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Vida Cristã
Encontro Mundial de Famílias: «As famílias de hoje»
21.02.2018
O IX Encontro Mundial das Famílias acontece entre 21 e 26 de agosto, em Dublin. A organização está a divulgar sete catequeses preparatórias sobre a Amoris laetitia. Começam com um olhar concreto às famílias de hoje, indicando a atualidade da Palavra de Deus capaz de iluminar o quotidiano familiar, para alcançar o grande sonho que Deus tem para cada família, inclusive onde as fragilidades e as fraquezas parecem destrui-la. Tudo isso faz que a família seja no mundo geradora de uma cultura nova, a da vida, da esperança e da alegria. Cada catequese é acompanhada por faixas musicais de Andrea Bocceli, no Concerto na Basílica da Sagrada Família de Barcelona.
Aqui vamos divulgá-las na íntegra. A primeira tem o tema «As famílias de hoje».  
 
Primeira Catequese - As famílias de hoje
 
«Filho, porque agiste assim connosco?
Olha, teu pai e eu estávamos angustiados, à tua procura.» (Lc 2,48)
 
Maria, mulher da escuta, abre os nossos ouvidos; faz que saibamos ouvir a Palavra do teu filho Jesus entre as mil palavras deste mundo; faz que saibamos ouvir a realidade em que vivemos, cada pessoa que encontrarmos, especialmente aquela que é pobre, necessitada, em dificuldade.
 
Maria, mulher da decisão, ilumina a nossa mente e o nosso coração, para que saibamos obedecer a Palavra do teu Filho Jesus, sem hesitação; Dá-nos a coragem da decisão, para não nos deixar arrastar para que outros orientem nossa vida.
 
Maria, mulher de ação, faz que as nossas mãos e pés se movam “com pressa” para os outros, para levar a caridade e o amor do teu Filho Jesus, para levar, como tu, a luz do Evangelho ao mundo. Amen.

               (Papa Francisco, Praça São Pedro 31 de maio de 2013)
 
Os Evangelhos narram poucas histórias sobre os acontecimentos da Sagrada Família de Nazaré. Muito é deixado ao nosso imaginário, considerando que foram cerca de trinta anos em que Jesus viveu em Nazaré com os seus. Os poucos episódios transmitidos tornaram-se fundamentais para compreender o mistério desta família.

A única história que nos apresenta Jesus aos doze anos (naquela época, a idade não era apenas de um menino, mas de uma pessoa que atingiu recentemente a idade da maturidade) que interage com seus pais, está no Evangelho de Lucas e é assim dita a história da «descoberta de Jesus no templo para discutir com os doutores da lei».

Nós certamente esperamos a narração de uma página idílica da Sagrada Família, um pouco como a dos anúncios publicitários, em que todos os membros da família são lindos, sempre sorridentes e brilhantes, em total e absoluto entendimento mútuo, no entanto, com a nossa grande maravilha, o Evangelho dá-nos outra história. Para usar um termo muito em moda hoje, a Família de Nazaré "entra em crise".

Maria e José são pessoas muito religiosas, vão pontualmente todos os anos ao templo de Jerusalém para a festa da Páscoa, como nos narra Lucas, eles trazem com eles Jesus para o educar também nesses ritmos religiosos, mas, de repente, durante a viagem de regresso de Jerusalém, depois de uma jornada de caminhada, eles não encontram Jesus na comitiva.

Essa família vai para rezar, mas aparentemente a sua oração e a sua devoção religiosa não os preservam desse tipo de vicissitudes familiares. Imaginemos o que Maria e José podem experimentar diante desse evento absolutamente imprevisto.

Um pai e, acima de tudo, uma mãe pode bem entender a angústia absurda que experimenta quando não encontra o filho e não sabe onde procurá-lo. Portanto, esta Família Santa não nos causa uma boa impressão, não nos dá um bom testemunho e não pode ser-nos um exemplo.

Porque o evangelista Lucas conta e deixa essa história dramática assim? Tudo isso destrói a maneira como pensamos desta Família, e certamente nos projeta para outra coisa, em outro lugar, em direção a um mistério maior que escapa à nossa compreensão.

