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Demasiadas notas…
03.01.2022
No filme Amadeus há uma cena em que o imperador felicita Mozart pela sua nova composição musical, mas ao mesmo tempo está à procura de palavras para apontar algum defeito ao que tinha ouvido. Diante desta atitude, Mozart pressiona-o para que lhe apresente as razões da sua deceção imperial, ao que o imperador respondeu gaguejando: «Tem demasiadas notas. Corte apenas algumas e vai ver que fica melhor». E Mozart, na sua surpresa e indignação, diz que a composição tem as notas que deveria ter, mas para agradar a sua alteza imperial pergunta-lhe quais notas pensa que ele deva retirar? O imperador sem saber o que dizer (afinal não percebia tanto do assunto), fica simplesmente perdido no silêncio.

Na verdade, o imperador não pode responder porque a sua intervenção não tinha o interesse de oferecer uma crítica construtiva, mas apenas de apontar os defeitos. Infelizmente esta atitude encontramo-la com demasiada frequência, em nós e nos outros. Na origem parece estar quase sempre inveja ou a pretensão de ter opinião sobre tudo (falta de humildade).

Na generalidade, o comportamento de quem se deixa guiar pela inveja ou pelo constante apontar dos defeitos dos outros tem características comuns: ser demasiado competitivo e tudo fazer para estar à frente dos outros; raramente fazer elogios; sentir prazer em criticar; desvalorizar as conquistas dos outros para exaltar somente as suas; não demonstrar felicidade com o bem ou sucesso dos outros.

Neste filme, o drama anda à volta da inveja que Salieri (compositor oficial da corte do imperador José II da Áustria) tem dos dons e talentos musicais de Mozart. Salieri deixa-se consumir por esta inveja e atribui a Deus a culpa de tão grande sofrimento, pois queria possuir o mesmo talento daquele génio. O imperador, perdido no seu egocentrismo e bajulado por aqueles que à sua volta lhe dão razão em tudo, julga-se num patamar acima de tudo e de todos, pelo que o que quer que diga se torna lei. E Mozart, cujo único interesse é partilhar com alegria os dons que Deus lhe deu, acaba por não perceber, na sua ingenuidade artística, que é vítima da inveja e da arrogância dos outros.

O Papa Francisco, na oração do Angelus, sempre tão lucidamente alerta: «Muitas vezes, todos sabemos, é mais fácil ou cómodo ver e condenar os defeitos e os pecados alheios, sem conseguir ver os próprios com a mesma lucidez. Escondemos sempre os nossos defeitos, inclusive de nós mesmos; mas é fácil ver os defeitos alheios. A tentação é sermos indulgentes connosco — benevolente consigo mesmo — e duros com os outros. É útil ajudar o próximo com conselhos sábios, mas quando observamos e corrigimos os defeitos do nosso próximo, devemos estar cientes de que também nós temos defeitos. Se penso que não os tenho, não posso condenar nem corrigir os outros. Todos temos defeitos: todos. Devemos estar cientes disto e, antes de condenar os outros, devemos olhar para dentro de nós mesmos. Assim podemos agir de modo credível, com humildade, testemunhando a caridade. […] Quem é bom extrai do seu coração e da sua boca o bem, quem é mau extrai o mal, praticando o exercício mais deletério entre nós, a murmuração, o mexerico, falar mal dos outros. Isto destrói: destrói a família, a escola, o lugar de trabalho, o bairro. Pela língua começam as guerras. Pensemos um momento neste ensinamento de Jesus e façamo-nos uma pergunta: eu falo mal dos outros? Procuro manchar os outros? Para mim é mais fácil ver os defeitos dos outros que os meus? Procuremos corrigir-nos pelo menos um pouco: far-nos-á bem a todos.» (03-03-2019)

Então, para este novo ano, poderíamos fazer o propósito de não tanto procurar os defeitos, mas de descobrir a beleza da realidade à nossa volta!

Porque vou para uma nova missão, desejo agradecer a todos os assinantes e colaboradores que ao longo destes anos ajudaram a fazer da FAMÍLIA CRISTÃ uma presença amiga nas famílias e uma inspiração na sociedade. Que Deus nos continue a abençoar a todos!