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D. José Ornelas: «A sociedade de hoje não se pode dar ao luxo de ter miséria»
01.06.2020
O bispo de Setúbal, D. José Ornelas, voltou a celebrar eucaristia na Sé com povo neste domingo de Pentecostes. Uma «emoção e alegria», conforme partilhou com os jornalistas no final da celebração que juntou cerca de 60 pessoas na Sé de Setúbal.


A Igreja não encheu, conforme aconteceu com muitas ao longo deste fim-de-semana, mas este regresso foi mais um «contributo» da Igreja à sociedade. «Um contributo que a Igreja pode dar à sociedade, é dizer “celebrámos, sim, convivemos, sim, mas convivemos com normas que nos permitem evitar que a nossa festa seja de luto para alguns”, isso não pode ser», declarou.

Na sua homilia, falou da «coincidência» de o retomar das celebrações comunitárias ter acontecido precisamente no Domingo de Pentecostes, em que se celebrar o início da Igreja. «No Pentecostes, de um grupo fechado, com tristeza e medo, Ele faz apóstolos corajosos, anunciadores de alegria e criadores de um mundo novo. Isso é o queremos que sejam sempre as nossas eucaristias», referiu. No final, aos jornalistas, deixou ainda uma palavra para quem se sente inseguro de regressar às celebrações comunitárias.


Apesar da alegria de voltar ao convívio nas celebrações, D. José Ornelas mostrou-se preocupado com o aumento das «carências de muitas famílias», e pediu que «abramos as portas para sair», e por isso lançou uma campanha de solidariedade a partir de cada paróquia da sua diocese, para fazer face ao desafio crescente das pessoas em dificuldade». «Vamos respeitar o distanciamento profilático, mas é também necessário tornar-se próximo de quem mais precisa. Que ninguém fique para trás, que ninguém fique esquecido por falta da nossa colaboração e generosidade», disse.

No final da eucaristia, mostrou-se preocupado com o alastramento do vírus na zona do Seixal, onde as pessoas vivem em bairros de lata. «A sociedade de hoje não se pode dar ao luxo de ter miséria, porque essa miséria vai-nos cair em cima!», criticou, avisando que «a miséria não compensa, porque o vírus é democrático e vai atingir a todos, começando, claro, pelos que estão mais fragilizados».


O Bairro da Jamaica, no Seixal, tem sido um dos focos mais ativos da pandemia, em virtude de muitas pessoas viverem em casas sem condições mínimas. D. José Ornelas afirmou que «uma habitação digna é fundamental, não é uma teoria», e que «a pandemia veio-nos mostrar que a sociedade, se não for justa, não pode ser ecológica, solidária ou feliz».

O prelado não compreende como é que o «nosso país» tem «tanta gente a viver em barracas». «É preciso transformar o bairro. Que seja uma lição para construirmos uma sociedade mais justa e solidária. A responsabilidade não é toda do Estado, não se resolve com a estatização das coisas, mas sim pondo toda a gente a lutar pelo mesmo», defendeu.
 
Texto, Fotos e Vídeo: Ricardo Perna
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