O Papa Francisco, então, em Amoris laetitia abre os nossos olhos precisamente sobre este mistério: «A Bíblia é povoada por famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares, desde a primeira página, onde entra em cena a família de Adão e Eva, com a sua carga de violência, mas também com a força da vida que continua (cf. Gn 4)» (Al 8).

A Palavra de Deus não nos apresenta de modo algum uma imagem idealista e abstrata de família, como esperávamos, mas oferece ao nosso olhar, diferentes histórias de famílias concretas, com a singularidade e unicidade de seus problemas, dificuldades e desafios.

A Palavra projeta-nos em realidade com «a presença da dor, do mal, da violência que dilacera a vida da família e a sua íntima comunhão de vida e de amor» (Al 19). Da mesma forma «apresenta o ícone da família de Nazaré, com a sua vida quotidiana feita de trabalhos e até pesadelos, como quando teve que sofrer a violência incompreensível de Herodes, uma experiência que é tragicamente repetida ainda hoje em muitas famílias de refugiados rejeitados e desamparados».

O ponto fundamental, então, não é a ausência de crise nas famílias (não há uma única família, nem mesmo a Sagrada Família, que esteja isenta), mas como reagir diante de qualquer crise. A história de Lucas na sua previsão e concretude oferece a todas as famílias as coordenadas fundamentais que a tornam uma verdadeira escola de vida para todos.

À primeira vista, nós os pais de hoje, todos cuidando e prestando atenção aos nossos filhos, criticaremos imediatamente a imprudência de José e Maria ao deixar o próprio Filho sozinho e desamparado durante um dia inteiro na sua viagem de volta para casa.

Na realidade, naquela cultura, Jesus já não é considerado um menor, e é por isso que ele é tratado como um de sua idade. Além disso, no entanto, podemos compreender outro elemento mais profundo, dando-lhe um nome que é muito utilizado tanto na esfera social como na esfera eclesial: “desafio educacional”.

A este respeito, o Papa Francisco oferece a todos nós uma prospetiva indicação: «A obsessão, porém, não é educativa; e também não é possível ter o controlo de todas as situações onde um filho poderá chegar a encontrar-se. […] Assim, a grande questão não é onde está fisicamente o filho, com quem está neste momento, mas onde se encontra em sentido existencial, onde está posicionado do ponto de vista das suas convicções, dos seus objetivos, dos seus desejos, do seu projeto de vida. Por isso, eis as perguntas que faço aos pais: “Procuramos compreender ‘onde’ os filhos verdadeiramente estão no seu caminho? Sabemos onde está realmente a sua alma? E, sobretudo, queremos sabê- lo?”» (Al 261).

Muitas vezes, estamos diante de tantos pais, todos cuidando para que o seu filho possa aprender muitas atividades, como educativas, desportivas, artísticas, talvez empurrando-o para fazer coisas que eles mesmos gostariam de ter feito enquanto jovens, mas que nunca param com eles apenas para ouvir, por um momento, o mundo interior do seu coração. José e Maria correram esse risco, com toda a angústia que isso implica, e somente após três dias, três dias muito longos e intermináveis, encontram Jesus no templo.

A sua primeira reação é justamente o espanto, porque, como lemos em Amoris laetitia: «É inevitável que cada filho nos surpreenda com os projetos que brotam desta liberdade, que rompa os nossos esquemas; e é bom que isto aconteça. A educação envolve a tarefa de promover liberdades responsáveis, que, nas encruzilhadas, saibam optar com sensatez e inteligência; pessoas que compreendam sem reservas que a sua vida e a vida da sua comunidade estão nas suas mãos e que esta liberdade é um dom imenso.» (Al 262) O filho é sempre uma surpresa, é sempre um mistério para os pais desde a sua conceção.

