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Diáconos assumem paróquias no Algarve
24.02.2021
São 12h00 e entramos na igreja de Martinlongo, diocese do Algarve. O espaço está gelado, em virtude das temperaturas de 2ºC que se fazem sentir naquela hora na serra algarvia, mas isso não afasta os fiéis, que se vão sentando, enquanto aguardam o início da celebração. Quem entra para presidir não é um sacerdote, mas sim um diácono permanente. Albino Martins, de 57 anos, diácono permanente, preside à celebração da palavra, como tem feito há mais de 11 anos, desde que foi ordenado diácono permanente.


Mas a novidade não está na presidência da celebração dominical, mas sim no facto de ser, há 30 anos, o responsável máximo de várias paróquias no Algarve. «Vai para 31 anos que o D. Manuel Madureira, então bispo do Algarve, agora emérito, me fez o desafio para que eu, com a minha esposa, pudéssemos fazer uma experiência de missão naquela freguesia.» Albino e Cláudia nem eram casados na altura, ele com 26 anos e ela 19, mas «apressaram» o namoro, casaram-se e mudaram-se para a paróquia de Cachopo, vindos de Vila Real de Santo António, para abraçar esta missão de presidir à comunidade, no lugar em que habitualmente vemos um sacerdote. «O que o bispo pretendia é que nós fôssemos presença de Igreja naquela freguesia no sentido de atender as pessoas, estar próximos das pessoas, a Igreja estar próxima das pessoas, organizar a catequese paroquial, e no fundo organizar toda a vida comunitária», conta o diácono Albino.

Como sucede em muitos lugares, em que os sacerdotes se limitam à celebração dos sacramentos, em virtude das muitas paróquias que acumulam, também ali o sacerdote era o responsável no papel, mas não na prática. E assim foi até há cerca de 11 anos, quando a diocese avançou para uma nomeação canónica de uma equipa constituída pelo casal Albino e Cláudia e um sacerdote, situação que se mantém até hoje. Ao sacerdote cabe a celebração dos sacramentos, ao casal a gestão de toda a paróquia.

Este ano, repete-se a experiência com uma nova nomeação de um casal, desta vez para a paróquia de Odiáxere. «Em agosto do ano passado, o Pe. Domingos aparece em nossa casa a dizer que o sacerdote que estava nesta paróquia tinha ido embora e que a comunidade de sacerdotes em Lagos estava mais reduzida e se eu tinha hipótese de assumir a paróquia, se eu mantinha essa disponibilidade, e eu disse que sim, e cá estamos», conta-nos o diácono Nuno Francisco, sentado no cartório da igreja de Odiáxere, paróquia pela qual é responsável, em conjunto com a sua esposa, apoiado por uma comunidade de sacerdotes jesuítas. «Como canonicamente não podemos ser nomeados sozinhos, somos nomeados em conjunto com os três sacerdotes, um moderador, dois párocos in solidum, mas no fundo a gestão da vida da paróquia é nossa», indica.

Este novo modelo de organização pastoral é, no entender de D. Manuel Quintas, bispo do Algarve, um «sinal» de Deus. «Surgiu como uma necessidade, naquela altura e agora, mas Deus também nos fala através destas necessidades e destes sinais, que devemos acolher e interpretar como um modo novo de servir as nossas comunidades cristãs nos dias de hoje», refere o prelado, que aponta uma «conceção de Igreja baseada nos ministérios». «Não uma Igreja clerical, nem uma Igreja laical, mas uma Igreja ministerial, onde cabemos todos e onde cabem todos os ministérios», sustenta.

D. Manuel Quintas, bispo do Algarve
Para o Pe. Miguel Almeida, provincial dos jesuítas, «a falta de padres pode ser uma ocasião para repensarmos e nos abrirmos ao Espírito». «Esta falta leva-nos a colocar uma questão que, no nosso entender, é uma Igreja mais em consonância com o Concílio Vaticano II, que pede uma participação muito mais plena, ativa e efetiva dos leigos. Parece-me que há aqui um sonho com essa Igreja mais participativa, não tão dependente do clero e do sacerdote para tudo, em que a própria organização e cura pastoral possam ter uma participação mais ativa da própria comunidade», defende o sacerdote.

