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Encíclica «faz-nos ver a realidade do mundo e a necessidade que temos de intervir nele»
22.05.2022
D. Manuel Linda é bispo do Porto. Olha para a encíclica com olhoes de teologia, e destaca logo a «hermenêutica» do documento e o facto de chamar a si diferentes atores da sociedade.



É um documento que marca um tempo na Igreja?
Sim, obviamente que é, e a muitos títulos. Em primeiro lugar, a própria hermenêutica. Os documentos da Igreja são quase sempre dedutivos, a partir da doutrina aplica-se à realidade. Com o Papa Francisco, não é só neste documento, mas neste em particular, é partir da realidade que depois nós procuramos a luz do Evangelho. É a recuperação do velho método do ver, julgar e agir tão típico de João XXII e Paulo VI, de quem o Papa atual confessadamente é herdeiro espiritual. O Papa Francisco faz-nos olhar para o mundo, na realidade do ver, depois, partir a partir da doutrina e da própria consciência da iluminação do Evangelho, faz-nos julgar e depois faz propostas de agir. A nível de hermenêutica trata-se de uma novidade. A nível da configuração daquilo que é o magistério do Papa Francisco, vem na linha da sua preocupação de a Igreja ser instrumento de união do género humano e da união com Deus. Se desprezarmos os pontos de vista humanos da pobreza, das migrações, dos refugiados, não conseguimos ser esta Igreja presente no mundo que tem de ser instrumento da união do género humano.

Este é claramente um tratado sobre a Doutrina Social da Igreja?
Claro, e o próprio Papa o afirma logo no início, que deve ser vista como uma encíclica da Doutrina Social da Igreja. Só que, ao contrário das anteriores, que utilizavam o método dedutivo, esta faz-nos ver, a partir de uma linguagem muito simples, e esta é outra vantagem do Papa, dizer coisas complicadas com linguagem simples, faz-nos ver a realidade do mundo e a necessidade que temos de intervir nele.

É uma linguagem simples, mas dura, quase cruel. Aquela primeira parte da encíclica traça um retrato cruel do mundo...
É uma linguagem médica, diria eu, se puder usar esta metáfora. O médico muitas vezes para curar tem de cortar, e fazer uma intervenção cirúrgica que é sempre dolorosa, com métodos invasivos. Neste caso, trata-se de pôr a nú as feridas e fazê-las ver para as limpar. De facto, é cruel, nesse sentido, sem dúvida.

É uma chamada de atenção, até porque surge na sequência da Laudato si...
O âmbito do tratamento mais genérico, mas em particular as relações já nem tanto com a natureza, embora ainda estejam presentes, mas a relação dos homens entre si. Uma humanidade que foi criada para ser fraterna, irmã, e ao fim e ao cabo está a gerar cada vez mais uma humanidade que não se encontra, e portanto a dificuldade é mais gritante. Na relação com a Laudato si, enquanto que essa pegava na relação homem-natureza, esta aponta mais para a relação homem-homem, ou pessoa-pessoa.


Parece que o Papa aponta para um mundo possível, ou isto é difícil de concretizar?
Não é um mundo possível, é o mundo necessário, porque se continuarmos como estamos todos temos a perder. Temos a perder ao nível das relações humanas, que são cada vez mais frias, as redes sociais podem aproximar-nos, mas não criam intimidade. Se não mudarmos, a paz está seriamente ameaçada, e as relações deixam de ser humanas para passarem a ser instrumentais. Não é só possível, é necessário, e tem de mudar. O tema é o tema da fraternidade, que foi uma espécie de nominar da modernidade. Os exércitos de Napoleão e não só andaram para aí a impor por todo o lado, inclusive em Portugal, aqueles ideais da Revolução Francesa e do liberalismo, Liberdade, Igualdade e Fraternidade, e a Fraternidade foi metida na gaveta, e hoje ninguém reivindica a Fraternidade. Reivindicamos liberdade, de pensamento, de expressão, disto e daquilo, a Igualdade os regimes políticos quiseram impor à força, e nunca foi liberdade que movesse as pessoas numa efetiva procura do bem comum, mas a fraternidade, nem em termos de regimes políticos, nem ideologias, nenhuma delas se preocupa com isso. E o Papa vem dizer-nos que as ideologias que ainda restam e, particularmente, as religiões, são chamadas a fazer a Fraternidade, porque nem liberdade nem igualdade existem se não houver fraternidade, são ideias utópicas que não passam disso.

