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Cuidar é cuidar-se
23.04.2019
A afirmação do Livro do Génesis «Não é bom que o homem esteja só» (2,18) contém a verdade essencial sobre o ser humano e sobre a vida humana. Estar com os outros faz do ser humano um ser em relação, logo, sozinho não pode viver.

A família está no centro da fundamental relacionalidade do ser humano, que é composta por três elementos: dedicação, tempo e cuidados. É na família que se experimenta o primeiro e fundamental cuidado: o recém-nascido só pode sobreviver se cuidarem dele. É na relação entre pais e filhos que se experimenta a dedicação e a responsabilidade quando se toma conta uns dos outros. É ainda na relação entre o casal que o tema dos cuidados emerge com todas as suas peculiaridades «na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, todos os dias da nossa vida». Por isso, cuidar é a trave-mestra sobre a qual se apoia o matrimónio, tanto religioso como civil.

Além do ponto de vista antropológico, também a nível social foram confiadas à família várias responsabilidades que têm que ver com o cuidado humano: a sobrevivência da espécie, a defesa do património, a regulação das relações sociais mais elementares. Neste sentido, a família dá um contributo preciosíssimo quando assume a responsabilidade de mediação entre o indivíduo e a sociedade.

Cuidar é uma forma de relação com o mundo, é proteger de um mal ou de alguém. Por isso, cuidar tem muitas aceções, e não se limita ao campo médico. Cuida-se educando e governando, cuida-se de si mesmo no corpo ou na alma, cuida-se dos animais e das plantas, do ambiente em geral, cuida-se das relações com os outros e com Deus, cuida-se dos bens e dos afetos. Mas cuidar dos outros é o sentido mais verdadeiro e importante da vida humana. De facto, o ser humano só se desenvolve e cresce na relação com os outros. Por isso, convém-nos que os outros estejam bem e possam cuidar de nós. Mas para que os outros estejam bem, também temos nós de cuidar deles.

Se o nosso bem-estar é a nossa prioridade, então não passamos de narcisistas e destruidores de verdadeiras relações. Mas se o bem-estar dos outros for a nossa primeira intenção, consequentemente o nosso estar bem virá a seguir. É como andar de bicicleta: se em vez de olhar para a estrada me puser a olhar para as rodas, rapidamente irei contra alguma coisa e espalho-me no chão. A roda só cumprirá bem a sua função se eu olhar para a estrada e não para a roda.

Hoje o maior mal não é tanto físico, mas espiritual. Muitas vezes o corpo adoece porque a alma está doente, pelo menos no Ocidente opulento, que é capaz de cuidar dos grandes males do corpo e esquece-se do espírito.

Uma das dimensões mais importantes dos cuidados é a capacidade de carregar a negatividade do sujeito doente, que é tarefa difícil e esgotante. Acolher os outros até nas suas negatividades sem nos deixarmos ferir ou contaminar só é possível dando um sentido a essa realidade convertendo-a, ou metabolizando-a, pela bondade. Não foi o que Jesus fez na Cruz? «Morrendo destruiu a morte, e ressuscitando restaurou a vida», rezamos no prefácio pascal. Santa Páscoa cuidadora para todos!