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Elogio do elogio
25.03.2019 09:00:00
O elogio é fundamental nas relações com os outros. E dificilmente ficamos indiferentes a ele ou à falta dele. Porque ser elogiado faz-nos viver, enquanto ser menosprezado faz-nos morrer.

Elogiar alguém significa reconhecer no outro alguma forma de bem. Nós elogiamos as boas ações, e principalmente as pessoas boas. Depois, elogiamos a boa comida, a boa música, mas também uma bela poesia, uma bela pintura ou uma bela escultura. Elogiar é algo ético, porque diz respeito ao bem e aos aspetos positivos que reconhecemos na nossa vida.

E quando elogiamos alguém ou alguma coisa, na verdade, exercitamos a nossa capacidade de reconhecimento, que se manifesta pela alegria. É como se não pudéssemos conter só para nós o que experimentámos e sentimo-nos obrigados a manifestar gratidão por alguém ou por alguma coisa que nos deu grande alegria. Comunicar aos outros a nossa alegria reconhecida é, na verdade, uma forma de elogio.

O primeiro bem que o ser humano reconhece é o bem de ser reconhecido. Este está na origem de todas as formas de elogios. Reconhecido por outro ser humano, porque uma pessoa não pode sobreviver se lhe faltar a relação com outras pessoas. Temos necessidade dos outros como dos próprios alimentos. As simples coisas não nos bastam; consumimo-las e acabam depressa. Só a recíproca disponibilidade é a base para a satisfação desta necessidade inata no ser humano. E quão perigosa é a tendência atual de substituir as relações humanas pelas relações digitais!

Mas o elogio, como reconhecimento, pode ser também uma extorsão. Dá-se para se receber também. Esta é uma forma falsa de elogio que não nos satisfaz. Pelo contrário, torna-nos hipertróficos e faz-nos sentir mortos. Uma morte pela falta de nutrimento, porque só os outros como sujeitos reconhecidos nos nutrem. Nós não nos conseguimos nutrir a nós próprios, nem que estejamos sempre a autoelogiar-nos. Precisamos sempre de ser elogiados pelos outros. E devemos estar sempre dispostos também a agradecer e a elogiar por isto.

Na família, é tão importante que o casal reencontre razões para o elogio recíproco, tendo consciência de que o elogio não pode ser forçado. O que se pode fazer é tentar perceber quais as razões que conduziram à falta de elogios no quotidiano. Porque sem o elogio o casal não pode viver; é como se lhe faltasse o oxigénio. Por isso, o elogio não pode ser pensado como uma instrução para que o outro seja como eu o desejo, mas como um apreço verdadeiro pelo outro capaz de deixar em segundo plano os meus interesses.

Igualmente importante é ter consciência de que o elogio dos pais aos filhos transmite-lhes alegria, conforto e confiança. Os pais que se alegram pelos progressos dos seus filhos, aos dizerem-lhes da sua felicidade e emoção pelos seus progressos, transmitem-lhes boa energia e ajudam-nos a construir o sentido da sua existência. É desta forma que os filhos aprendem a amar e a viver. Para eles o elogio é um contributo essencial para estruturarem um autêntico sentido de si mesmos, o aumento da autoestima, a capacidade de criarem e manterem relações maduras e duradouras, tornando-se pessoas que afrontam a vida de uma forma construtiva e sem medos.

Nos evangelhos aparece que Jesus elogiou tantas vezes: o Pai, a sua Mãe, a viúva no templo, o centurião, Zaqueu, Natanael, a mulher que sofria de fluxo de sangue, as crianças, os pobres em espírito, os que choram, os mansos de coração, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz, os que são perseguidos por causa da justiça… «Eu Te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos.» (Mt 11,25)

Este mês começamos a preparação para a celebração da Páscoa e penso que elogiar possa ser um bom exercício quaresmal. Quantos elogios tem feito por dia? Boa caminhada quaresmal!