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«Eu estou sempre convosco»
31.03.2020
As condições em que vivemos, impostas pela COVID-19, podem ser uma oportunidade para valorizar a nossa casa como o nosso refúgio, redescobrir as relações familiares, reaprender a ocupar o tempo, voltar ao silêncio e a reaprender a estar sem fazer nada.

As novas gerações nunca experimentaram uma suspensão da vida social assim tão grave e prolongada. Dos meios de comunicação aguardamos ansiosos os números dos novos casos infetados, mortes, curas e soluções. E a resposta a esta pandemia, por incrível que pareça, vem de uma componente tão tecnológica e científica (a vacina ou medicamento tão aguardados) e de gestos tão arcaicos quanto vitais como o isolamento e a quarentena que nos fazem regressar aos tempos da peste negra.

Numa situação como esta experimentamos a necessidade dos outros, não só a ajuda indispensável de médicos, enfermeiros e pessoal da área da Saúde, mas também dos mais velhos da nossa família com o seu tesouro humano e afetivo capaz de nos equilibrar.

Mas não menos importante é o lugar que a espiritualidade ocupa nestas nossas vidas “isoladas”. Falando ao telefone com um amigo, padre, ouvia o seu desabafo: «Este ano a Páscoa não vai ser a mesma porque não temos o povo nas nossas igrejas.» E pensava: sei o que significa o povo para um sacerdote e o valor que um sacerdote tem para o povo, mas esta é precisamente uma ocasião para purificar o que D. Carlos Azevedo apelidou, no 7Margens, de «muita liturgia pode pretender exaltar Deus, mas celebra apenas a exata aparência dos devotos». As igrejas vazias numa situação como esta não significam ausência de Deus ou falta de fé. Mas uma oportunidade para reconhecer e experimentar os sinais e a presença de Deus bem mais próxima de nós do que imaginamos: nos médicos, nos enfermeiros, nos bombeiros, nas forças de ordem pública, nos avós e nos pais, em todas as pessoas que cuidam da vida como sinal e presença de Deus que cuida dos seus filhos: «Sempre que fizestes isto [doente… visitastes] a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes.»

Na tempestade ou na bonança, Cristo fez-nos uma promessa: «Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos.» (Mt 28,20) Está connosco, quer o vírus nos ataque ou não. O Senhor pode até fazer milagres, como tem acontecido desde que visitou esta terra, mas a vida da Humanidade está e estará sempre sujeita às leis da natureza. Ser Igreja em saída, como deseja o Papa Francisco, neste momento significa ficar em casa, não contribuir para a difusão do mal, continuar a viver a fé com a ajuda dos meios de comunicação social e digital, rezar mais juntos e descobrir a presença de Deus na nossa casa.

Mas alguns intransigentes reclamam: “Porque é que podemos ir aos supermercados e não podemos participar na Eucaristia?” A resposta é simples: porque se não comemos morremos, enquanto a privação da Eucaristia, ainda que seja uma provação espiritual dura, não prejudica a vida espiritual, quando as circunstâncias assim o impõem e quando a participação na Eucaristia através dos meios de comunicação é vivida com verdadeira fé. Quantos cristãos no passado viveram o Evangelho sem se poderem aproximar da Eucaristia?

O Senhor está connosco mesmo que a morte bata à porta de algum membro da nossa família, amigos, vizinhos e conhecidos, como está a acontecer um pouco por todo o mundo, por causa da pandemia do coronavírus. Porque d’Ele nem a morte nos separará.

A incerteza ligada ao futuro é um refrão que não vai sair tão depressa da nossa mente. Depois da COVID-19, a vida social, política, económica e religiosa não vai voltar a ser a mesma. Teremos de nos reinventar e voltar ao essencial. Isto será o mais difícil: voltar ao essencial; porque nos perdemos pelas infinitas possibilidades que a tecnologia e as tendências sociais nos ofereceram.