«Com os progressos feitos pela ciência, é possível saber de antemão a cor que terá o cabelo da criança e as doenças que poderá ter no futuro, porque todas as características somáticas daquela pessoa estão inscritas no seu código genético já no estado embrionário. Mas, conhecê-lo em plenitude, só consegue o Pai do Céu que o criou: o mais precioso, o mais importante só Ele conhece, pois é Ele que sabe quem é aquela criança, qual é a sua identidade mais profunda.» (Al 170)

Portanto, diante do mistério do filho, a atitude mais verdadeira nunca pode ser a de julgamento, da desilusão, da acusação, da condenação. Quantas vezes essas declarações são provenientes dos lábios dos pais que realmente matam um filho: «Você não é o filho que eu esperava!» Diante disto «reflexo vivo do seu amor, sinal permanente da unidade conjugal e síntese viva e indissociável do ser pai e mãe» (Al 165).

A atitude mais sagrada é a abertura às surpresas de Deus. Tudo isso não é realizado de uma maneira espiritualista nem desumana. É claro que o inesperado aborrece, perturba e provoca angústias, como no caso de José e Maria, que com grande angústia estão à procura de Jesus. O Evangelho não desumaniza o coração do homem, mas respeita e dá voz aos sentimentos, que não são nem bons nem maus, e, ao mesmo tempo, ensina-nos como nos relacionarmos com os nossos sentimentos: devemos sempre questionar-nos e perguntar.

Eles fazem uma pergunta a Jesus, antes é precisamente Maria, que em nome de ambos, pergunta a Jesus. As palavras que ela usa, de uma forma extraordinária, em poucas linhas abrem-nos ao verdadeiro mistério da parentalidade: «Filho, porque agiste assim connosco? Olha, teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura.» (Lc 2,48) O filho continua sempre a ser um filho e, como tal, deve sempre ser chamado, reconhecido e amado.

Ao filho precisa sempre perguntar e questionar, nunca para ser acusado e condenado, e um pai nunca deve ter medo de se colocar no relacionamento com seu filho: «Porque fizeste isso?» A situação em jogo não é a regra moral ou o dever ou o que é certo ou errado. O que mais importa é o relacionamento e, neste caso específico, a relação fundamental entre pais e filho. Maria vai ainda mais além. Ela evidencia não apenas a relação entre pais e filho, mas a relação entre pai e mãe e filho em sua completude e integridade.

É ela, a mãe, a falar não só em seu nome, mas primeiro em nome de seu pai e depois em seu nome. Por trás dessa sequência ofusca-se uma ordem extraordinária da paternidade e da maternidade em relação à prole. Com razão, o Papa Francisco afirma que ambos «contribuem, cada um à sua maneira, para o crescimento de uma criança. Respeitar a dignidade de uma criança significa afirmar a sua necessidade e o seu direito natural a ter uma mãe e um pai».

Não se trata apenas do amor do pai e da mãe separadamente, mas também do amor entre eles, captado como fonte da própria existência, como ninho acolhedor e como fundamento da família. Caso contrário, o filho parece reduzir-se a uma posse caprichosa. Ambos, homem e mulher, pai e mãe, são «cooperadores do amor de Deus criador e como que o seu “intérprete”. Mostram aos seus filhos o rosto materno e o rosto paterno do Senhor» (Al 172).

Porque é Maria e não José a falar? Porque ela não menciona seu marido primeiro? Porque de que desde que o mundo é mundo, não podemos de modo algum negar a singularidade do relacionamento da mãe com o filho concebido e carregado em seu ventre: é ela quem «colabora com Deus, para que se verifique o milagre de uma nova vida» (Al 168). Este carregar o filho dentro de si, em suas próprias entranhas, não é apenas um elemento anatómico ou fisiológico ou temporal da mãe, mas afirma uma dimensão permanente que caracteriza a maternidade da mulher.

Maria fala a Jesus porque ela tem um relacionamento de maior proximidade e intimidade com o seu filho, mas ao mesmo tempo (uma coisa que deveriam aprender a fazer sempre todas as mães de hoje) ela atua como intermediária de José e afirma a antecedência da paternidade em relação a maternidade. Aqui estamos longe de um discurso cultural, social ou moral, ou ainda mais, machista, que afirma a prioridade do pai sobre a mãe. A história do Evangelho projeta nosso olhar muito mais longe, mais profundo e mais alto: o pai é como um sinal da Paternidade de Deus. Em vez disso, o que testemunhamos hoje?

