Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
Discípulos missionários
17.10.2016
A Bula Misericordiae vultus, pela qual o Papa Francisco anunciou o Ano Santo da Misericórdia, afirma, no n.º 12, que a Igreja «tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho». Esta referência ao anúncio da misericórdia como missão primordial da Igreja marca a mensagem do Santo Padre para o Dia Mundial das Missões, que se celebra em outubro pela nonagésima vez, tendo sido instituído pela Pontifícia Obra da Propagação da Fé e aprovado pelo Papa Pio XI, e que tem como tema «Igreja missionária, testemunha de misericórdia».
Como vem sendo prática ao longo deste ano, os dias comemorativos da Igreja são lidos na perspetiva do Jubileu extraordinário que vivemos. Trata-se, porém, não de reiterar o mesmo discurso, mas de ler toda a dinâmica e vivência da Igreja através do olhar singular de Jesus Cristo que nos apresentou Deus como o Pai rico em misericórdia. É esta a mensagem que permite ler com olhos novos todas as coisas e cujo alcance ultrapassa as barreiras do tempo permanecendo para lá do Ano Jubilar, porque está no coração do anúncio cristão, como tonalidade que sobressai no primeiro contacto e em todos os encontros na ação missionária eclesial.
 
Afirma o Papa Francisco, na mensagem deste ano, que «a primeira comunidade que, no meio da humanidade, vive a misericórdia de Cristo é a Igreja: sempre sente sobre si o olhar d’Ele que a escolhe com amor misericordioso e, deste amor, ela deduz o estilo do seu mandato, vive dele e dá-O a conhecer aos povos num diálogo respeitoso por cada cultura e convicção religiosa». Não é de mais recordar que compete a todos os batizados a responsabilidade de anunciar e transmitir o Evangelho de Cristo, de forma especial a dimensão da misericórdia do amor de Deus, independentemente do grau de formação da própria fé, na certeza de que essa realidade passa, em primeiro lugar, por uma experiência pessoal do amor de Deus: «Se uma pessoa experimentou verdadeiramente o amor de Deus que o salva, não precisa de muito tempo de preparação para sair a anunciá-lo, não pode esperar que lhe deem muitas lições ou longas instruções. Cada cristão é missionário na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus; não digamos mais que somos “discípulos” e “missionários”, mas sempre que somos “discípulos missionários”.» (Evangelii gaudium, n.º 120) É a realidade experimentada por São Paulo que, logo após o encontro com Jesus Cristo, se dispôs a anunciá-l’O, reconhecido por tamanha graça da sua misericórdia: «Ele nos consola em toda a nossa tribulação, para que também nós possamos consolar aqueles que estão em qualquer tribulação, mediante a consolação que nós mesmos recebemos de Deus.» (2Cor 1,4)
 
A Igreja será mais credível e capaz de maior êxito na pregação que deve chegar a «todos os cantos da Terra, até alcançar toda a mulher, homem, idoso, jovem e criança», se deixar prevalecer essa dimensão do amor de Deus no primeiro momento da pregação e na aproximação aos seus destinatários, deixando para segundo plano a sua organização e estruturação, fundamentais, sem dúvida, para que se articule na realidade social em que se insere, mas privilegiando a vivência das obras de misericórdia, na busca da unidade entre as Igrejas e na aproximação das diferentes religiões, «a fim de que o mundo acredite» (Jo 17,21).