indicação da Conferência Episcopal Portuguesa e do próprio Vaticano, já que o Papa Francisco foi dos primeiros a dar esse exemplo, com a sua missa diária em Santa Marta a ser transmitida pela internet, assim como a Audiência Geral das quartas-feiras ou a oração do Angelus.

Em Portugal, D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga, e D. Francisco Senra Coelho, arcebispo de Évora, anunciaram desde logo a celebração diária de eucaristia na internet, assim como o Santuário de Fátima, e muitos são os sacerdotes e dioceses que acompanham, ou todos os dias, ou aos domingos. A Agência Ecclesia tem uma lista publicada de todas as celebrações, que pode ser consultada aqui, e que vão atualizando.

Para além da eucaristia, outros sacerdotes, comunidades e organismos diocesanos, nomeadamente da pastoral juvenil, está a dinamizar novenas de oração, recitação do terço ou pequenas reflexões sobre o Evangelho do Dia, tudo na ótica de ajudar à reflexão.  Na paróquia da Penha de França, em Lisboa, há celebrações da Palavra, e na paróquia de Ílhavo partilham-se pequenas reflexões sobre o Evangelho do Dia. Ainda na Penha de França, e para fazer face ao facto de não haver mais ofertórios, pede-se a quem assistir à missa online que possa enviar o seu ofertório, se assim o desejar, por transferência bancária.



O bispo auxiliar de Braga, D. Nuno Almeida, iniciou uma série de catequeses para os mais novos, à sexta-feira, onde, de viola em punho, canta e ensina os mais novos. A primeira edição teve quase 1.500 visualizações no Youtube, e centenas acompanharam em direto.



Ainda em Portugal, o Corpo Nacional de Escutas (CNE) procura auxiliar os seus escuteiros a manterem-se ativos, apesar da suspensão das atividades semanais e acampamentos. Nesse sentido, criou o site www.escutismoemcasa.pt onde partilha várias ideias de atividades para os jovens fazerem, entre as quais se destacam a eucaristia e propostas de vivência da Quaresma com ações concretas.

Iniciativas fora da internet
Mas não são apenas iniciativas virtuais as que vemos a acontecer um pouco por todo o mundo. Em Braga, D. Jorge Ortiga pediu aos párocos que retomassem o tocar dos sinos das Trindades, uma velha tradição que estipulava, ao longo do dia, três momentos de oração marcados pelo soar dos sinos nas aldeias. Uma iniciativa que encontra similar em Espanha e Itália. Aqui ao nosso lado, uma decisão tornada pública pela Comissão Executiva da Conferência Episcopal Espanhola (CEE) indica que os sinos de todas as igrejas espanholas tocarão diariamente ao meio-dia, durante a quarentena, para «convidar aqueles que permanecem em casa a rezar e a levar, a quem serve e trabalha, a ajuda do Senhor e a gratidão da Igreja». «Nestes dias em que os cidadãos e a Igreja vivem uma experiência singular e dolorosa, à qual nos levou a pandemia de coronavírus, a Igreja Católica é chamada a oferecer os seus recursos em favor das pessoas atingidas, bem como a presença do Senhor que salva – lê-se na nota - para encorajar todos os cristãos a pedir a intercessão da Mãe de Deus, que nos proteja e escute nossas orações».

Em Itália, sucede o mesmo. Muitos párocos, de norte a sul, tocam os sinos das suas igrejas às 12h, 19h e às 21h todos os dias, chamando os fiéis à oração, sem que ninguém saia de casa, sem reunir ninguém, celebrando no espírito o Sacramento que foi subtraído ao corpo, apenas respondendo a um antigo sinal que a modernidade tinha deixado de lado, por causa do inevitável «incómodo» no descanso dominical.

Em Elvas, o Pe. Ricardo Lameiras procurou seguir o exemplo do Pe. Leonardo Ricotta que, em Itália, na impossibilidade das pessoas irem à eucaristia, percorreu com o Santíssimo as ruas da sua paróquia em procissão, isolado.


Em Elvas, e apesar da intenção do Pe. Ricardo Lameiras, que, citado pela rádio Elvas, afirmava que iria «percorrer [sozinho] as ruas da procissão e passar os vários passos, para aí rezar, para que o Senhor proteja a cidade de Elvas da pandemia, o quanto possível, e dê força a cada um dos elvenses». A intenção foi cumprida, embora tenha sido acompanhado por vários fiéis que se juntaram ao longo da procissão, formando um pequeno cortejo que contrariava a intenção do sacerdote e as indicações expressas da Conferência Episcopal Portuguesa.

Foto ©Rádio Elvas
Mas a criatividade chegou também à confissão. Numa altura em que as igrejas se fecham, a necessidade de reconciliação dos fiéis não diminui. Dos Estados Unidos da América e do Brasil chegam-nos uma ideia copiada dos estabelecimentos de comida que permitem abastecimento sem sair do carro. Assim, nas paróquias de Nossa Senhora da Saúde, no Brasil, e de Maryland, nos Estados Unidos da América, os párocos colocaram um percurso de automóvel na parte exterior da igreja e atendem em confissão sentados num banco, guardando a distância de segurança para quem se pretende confessar. «Como não posso garantir a vossa segurança física abrindo a igreja ou o escritório para os visitantes, criei um ‘confessionário drive thru’ e ouvirei confissões no estacionamento da paróquia para manter uma distância de um metro e meio enquanto os penitentes permanecem nos seus carros”, disse o Pe. Scott Holmer, que acrescentou que «nós, padres, temos de ser criativos e encontrar a melhor forma de levar Cristo às pessoas quando não o podemos fazer dentro das nossas igrejas», citado pelo New York Post.

Foto AFP (via Vatican News)
O Pe. Holmer acrescentou que vendará o rosto para aqueles que desejarem privacidade, além de contar com o seminarista Joseph McHenry para orientar o tráfego. «Isso está a tornar-se uma Quaresma como nenhuma outra», afirmou, defendendo que «acredito que o Senhor nos convida a uma crescente preocupação pelo bem-estar de nossos vizinhos e oferece-nos a oportunidade de fazer sacrifícios por eles».

No Brasil, o Pe. Rafael afirmou, na sua página de Facebook, que no dia 21 de março «passaram mais de 40 carros com pessoas para confessar, com muita prudência, amor, graça e perdão». Nessa paróquia também decorrem procissões com o Santíssimo pelas ruas, e o Pe. Rafael, ao anunciar, pede às pessoas que «fiquem em suas casas» e que, «quando Jesus passar apenas manifeste a sua adoração piscando as luzes da sua casa».

Tempos de pandemia e isolamento são tempos de reforço da criatividade pastoral dos pastores e de redescoberta de novas formas de vivência espiritual da parte dos fiéis.
 
Texto: Ricardo Perna
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