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Escutar com o ouvido do coração…
23.05.2022
Foi este o ponto de partida para a última mensagem do Papa Francisco a propósito do Dia Mundial das Comunicações Sociais. O texto vinha numa sequência lógica em relação ao ano anterior. Depois de nos ter convidado a um movimento de saída para «ir e ver», este ano a proposta do Papa Francisco colocou-nos na necessidade de encontrarmos o tempo de escutar, de ouvir o mundo de uma forma mais profunda, porque mais verdadeira. As suas palavras dizem-nos que é tempo de descobrir a realidade da surdez interior, uma realidade capaz de ter consequências tão ou mais graves do que a surdez física. As citações referidas no texto, de Santo Agostinho, «não tenhais o coração nos ouvidos, mas o ouvido no coração», ou de São Francisco de Assis, quando pedia aos seus que se dispusessem a «inclinar o ouvido do coração», são prova da pertinência deste olhar límpido sobre a surdez interior…

E se o texto é dirigido a todos os profissionais da comunicação, considerando o Papa Francisco que a escuta é condição de uma boa comunicação, o último ponto da sua mensagem é dedicado à importância da escuta na vida da Igreja, referindo-se ao processo sinodal como uma grande ocasião de escuta recíproca. Assim esperamos que aconteça, focados num futuro muito próximo.

Mas a atualidade impõe-se e hoje já não é possível reler este texto sem ter presente a situação da guerra na Ucrânia. E nesta leitura tudo ganha uma nova dimensão, porque assistimos em direto ao trabalho dos profissionais de comunicação social, que saíram dos seus países, das suas casas e famílias e nos contam, todos os dias, o que veem, o que escutam, o que sentem, perante cidades arrasadas, famílias separadas, vidas sem qualquer valor… uma miséria que só a guerra faz acontecer. Uma miséria que incomoda, que provoca um ruído quase permanente. Uma miséria contada com histórias reais, de gente com nome, com lágrimas, com trabalho, com escolas, com jardins, com férias. De gente que perde tudo. De um momento para o outro.

Ao mesmo tempo, assistimos ao que parece ser um silêncio ensurdecedor. As vítimas desta guerra falam, pedem, choram, suplicam e os dias passam. Conhecemos a intimidade das casas bombardeadas, numa exposição da intimidade de vidas em tudo iguais a nós. E os dias passam. Esperamos que as sanções económicas tenham efeitos. Esperamos que as negociações tenham resultados. E os dias passam. Esperamos que a indignação do mundo se concretize em gestos eficazes, decisões capazes de mais. E os dias passam…

Acredito que todos tememos o dia em que os jornalistas se calem, os cameras sejam chamados às suas redações, os posts nas redes sociais sejam passados com a rapidez do que já não interessa. Temo o dia em que ver e escutar esta guerra seja mais um sofrimento entre tantos outros, um sofrimento que toca e foge das nossas vidas, porque não é a nossa vida. Acredito que todos defendemos a atitude de quem não se cala perante o mal, porque só assim seremos capazes de ajudar a ganhar esta guerra, em que os mais fracos travam uma luta desigual, mostrando uma resiliência e uma coragem sem igual.

Termino estas linhas em plena Semana Santa. Conheço as leituras, o rito de cada celebração. E, neste ano, atrevo-me a pensar que na celebração da paixão e da morte de Jesus muitos de nós teremos na memória do coração as ruas desertas, as cidades destruídas, as vidas caídas de homens, mulheres e crianças ucranianas. Bem sabemos que a brisa da madrugada de Páscoa nos anuncia a vitória da Vida sobre a morte. Bem sabemos que a pedra colocada sobre aquele túmulo foi rolada, para sempre aberta para salvação de todos. Bem sabemos que não estamos sós. Mas peço a Deus, nesta Páscoa, com fé e com esperança, que nunca deixamos de escutar com o ouvido do coração o sofrimento dos nossos irmãos.