«Uma “sociedade sem pais”. Na cultura ocidental, a figura do pai está simbolicamente ausente, distorcida, desvanecida.» (Al 176). O Evangelho então ilumina-nos sobre uma verdade fundamental: «os filhos têm necessidade de encontrar um pai que os espera quando voltam dos seus fracassos. Farão de tudo para não o admitir, para não o revelar, mas precisam dele» (Al 177). Se Maria e José podem interagir como mãe e pai em relação a Jesus, é porque a sua cumplicidade conjugal está viva.

Com que frequência esquecemos que o fundamento da parentalidade não é a prole (não nos tornamos pais unicamente com o nascimento natural do filho, e José é um testemunho concreto), mas com a conjugalidade do casal. De facto, a crise fundamental vivida hoje mais do que nunca pelas famílias preocupa-se precisamente com o analfabetismo afetivo que parte da relação fundamental entre os cônjuges em todas as outras áreas, gerando a «cultura do provisório. Refiro-me, por exemplo, à rapidez com que as pessoas passam de uma relação afetiva para outra. Creem que o amor, como acontece nas redes sociais, se possa conectar ou desconectar ao gosto do consumidor e inclusive bloquear rapidamente. Penso também no medo que desperta a perspetiva de um compromisso permanente, na obsessão pelo tempo livre, nas relações que medem custos e benefícios e mantêm-se apenas se forem um meio para remediar a solidão, ter proteção ou receber algum serviço. Transpõe-se para as relações afetivas o que acontece com os objetos e o meio ambiente: tudo é descartável, cada um usa e joga fora, gasta e rompe, aproveita e espreme enquanto serve; depois… adeus.» (Al 39) Tudo isso desencoraja claramente a geração mais jovem a formar uma família, assustada pelo fracasso daqueles que fizeram essa escolha antes deles. Nesse sentido, a Família de Nazaré torna-se um farol não ideal, mas real, porque também, nas contradições e nos absurdos dos seus acontecimentos de vida, mostra a todas as gerações «a alegria do amor» (Al 1) que se vive dentro de casa.

Por esta razão, o Santo Padre afirma resolutamente: «A aliança de amor e fidelidade, vivida pela Sagrada Família de Nazaré, ilumina o princípio que dá forma a cada família e a torna capaz de enfrentar melhor as vicissitudes da vida e da história. Sobre este fundamento, cada família, mesmo na sua fragilidade, pode tornar-se uma luz na escuridão do mundo. “Aqui se aprende (…) uma lição de vida familiar. Que Nazaré nos ensine o que é a família, a sua comunhão de amor, a sua austera e simples beleza, o seu carácter sagrado e inviolável; aprendamos de Nazaré como é preciosa e insubstituível a educação familiar e como é fundamental e incomparável a sua função no plano social.”» (Al 66)
 
Queremos aprender a ser uma família? Vamos deitar fora o modelo idealista que temos na nossa cabeça e olhemos para a Sagrada Família, que mostra a todos como os eventos críticos da vida são uma fonte inesgotável de graça e de santificação para o mundo inteiro.

Em Família

Para refletir


1. O que significa que uma crise familiar se possa tornar uma fonte inesgotável de graça?
2. Qual é a singularidade da maternidade ou da paternidade?

Prática
1. Certamente na sua vida familiar e conjugal há dificuldades, problemas, as chamadas “crises”. Como lidou com elas? Como, por outro lado, poderia enfrentá-las à luz da catequese que meditou?

2. Como vive o seu ser pai ou ser mãe em relação ao cônjuge que Deus colocou ao seu lado? Como fazer o seu filho ou os seus filhos experimentarem a inter-relação entre a paternidade e a maternidade?

Na Igreja
Para refletir


1. Porque diante da cultura do provisório não atrai a beleza da cultura do para sempre do amor?
2. Em que sentido a Paternidade de Deus é o fundamento de toda paternidade terrena?
 
Prática
1. Como uma comunidade eclesial deve interagir com as múltiplas e frequentes crises familiares? Qual estilo, quais métodos, quais instrumentos, quais espaços e o que mais é chamada a oferecer?

2. Ser pai e ser mãe é a missão mais difícil e mais complexa. Como a Igreja é chamada a levar a sua contribuição nesta missão singular e única?
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