Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
EPIS: Programas ajudam alunos a alcançar o máximo potencial
12.09.2022
Em 2006, dez empresários juntaram-se para criar a Associação Empresários pela Inclusão (EPIS), com o objetivo de ajudar os jovens em risco de insucesso escolar. Na altura, a intervenção começou no 3.º ciclo. Desde então já foram acompanhados 40 mil alunos. Agora, 16 anos depois, os programas da associação vão do pré-escolar ao ensino superior. A FAMÍLIA CRISTÃ foi saber mais e conhecer quem está no terreno.
 
Isauro e Wildna foram alunos EPIS, mas ainda recorrem à professora Helena.

Na sala da Escola Básica 2,3 Paulo da Gama, reúnem-se antigos e atuais alunos EPIS. Isauro Menezes estava no 5.º ano quando conheceu a EPIS. Agora está no 8.º, mas continua em contacto com a mediadora EPIS Helena Barata. Recorda que no 5.º ano «não estudava, portava-me mal, faltava ao respeito aos stores, ia para a rua». «Só gostava de estar na escola, não gostava de estudar», confessa. Chumbou nesse ano e esteve assim dois anos até conhecer a Helena. «A stora ia-me dando na cabeça, falando comigo, ajudava-me a superar melhor o meu comportamento. O tempo foi passando, depois passei de ano», recorda, dizendo que «foi uma mudança rápida». A seguir conseguir ter notas de quatros e cincos. Agora, Isauro mantém «a falta de querer estudar», mas «estudo com dificuldade, mas estudo», «para ter um futuro melhor, só quero é dinheiro», afirma com gargalhadas.

Wildna Carvalho senta-se de frente para Isauro, o seu tio. A mediadora Helena diz, a rir, que ela era «o terror das avenidas». A jovem conta que «no 5.º ano, no começo eu não falava com ninguém. Depois comecei a faltar a aulas, faltas disciplinares, ir para a rua. Não gostava de estudar».

O que a fez mudar a atitude perante a escola? «A stora tinha-me perguntado o que queria ser quando fosse maior e não sabia responder a essa pergunta, porque havia tanta coisa que eu queria ser. A stora também me tinha perguntado se eu queria continuar na escola e eu disse que não. Estou a dar o meu melhor para sair da escola! Para acabar mais rápido!» Agora frequenta o 8.º ano e continua a não gostar da escola, mas «as notas são boas» e só tem negativa a Inglês.

Helena não obriga a fazer nada. «Eu aconselho, eu oriento, eu ajudo, eu apoio, eu abraço. Tento criar empatias, envolvê-los no processo, aplico as metodologias. Mas o grande trabalho da mediadora é levá-los a quererem aplicá-las. Sabemos que podem obter melhores resultados.»

Helena Barata e Margarida Brandão.

Margarida Brandão é a coordenadora EPIS de Setúbal, Palmela, Seixal e Almada. Antes tinha sido mediadora durante seis anos e explica que não se trata de «uma explicação, não é tutoria. Nós não temos nenhuma varinha mágica nem comprimidos de vontade. Temos o conhecimento para ajudar, mas só podemos ajudar se os alunos quiserem».

Isauro e Wildna explicam que falam com a mediadora Helena «em praticamente todas as situações, mesmo fora da escola, é a intimidade». Cria-se uma relação que depende da empatia entre alunos, mediadora e família. «As mães são a continuidade, são as minhas amigas. Elas têm o número de telefone. Falamos à hora de jantar, falamos à hora de almoço», conta Helena.
Carmen Maria lembra os momentos em que está «desesperada» e pede ajuda à mediadora para saber como lidar com o filho. André chumbou no 5.º ano. «Ele veio a dizer-me que estava no EPIS: “Ajuda-nos, fala connosco e apoia-nos.” “E gostas?” “Até gosto, porque explica coisas importantes”», diz. Carmen lembra que a passagem do 4.º para o 5.º ano, com a mudança de escola, foi difícil. «Chumbou o ano e agora está a repetir o 5.º. Mas este ano melhorou muito mais nas notas e no comportamento. Não a 100%, mas 90. Sabendo que ele tem EPIS e que ele gosta, fiquei mais descansada.»

A professora Helena com André e a mãe.

A sós, André explica-me que a maneira de Helena falar com ele fez a diferença. «Comecei a falar mais com a professora. Não fiquei com muita vergonha. E é engraçada.» O rapaz confessa: «Eu portava-me mal, não respeitava os professores, não fazia os trabalhos, não estudava. Agora, neste 5.º ano, continuei a não gostar de estudar. Só queria ficar no telemóvel. Mas quando vim para a EPIS comecei a melhorar um pouco a minha atitude, a minha atenção, o meu desenvolvimento.»

