Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
E o Santuário voltou a encher-se em nome de Maria
13.05.2022
Santuário de Fátima, 2022. Depois de, em 2019, terem enchido o recinto do Santuário, não mais os peregrinos puderam regressar livremente ao 13 de maio, em virtude da pandemia. Até ontem. Na noite das Velas, 200 mil peregrinos regressaram ao Santuário, muito deles depois de dias a pé a peregrinar. E hoje, na missa conclusiva, 170 mil peregrinos voltaram a encher o recinto.

 
À chegada ao Santuário, o riso misturado de choro mostrava a alegria da superação pessoal. Depois dos abraços de grupos, emocionados e cobertos de lágrimas, a chamada para os entes queridos que aguardavam e acompanhavam. «Cheguei», «chegámos agora», era possível um pouco por todo o recinto do Santuário, em vozes embargadas pela emoção.
 
De noite, a multidão que saiu do emprego e rumou ao Santuário juntou-se aos milhares de peregrinos a pé e formaram uma moldura humana que esgotou quase por completo o espaço da esplanada do recinto. Sem distanciamento, mas com algumas máscaras que, aqui e ali, cumpriam o pedido feito pelo Santuário de responsabilidade e bom senso pelo facto de, mesmo sem restrições, a pandemia ainda não ter chegado ao fim.
 
À recitação do Terço seguiu-se a Procissão das Velas, que retomou o seu percurso original, saindo da Capelinha das Aparições e contornando todo o recinto, na direção do altar do recinto, onde D. Edgar Peña Parra, presidente da Peregrinação, presidiu à Celebração da Palavra, uma alteração que veio com a pandemia e acabou por ficar, substituindo a habitual eucaristia que se realizava ao final da noite.
 
Na homilia, o arcebispo substituto da Secretaria de Estado do Vaticano denunciou a «violência atroz e bárbara da guerra», na Ucrânia e outros países. «Em cima da mesa do nosso mundo, no banquete da humanidade, falta o vinho da fraternidade e da paz, enquanto os egoísmos e os rancores explodem com frequência, como, neste nosso tempo, na violência atroz e bárbara da guerra, onde não há, nem vencedores, nem vencidos, mas apenas lágrimas», referiu.
 
O diplomata da Santa Sé citou o Papa Francisco para evocar as «vítimas da guerra que destrói não apenas a Ucrânia», mas «todos os povos envolvidos na guerra».

 
A noite continuou com adoração e oração, e a manhã começou com mais uma romaria até ao Santuário. Dezenas de milhares de peregrinos (esta manhã sem números oficiais da parte do Santuário) com a mesma vontade de oração à Senhora de Fátima.
 
D. Edgar Peña Parra presidiu também, como habitual, à celebração conclusiva da Peregrinação Aniversária de maio. Na sua homilia, elogiou Maria por ter sido «bem-aventurada na fé». «Mais feliz do que a pessoa que acolhe a vida física, é quem acolhe no seu íntimo a Palavra divina; mais feliz do que a pessoa que nutre um corpo, é quem dá corpo à Palavra, pondo-a em prática. Ora, se quisermos ver realizada a passagem da carne à fé, não há nada melhor do que contemplar Maria», explicou D. Edgar Peña Parra.
 
Por isso, questionou o prelado, «perguntemo-nos se a bem-aventurança mariana da fé nos toca e deixemo-nos provocar pelas palavras de Jesus, que declara felizes todos os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática».
 
Escutar e pôr em prática foram os dois momentos destacados pelo Substituto da Secretaria de Estado da Santa Sé. «Por que será assim tão importante a escuta? Porque afirma a primazia de Deus e da sua Palavra sobre nós e as nossas obras», sustenta o arcebispo. Porque corremos o risco de um «ativismo estéril, que não deixa o primado a Deus, à oração, à contemplação», é importante a escuta, «feita de silêncio que abre o coração», porque «ajuda a acalmar ressentimentos e rancores e reencontrar o caminho da paz».
 
Por isso, apelou ao diálogo e à escuta, nas relações pessoais e comunitárias, para se chegar a uma «paz estável». «Mesmo a nível internacional, pensemos como seria importante escutar as razões do outro e dar prioridade ao diálogo e à negociação, os únicos caminhos para a paz estável e duradoura, em vez de empreender ações inspiradas pela busca gananciosa e apressada dos próprios interesses», disse, perante os milhares de peregrinos que acorreram à Cova da Iria.

 
Mas a escuta tem de ter uma consequência prática na vida de cada um. «A fé de Maria não se limita a uma escuta acolhedora, mas torna-se vida prática: zelo na caridade, testemunho concreto, perseverança», e também a Mensagem de Fátima tem de ter esse efeito. «Queridos irmãos e irmãs, estar aqui no 13 de maio significa também desejar que a mensagem de Fátima não seja apenas algo relevante do ponto de vista religioso e histórico, mas que se traduza na prática, pessoalmente, na nossa vida quotidiana».
 
Neste sentido, elogia as palavras de Nossa Senhora na aparição de agosto. «São impressionantes as palavras ditas por Nossa Senhora em 19 de agosto de 1917: perdem-se muitas almas “por não haver quem se sacrifique e peça por elas”. Não se perdem por o mundo ser mau ou estar descristianizado; Maria não pensa em termos negativos e acusatórios, que – convenhamos – muitas vezes são-nos cómodos», critica.
 
Após a bênção dos doentes, que se retomou também este ano, D. José Ornelas abençoou a Imagem de Nossa Senhora que o Santuário de Fátima vai doar à catedral de Lviv. «Bendizei Senhor, de modo especial, esta imagem da vossa Mãe que enviaremos para a Ucrânia. Que ela seja sinal e fundamento de paz para a Ucrânia e para todo o mundo», disse D. José Ornelas, no momento da bênção.
 
Esta imagem é uma oferta do Santuário de Fátima a D. Ihor Vozniak, arcebispo metropolita greco-católico de Lviv, e o momento da bênção foi saudado com uma salva de palmas pelos mais de 150 mil peregrinos presentes no recinto de oração.
 
No final, a Procissão de Adeus acompanhou a Imagem de Nossa Senhora no seu percurso desde o altar do recinto até ao nicho na Capelinha das Aparições. «Olha por nós, olha por nós», pedia uma peregrina emocionada à passagem da Imagem. Que assim seja.

 
Reportagem e fotos: Ricardo Perna
Continuar a ler