A encíclica é um texto que habitualmente se dirige a todas as pessoas, não apenas aos católicos. Mesmo partindo da figura de S. Francisco de Assis e da parábola do Bom Samaritano, este é um documento que facilmente pode ser entendido por quem não é crente?
Sim, evidente. Nós notamos essa mudança de perspetiva a partir do pontificado de João XXIII. Para usar a expressão típica de João XXIII, «aos bispos, não sei o quê... e aos homens de boa vontade». Portanto, já era dirigida a pessoas que não se reviam na fé da Igreja. O Papa Francisco, com o seu capital de simpatia que tem em todo o mundo, com a abertura que ele faz a todas as mentalidades, inclusive àquelas que não se pareciam muito próximas da nossa, logicamente estes homens e mulheres de boa vontade são todos os homens e mulheres do mundo. Estou convencido que a encíclica pode ser lida por todos. Repare que no início do segundo capítulo ele começa com a parábola do Bom Samaritano, e começa por dizer porque é que a escolhe, porque é uma parábola «compreendida por todos». De facto, na mente do Papa está a abertura a todo o mundo.

Parece-lhe que, à semelhança do que foi a Laudato si, esta encíclica pode fazer caminho no resto do mundo?
Pode e deve. O nosso problema é que hoje começamos a ter um tal leque de documentos que temos falta de tempo para os digerir. Veio a Laudato si, que tanta caminhada fez e que tantos corações motivou, dentro e fora da Igreja, tantos organismos que podem não se recordar da encíclica, mas colocam-se na mesma linha protagonizada pela encíclica, e agora, passado pouco tempo, veio esta. A única reserva que eu tenho é, de facto, a grande quantidade de documentos que temos e que, a dado momentos, corremos o risco de os esquecer. Ela é chamada, como a Pacem in Terris, de João XXIII, ou a Populorum Progressio, de Paulo VI, a marcar, e a marcar mesmo nos âmbitos que não são católicos.


Aqui há claramente uma agenda do Papa Francisco, uma prossecução do seu pontificado, condicionada pela sua idade, e que o leve a apressar mais alguns documentos...
Sim, é uma perspetiva de leitura muito válida. Mas há outra: quando olhamos para a história recente da Igreja, o Papa que mais produziu foi provavelmente o que se enquadrou num tempo mais difícil, que foi o Papa Leão XIII. Ele publicou cerca de 60 encíclicas, mas se pensarmos noutros documentos pontifícios solenes, o número atinge mais de 250. Isto porque, num tempo que se caracterizou por alguma perseguição à Igreja, com a Implantação da República em Portugal, a lei da separação da Igreja e do Estado de 1905, em França, mas a mentalidade que já estava por trás, nesse tempo conturbado aquilo que o Papa descobriu como necessidade da Igreja eram ideias claras, e portanto um corpo de doutrina que ajudasse a pessoa a situar-se no que a doutrina da Igreja. Estou convencido que o Papa Francisco, neste momento de grande mutação histórica, como já João Paulo II e, num pontificado mais breve, o Papa Bento XVI, o intentaram. Um corpo doutrinal seguro, que leve a Igreja a ter referências, de pensamento e de vida.

E é importante que a Igreja torne prático este documento?
Começou no tempo do pontificado do Papa Francisco, há cerca de 2 ou 3 anos, uma tentativa de implicar todos os bispos diocesanos, de forma indireta, nos documentos que iam saindo. Nós recebemos o documento 2 ou 3 dias antes da sua publicação, com embargo, para termos a possibilidade de o preparar e depois de o apresentar ao mundo, cada um no âmbito das suas dioceses. Esta prática ainda não está muito instituída, muitos de nós ainda não o fizemos em todos os documentos, mas é esta tentativa de implicar também os bispos, sinal de que o Papa concebe este regime de sinodalidade como algo que diz respeito à Igreja de hoje. Não é só o Papa quem anda um documento cá para fora, e depois quem quiser lê, mas são todos os bispos que estão diretamente implicados nele.

 
Entrevista e fotos: Ricardo Perna

 

 

 

 

 
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