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Devolver sorrisos e dignidade a quem perdeu tudo
20.06.2018
Fogem de perseguições étnicas, religiosas, de mutilação genital, de violência ou de pobreza extrema. Enfrentam as montanhas, os contrabandistas, a exploração sexual e laboral, abusos de toda a espécie. E são crianças. De toda a parte do mundo onde há conflitos, sabemos que as crianças são dos grupos mais vulneráveis. Mas nunca pensamos em como será a sua vida.


À Casa da Criança Refugiada (CACR), em Lisboa, chegaram, nestes quase seis anos de funcionamento, mais de 200 crianças e jovens não acompanhados à procura de refúgio. Vêm de todas as partes do mundo, mas com mais incidência de África e do Médio Oriente. Dora Estoura é a responsável da casa e está lá desde o início do projeto. «Esta casa foi criada faz seis anos em outubro por iniciativa do então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, que já nos tinha, nos seus tempos de ministro da Administração Interna, desafiado para acolhermos os menores não acompanhados que solicitavam proteção internacional a Portugal. Quando foi presidente da câmara, a nossa presidente da associação devolveu-lhe o desafio e pediu-lhe ajuda para podermos efetivamente fazê-lo condignamente, e então ele cedeu este espaço devoluto pertencente à câmara, e facilitou o contacto com outros parceiros, nomeadamente a Swatch, a Fundação Luís Figo, a SIC Esperança, a JC Decaux, o BPI, e outros parceiros que, juntos, permitiram a reconstrução do espaço e a adaptação para poder ser a casa dos menores que chegavam a pedir asilo a Portugal», conta esta responsável.

O espaço apenas acolhe menores que chegam ao país não acompanhados, sem família ou qualquer tipo de tutor, transportados por redes de traficantes ou fugindo dessas mesmas redes. «São jovens que fogem clandestinamente dos seus países, através de redes que às vezes facilitam a transição de um país para o outro, e outras vezes apanham-nos e exploram-nos entretanto. Um dos riscos bastante sério é precisamente o facto de recorrerem a pessoas que não sabem se os vão levar para segurança ou não. E por isso temos de, à chegada, estar atentos a sinais que possam indicar se estão a ser vítimas de tráfico ou não para podermos acionar os mecanismos necessários com as entidades que tratam disto. Vêm por várias formas – aérea, terrestre ou marítima –, cada um traz a sua história, o seu percurso, e chegados a Portugal, junto das autoridades, pedem proteção. Sendo menores, à partida não têm poder legal para formalizar. O SEF encaminha-nos estes menores e participa o caso ao Ministério Público, que depois nos nomeia seus representantes legais, e nós confirmamos este ato de pedido de asilo, para que seja legal», explica Dora Estoura.


Desde o seu início, já acolheram mais de 200 crianças e jovens, «dos zero aos 19 anos». «Já tivemos dois bebés que nasceram enquanto as mães estavam na casa, foram jovens que já chegaram grávidas a Portugal, e tiveram os seus filhos cá. Um deles até nasceu no Dia Mundial do Refugiado, por sinal, e são bebés cuja primeira casa foi esta», conta.

O passo final no processo de autonomização é a procura de emprego e reinserção na sociedade, com ou sem apoio da casa. Mas antes é preciso fazer o mais básico, que é recuperar a dignidade destes jovens que chegam, muitos deles, totalmente destruídos. «Aqui o nosso trabalho consiste em transmitir-lhes segurança. Eles residem aqui, estão aqui acolhidos, mas é um centro aberto e trabalhamos para os integrar em Portugal e trabalhamo-los para a autonomia. Depois de se sentirem seguros, tentamos trabalhar a vinculação deles, porque uma das maiores lições que estes jovens aprenderam era a de que não podiam confiar em ninguém. Estamos a falar de jovens e crianças, e temos de voltar a transmitir que afinal podem acreditar no ser humano, que podem confiar, e gradualmente criar laços que lhes possam servir de referência a encontrarem mais tarde redes de relação lá fora, que os ajudem a sentir-se mais parte desta sociedade que os acolhe», diz a responsável pela CACR.

Esta é a parte essencial do trabalho, que prepara tudo o que se segue a partir daí, que visa a sua integração na sociedade. «Ou aqui lhes proporcionamos um ambiente de segurança, que lhes permita voltar a acreditar nos outros seres e confiar e começar a criar laços para perceberem que afinal podem voltar a uma certa estabilidade que em tempos tiveram, ou facilmente os perdemos e vão ser alguém perdido na sociedade. Este trabalho de poder ajudá-los a se reencontrarem, a se redescobrirem, é essencial porque a pessoa que eram já não a são», sustenta.



Pode ler a reportagem completa na edição de junho da revista Família Cristã.
 
Texto: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e ACHNUR

 
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