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Elogio das crianças
15.06.2021
Dia 1 de junho celebrou-se o Dia Mundial das Crianças. Esta história que vos vou contar, e que me foi contada também a mim, por uma professora dessa escola, é o meu elogio para as crianças e, ao mesmo tempo, a esperança de que através delas aprendamos o que de verdade importa.

Chegou o dia tão desejado naquela escola primária. Os melhores atletas de cada turma iam agora correr na grande final para o melhor alcançar o prémio instituído. O vencedor tinha direito a participar num campo de férias internacional e fotografia no quadro de honra. Estava tudo preparado, os pais, alunos, professores e auxiliares já se tinham posicionado para ver a corrida. Ao soar o apito todos começariam a correr desenfreadamente competindo para chegar em primeiro lugar. A curiosidade era grande e a agitação parecia ser maior nos adultos do que nas crianças finalistas. O apitou soou, os atletas começaram a correr, houve logo dois ou três que se começaram a destacar do grupo. Os gritos e os incentivos dos adultos faziam-se ouvir bem alto: “força”, “vais ganhar”, “não o deixes ultrapassar-te”, “mais depressa”… Quase a chegar à meta toda a gente fica admirada quando vê que o inquestionável vencedor, olhando para trás, fica à espera que os outros cheguem e assim se juntam o segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto, sétimo e oitavo concorrentes. Dão as mãos e todos juntos atravessam a meta. Tinham combinado entre si aquele desfecho, porque queriam ser amigos e não concorrentes, estavam ali para se divertir e não para competir, a alegria de todos era mais importante do que o sucesso de apenas um!

Que lição extraordinária! Imagino que naquela escola, e nas famílias dos alunos, ficou-se muitos meses a falar do que aconteceu e até originou mudanças nas atividades de fim de ano escolar. Um gesto simples como o daquelas crianças deitou por terra uma mentalidade individualista, competitiva e inimiga da felicidade. (Com isto não tiro valor à importância dos desportos de competição no processo de aprendizagem ou de escolha profissional.)

As crianças têm uma sabedoria espontânea dentro de si e, graças a ela, ensinam-nos sempre tantas coisas. A primeira delas deve ser aceitar que observá-las com atenção e ver o mundo através dos seus olhos aprendemos a ser pessoas melhores. Porque elas vivem de acordo com as suas regras internas (a que nós cristãos chamamos consciência – o lugar onde Deus nos fala), como se estivessem sempre a escutar o seu coração, para fazerem sempre o que gostam, procurando a alegria em todas as coisas. Elas sabem que nasceram para serem felizes e a sua felicidade parece residir precisamente nisto. Por isso, quando jogam, desenham, correm, contam histórias, cantam, partilham o que aprenderam, fazem sempre tudo com uma alegria verdadeira e uma presença total. Pelo gosto do que estão a fazer e não pela competição ou rivalidade.

Mas as crianças são também o espelho dos adultos, possibilitando-nos ganhar consciência sobre os nossos comportamentos e dando-nos a oportunidade de sermos melhores; se o quisermos!

Tem razão o Papa Francisco quando diz que «pode-se julgar a sociedade pelo modo como as crianças são tratadas, e não só moral mas também sociologicamente, se é uma sociedade livre ou escrava de interesses internacionais». Nessa audiência geral (18-03-2015), falando só sobre as crianças, o Santo Padre sublinhou que «as crianças são em si uma riqueza para a Humanidade e também para a Igreja, porque nos chamam constantemente à condição necessária para entrar no Reino de Deus: a de não nos considerarmos autossuficientes, mas necessitados de ajuda, de amor, de perdão». «O seu olhar interior é puro, ainda não poluído pela malícia, pelas ambiguidades, pelas “incrustações” da vida que endurecem o coração.» Outras características da infância apreciadas pelo Papa é que «as crianças dizem o que veem, não são pessoas ambíguas, ainda não aprenderam a ciência da duplicidade que nós adultos, infelizmente, aprendemos». E «as crianças trazem vida, alegria, esperança e também problemas. Mas a vida é assim! Sem dúvida, trazem inclusive preocupações e por vezes muitas problemáticas; mas é melhor uma sociedade com estas preocupações e estes problemas do que uma sociedade triste e cinzenta porque permaneceu sem filhos».