Apesar de parecer um modelo muito diferente do habitual, é possível ir à serra algarvia e perceber a mais-valia que tem sido para as comunidades. O diácono Albino Martins e a esposa presidem hoje em dia não apenas a Cachopo, a paróquia onde tudo começou, mas também a Martinlongo, Vaqueiros, Giões, Pereiro e Alcoutim. «Não é uma tarefa fácil», diz, mas o tempo mostra que tem sido rica em termos pastorais. «Em relação à vida da comunidade, não há uma exigência que seja o padre a presidir. Às vezes, por uma questão de dificuldade do senhor padre, ele pede se podemos trocar as missas, e as comunidades aceitam muito bem essas trocas», conta o diácono Albino.

Recorda ainda que «há hoje jovens que iniciaram connosco a catequese há 30 anos e que fazem questão que seja eu a presidir ao matrimónio ou ao batismo dos filhos». «É interessante, porque me pedem que seja mesmo eu a ir, porque têm uma relação muito mais próxima comigo, fazem questão», conta, emocionado. Esta relação de proximidade, recorda, já lhe permitiu também acudir a duas situações de pessoas que pensavam no suicídio e que mudaram de ideias através de um acompanhamento e de conversas com o diácono Albino. «Já me aconteceu duas situações de pessoas que pensavam o suicídio e que falaram comigo. Só o facto de salvar uma vida já valeu a pena estes 30 anos, e repetia outros 30 anos se fosse preciso para salvar outra vida, porque era meu dever enquanto cristão», sustenta.

Diácono Albino Martins à porta da igreja de Martinlongo, uma das comunidades que está a seu cargo
Cá em baixo, em Odiáxere, o diácono Nuno Francisco e a esposa assumiram a paróquia num tempo de pandemia e limitações, mas isso não impediu de serem «muito bem recebidos». O maior desafio, consideram, é a questão «relacional». «Acho que é muito a questão relacional, conseguir chegar a toda a gente, perceber o que é que aquela pessoa pretende, quer, e o que lhe podemos dar, acho que é por aí», explica, enquanto defende que este é um modelo que pode vingar mesmo onde existam sacerdotes. «Não sabemos se voltaremos a ter a quantidade de padres que temos, mas mesmo tendo pode ser uma solução. Um membro da paróquia dizia-me há tempos: “Sabes, vinha muito pouca gente à missa e agora pelo facto de ser um diácono, que tem família e filhos, isso está a chamar as pessoas.” Por isso, pode ser uma solução», defende.

O diácono Albino concorda. «Acho que há um grande esforço na vida das comunidades para que também leigos tenham essas responsabilidades. O bispo tem, nas cartas que dirige ao presbitério e aos diáconos, feito o desafio para que haja responsabilidades partilhadas, para que os sacerdotes desenvolvam a sua atividade naquilo que lhes é específico, porque por vezes se dispersam por coisas que outros podem fazer, e em alguns sítios melhor que o sacerdote. Sem tirar mérito aos sacerdotes, há coisas para as quais não têm aptidão, como acontece aos diáconos ou aos leigos. Este tipo de atividades que possa passar por uma partilha de responsabilidades, acho que a Igreja tem muito a ganhar com isso», afirma.

Diácono Nuno Francisco na "sua" igreja de Odiáxere

O desafio da sustentabilidade financeira
Assumir a gestão do dia a dia da paróquia implica uma disponibilidade que não é fácil de manter em regime de voluntariado. No caso do diácono Albino e da esposa, há 30 anos que prestam serviço nos equipamentos sociais das paróquias das quais estão encarregados, e assim conseguem garantir o seu sustento, por via do vencimento que provém desse trabalho. Mas o diácono Nuno e a esposa ainda mantêm, para já, os seus trabalhos, optando por um serviço voluntário em Odiáxere, que limita o seu raio de ação. O bispo do Algarve defende que «a paróquia tem de apoiar a esse nível, e se a paróquia não conseguir, entra a diocese». «Porque eles têm filhos, têm despesas, e, portanto, estamos atentos a isso, às necessidades que haja e possam aparecer», afirma à FAMÍLIA CRISTÃ. O Pe. Miguel Almeida considera que, «se alguém tiver de abdicar de um emprego para estar à frente de uma comunidade, o ideal seria que a própria comunidade sustentasse essa pessoa». «A nível financeiro, de sustentabilidade financeira de uma família, terá de ser posto em questão, não sei se já, se quando começar a ser uma prática mais comum, pois essas questões surgirão.»

O Pe. Miguel Almeida é o provincial dos Jesuítas em Portugal

Nota: Este artigo foi originalmente publicado na edição de fevereiro de 2021 da revista Família Cristã.
 
Texto: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e Samuel Mendonça | Folha de Domingo
 
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