Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
Envelhecer juntos: quando os pais e os filhos são idosos
26.10.2020
À medida que a vida se torna mais longa, os filhos adultos, maduros, perto dos 60-70 anos, assumem cada vez mais o cuidado dos pais mais velhos e frágeis, muito perto dos 80-90 anos, se não até mais. Estes pais já de idade avançada, quer sejam ainda independentes ou tenham associadas enfermidades crónicas e algumas incapacidades resultantes das suas doenças, precisam de ajuda. A velhice é uma fase delicada em que o contacto humano se torna mais necessário do que nunca.

Aceitando o que a vida traz, os filhos tornam-se numa fonte de apoio, física, emocional e, por vezes, até financeira dos pais. Muitos suportam o custo de cuidar dos pais idosos enquanto, paralelamente, têm de suportar as propinas das faculdades dos próprios filhos. Estão como que ensanduichados entre duas gerações. De um lado os pais, do outro os seus próprios filhos.
Estes filhos julgavam que iriam ter tempo para desfrutar da reforma, do sossego, da calma e poder realizar tantos projetos sonhados: viajar pelo mundo fora, ser voluntário num hospital, na paróquia ou simplesmente estar com a família e com os netos. Mas não, não vai poder ser assim. Porém, fazem o que têm de fazer. Porque a vida é assim mesmo.

Só que as consequências a médio e a longo prazo destes cuidados prolongados são bastante significativas. Ter de ajudar todos os dias um pai mais velho a entrar e a sair da cama, a tratar da sua higiene, a ajudar a entrar no carro para ir ao médico ou ter de acordar à noite para o auxiliar pode tornar-se num trabalho muito exigente para um corpo também ele já cansado. Estes filhos sentem-se, pois, mais vulneráveis e menos competentes para recuperar da sua fadiga física e emocional. Em muitas situações, esta crescente procura de tempo e de cuidados conduz a uma sobrecarga acompanhada de culpa e autorrepreensão.
Na grande maioria das ocasiões, os filhos ultrapassam os próprios limites ao cuidarem dos pais. Os sinais tornam-se inequívocos, as primeiras doenças começam a aparecer. E se não são eles próprios a adoecer, são os seus cônjuges. Porém, ao excederem-se estão a incorrer em riscos importantes. Será, portanto, útil considerarem a necessidade de receberem ajuda e apoio profissional, para que o amor entre pais e filhos se possa manter intacto.

O facto de se viver mais anos e em melhores condições de saúde deu origem a um novo cenário familiar em que os conflitos surgem devido à coexistência de diferentes gerações, com interesses e valores diferentes, que põem em perigo a harmonia familiar.

E o que podemos fazer face a esta situação? Haverá alguma forma de fazer sofrer, o menos possível, tanto os pais como os filhos que têm de cuidar deles?

Sem dúvida que sim. Eu diria que tem de haver um equilíbrio nas duas situações. Os filhos devem, antes de mais, cuidar da sua própria família, mulher ou marido e filhos. Mas não se podem esquecer, em momento algum, da obrigação moral, familiar e cívica que têm. Enquanto filhos, devem ser capazes de se colocar no lugar dos pais. De compreender a transição que enfrentam e tentar ser compreensivos e tolerantes com as suas queixas, com o seu mau humor ou com as suas complicações de saúde.
Mas, mais do que tudo, nunca se podem esquecer do laço profundo que os liga; que, além das mudanças de humor ou das dificuldades de mobilidade, eles continuam a ser os seus queridos pais. As pessoas que os amam de forma incondicional. Ontem, hoje e sempre. Uma coisa, eu sei, este trabalho não pode ser realizado por obrigação, para regularizar uma dívida pendente ou por mera culpa. Terá de ser sempre uma tarefa de amor, e de amor desinteressado.

Hoje, nesta nova normalidade de COVID, mime, telefone ou faça uma visita aos seus pais. E, já que o abraço tem muitas vezes de ficar adiado, só o mostrarmos que os amamos já faz muitos sorrisos!