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Emergência Educativa
09.11.2020
Cada mudança epocal, como aquela que estamos a viver, não apenas por causa da COVID-19, tem requerido um novo caminho educativo. O Papa Francisco fala mesmo de um «novo modelo cultural», porque «educar é apostar e infundir no presente a esperança que rompe os determinismos e fatalismos com que muitas vezes o egoísmo do forte, o conformismo do vulnerável e a ideologia do utopista se querem impor como único caminho possível» (Mensagem em vídeo por ocasião do Encontro promovido pela Congregação para a Educação Católica: «Global compact on education. Together to look beyond»).

No fundo, trata-se de permitir às gerações futuras a construção de um futuro de esperança e de paz diante de uma profunda transformação antropológica, visível numa «cultura obsessivamente centrada na soberania do homem – quer como espécie, quer como indivíduo – em relação à realidade. Há quem fale até de egolatria, ou seja, de um verdadeiro e próprio culto do eu, sobre cujo altar se sacrifica cada coisa, inclusive os afetos mais queridos» (Discurso do Papa Francisco aos participantes na assembleia geral dos membros da Pontifícia Academia para a Vida, outubro de 2017).

As novas gerações, alerta o Instrumento Laboris para o Pacto Educacional Global, «de uma forma até hoje desconhecida, são forçadas a conviver com tal contradição, pois o tempo de aprendizagem e, mais profundamente, o tempo de amadurecimento, estão muito distantes dos tempos da internet. Não é raro, por conseguinte, que isso implique um forte sentimento de frustração e pobreza de autoestima e consciência de si: porque posso conseguir o que eu quero com um “clique”, mas não consigo – com a mesma rapidez – tornar-me uma pessoa adulta, capaz de escolhas importantes e de responsabilidade?»

O tempo e o espaço necessários para que o jovem se familiarize com os próprios desejos e medos são cada vez mais preenchidos por interações contínuas e atraentes, que seduzem e tendem a preencher cada momento do dia. Na grande riqueza de estímulos, experimenta-se então, por assim dizer, uma profunda pobreza de interioridade, uma crescente dificuldade a parar, a refletir, a escutar e escutar-se, sublinha o Instrumentum Laboris. Como consequência, a falta de cuidado da interioridade reflete-se numa falta de cuidado da exterioridade, e vice-versa.

Por conseguinte, «a educação apresenta-se como o antídoto natural à cultura individualista, que às vezes degenera num verdadeiro culto do “ego” e no primado da indiferença. O nosso futuro não pode ser a divisão, o empobrecimento das faculdades de pensamento e imaginação, de escuta, diálogo e compreensão mútua. O nosso futuro não pode ser este!», alerta o Papa Francisco na mensagem acima citada. E continua: «Hoje temos necessidade de uma renovada estação de empenhamento educativo, que envolva todos os componentes da sociedade. Trata-se de um percurso integral, no qual se enfrentem as situações de solidão e desconfiança quanto ao futuro, que geram entre os jovens depressão, toxicodependências, agressividade, ódio verbal, fenómenos de bullying. Um caminho partilhado, no qual não se fique indiferente ao flagelo das violências e dos abusos contra os menores, aos fenómenos das meninas-noivas e das crianças-soldados, ao drama dos menores vendidos e escravizados. A isto vem juntar-se a amargura pelos “sofrimentos” do nosso planeta, causados por uma exploração sem cabeça nem coração, que gerou uma grave crise ambiental e climática.»

«Na História, há momentos em que é preciso tomar decisões basilares que imprimam marcas na nossa forma de viver e principalmente uma posição correta face aos possíveis cenários futuros», diz o Papa Francisco, com incidência, na Mensagem que apela a um Pacto Educacional Global, sublinhando que o apelo é para todos: famílias, comunidades, escolas e universidades, instituições, religiões, governantes, a Humanidade inteira, homens e mulheres da cultura, da ciência e do desporto, artistas, operadores dos meios de comunicação social.

Cada um de nós, na sua própria responsabilidade, não pode não ser transmissor às novas gerações de que vale a pena viver e construir o futuro com responsabilidade e fraternidade.