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Dor, compaixão e solidariedade
26.09.2022
«O mundo vai continuar a ser o que não era.» A frase a letras garrafais, todas diferentes umas das outras, verdes e gigantes, num outdoor na parede de um prédio, interpelam-me de cada vez que as vejo. Habituada estou a ver o mesmo escrito e dito de outras formas: “Isto não é como antigamente” ou “No meu tempo é que era”. Mas estas formas remetem para um tempo antigo melhor do que o atual e nem sempre é assim. Esta forma mostra que o presente e o futuro serão o que o passado não foi. E isso não é necessariamente mau, nem mostra que será pior.

No momento em que escrevo estas linhas, o meu coração condói-se com as histórias que vão sendo tornadas públicas de abusos sexuais de crianças e jovens por parte de padres e outros membros da Igreja. Parece que se abriu a caixa de Pandora e começa a sair tudo ao mesmo tempo. Somos inundados pelas notícias. O que aconteceu há 50 anos misturado com casos de 2020…

Uma avalanche de dor. Sinto compaixão pelas vítimas, que sofreram abusos, cresceram mantendo estas dores em silêncio… Sinto vergonha e dor por pessoas que deviam dar o exemplo e mostrar o rosto de Cristo, sejam padres ou leigos, cometerem este tipo de violências e crimes. Eu, Igreja, sinto tristeza ao saber que irmãos meus sofreram e cometeram abusos. Um pecado cometido por um membro infeta toda a Igreja, ensinam-nos. E é verdade, se nos sentimos e somos profundamente Igreja…
Ao mesmo tempo, penso em todos os sacerdotes santos e intimamente bons que estão sob suspeita. Felizmente, conheço muitos destes que sempre deram os seus dons, o seu tempo, o seu trabalho, a sua vida, ao serviço daquilo que Deus lhes pedia, da Igreja e dos outros. Também estes estão sob este manto de suspeição. Não são todos abusadores! Que efeito tem isto neles? Como gerem estas situações, muitos deles sozinhos? Há dias um dizia-me que tem medo e pensa várias vezes antes de falar, encontrar-se com pessoas ou enviar mensagens.

Não quero com isto dizer que era melhor não se saber dos casos. Não! É bom que se saiba o que aconteceu para evitar que se repita. É importante que as vítimas sejam ouvidas e acolhidas. É essencial que os padres ou bispos sob suspeita se possam defender e ser acompanhados. Mas também é importante que, como sociedade e Igreja, estejamos preparados para acolher todos e ajudar e apoiar todos. Caminhar juntos, como nos propõe o Papa neste caminho sinodal, também é preciso aqui. E todos podemos estar envolvidos, mesmo não conhecendo vítimas ou abusadores. Podemos e devemos mostrar proximidade aos nossos sacerdotes, demonstrar que podem contar connosco, que não estão sozinhos.

Vivemos uma tempestade na Igreja em Portugal. Depois da tempestade vem a bonança, mas quando estamos dentro dela temos/tenho dificuldade, muitas vezes, em acreditar que virá o bom tempo. Quantas vezes nos falta a esperança? A frase com que comecei este artigo traz-me esperança. O mundo vai continuar a mudar. As pessoas também. Mas há mudanças que somos impulsionados a fazer e que são o que devemos fazer para sermos melhores pessoas, melhores sociedades e um mundo melhor e mais humano no verdadeiro sentido da palavra.