Continua a não gostar das aulas nem de estudar. As notas ficam «no 3 e no 4, às vezes desço para dois». Salienta que gosta de conversar com a mediadora e admite que valoriza agora mais as notas. «São importantes para conseguir passar de ano. Se depender de mim, se quiser ir para a faculdade… Ainda não sei se gostava de ir...» Uma ideia que quer deixar em aberto.
Como são selecionados os alunos EPIS? Andreia Jaqueta Ferreira, diretora de programas de Promoção do Sucesso Escolar EPIS e formada em Psicologia e em Ciências da Educação, explica que «todos os programas da EPIS, do pré-escolar até ao 12.º ano, começam com processo de rastreio». À entrada de cada ciclo, os alunos respondem a um questionário informaticamente e o próprio sistema identifica «as áreas de risco do aluno e permite de uma forma automática que o mediador saiba que tipo de competências é que tem de trabalhar e como é que vai trabalhar». O mediador «decide se aceita ou não».
Com os alunos considerados em risco de insucesso escolar, a partir do 2.º ciclo, a intervenção começa com uma conversa guiada. Isso implica «ver o histórico de sucesso do aluno, a assiduidade, o envolvimento com a escola, a perceção de risco em relação à escola, se gosta de andar naquela escola, se se sente acolhido pelos professores, se se sente integrado no grupo». E também «o acompanhamento que a família faz, os hábitos de leitura, se a família passa tempo com o aluno, se o aluno sente que a família está disponível para ele, se o tempo que passam juntos é suficiente, se se sente considerado pela família e temos uma atenção especial a tudo o que tem que ver com exposição a violência na família e na escola e o consumo de substâncias».
A EPIS trabalha com competências não cognitivas. Mas como é que isso influencia o sucesso escolar e a relação com a escola? «Um aluno que não consegue trabalhar por objetivos, que não tem capacidade de planeamento, que não sabe gerir o seu tempo, que é inseguro em relação às suas capacidades, que é pouco resiliente, é um aluno que vai ter insucesso na escola, mas, mais do que tudo, vai ter insucesso na vida», defende Andreia.
Diogo Simões Pereira, diretor-geral da Associação, em visita à Escola EB 2/3 do Fogueteiro. Créditos foto: EPIS

Diogo Simões Pereira, diretor-geral da Associação EPIS desde o início, em 2006, explica que «a maior parte destes miúdos que estão a perder anos nas escolas tem um problema transversal, não tem um problema a Matemática, a Português. Tem um problema de desmotivação, de falta de ambição, de falta muitas vezes de capacidade de relacionamento. Uma série de problemas associados muitas vezes à adolescência, mas também à pré-adolescência e até antes».
A EPIS começou no 3.º ciclo, alargou-se ao 2.º ciclo em 2010, ao 1.º ciclo em 2012/2013 e a partir de 2019 ao pré-escolar. «Neste momento, os programas vão dos três aos 18 anos de idade», explica Diogo, mas também há bolsas sociais para o ensino superior. Os programas baseiam-se nas competências não cognitivas, com adaptações às idades das crianças e às exigências de cada ciclo. No 1.º ciclo, por exemplo, «há focalização maior numa série de competências mais cognitivas, que são as funções executivas, e também uma preocupação muito grande com a aprendizagem a ler e a escrever e a contar».
Em 2011, a associação decidiu começar a utilizar os conhecimentos dos voluntários que as empresas tinham em «programas de mentoring, de formação».

Seguiram-se as explicações. «Estamos a acompanhar perto de dez mil alunos e as explicações digitais são mais focalizadas no 2.º e no 3.º ciclos, mas temos espaço para crescer.» Diogo explica que «muito do tempo é para os voluntários conversarem com os alunos, para falarem dos seus problemas. O voluntário transforma-se rapidamente numa espécie de mentor, ou irmão mais velho ou de um padrinho, como quisermos chamar. É uma relação que, em muitos casos, perdura no tempo».
Há 11 anos, a EPIS iniciou as bolsas sociais, para «ajudar quem merece ser ajudado a prolongar a sua carreira escolar e para chegar, no fundo, ao seu máximo potencial, e não aquilo que o seu potencial económico ou a sua família determinaram como destino». As bolsas são para o ensino secundário e superior e apoiam a inserção profissional e estágios profissionais de jovens com deficiências.

Da experiência destes 16 anos, o diretor-geral da EPIS acredita que «muitos miúdos que acompanhamos andam na escola com a sensação única de obrigação, porque tem de ser. Tudo isto tem que ser explicado e a explicação tem muito que ver com o ter objetivos na vida, o perspetivar-se o que é vida, o que é uma carreira escolar e onde é que leva uma carreira escolar. Eles estão a trabalhar para eles próprios».
 
 

De olhos no futuro
A EPIS – Associação Empresários pela Inclusão tem, para 2022-2024, o compromisso «Mais perto, mais longe». O objetivo é «estar mais perto dos alunos de origem migrante e refugiados, das comunidades piscatórias e rurais». Diogo Simões Pereira, diretor-geral da Associação EPIS, lembra que, «nos últimos 15 anos, as taxas de insucesso escolar desceram muito significativamente em Portugal. Hoje em dia, temos bolsas de insucesso escolar resilientes e onde é preciso manter a intervenção ou reforçar a intervenção».
No ano letivo 2021/2022, foram acompanhados 9263 alunos por 134 mediadores, com mais de 500 voluntários. A EPIS está presente em 41 concelhos, 265 escolas e distribuiu 290,1 milhões de euros em bolsas sociais.
 
Reportagem e fotos: Cláudia Sebastião
Continuar a ler